Só falta uma coisa para essa gestão fazer com o Internacional
O que aconteceu na Arena foi mais uma noite para o torcedor do Inter tentar entender como o clube chegou nesse ponto. O Colorado tomou 3 a 0 do Grêmio, foi eliminado da Copa do Brasil, levou um banho de estratégia e futebol do maior rival e agora volta para a sua realidade: está encravado na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro. E é impossível começar sem falar da gestão Alessandro Barcellos. O Inter já aumentou a dívida, já passou por eliminações e derrotas constrangedoras, já perdeu para adversários que jamais deveria perder e agora levou mais um passeio do Grêmio em uma decisão. No Gauchão já tinha acontecido. Agora aconteceu de novo, dentro da Arena, em uma Copa do Brasil. Só falta uma coisa para essa gestão completar todo o rodízio de desgraça: rebaixar o Internacional. E o pior é que o clube está trabalhando para isso. O Inter está no Z4, não consegue vencer, tem enormes problemas financeiros, salários atrasados, transfer bans e um time que não dá nenhuma segurança de reação.
Agora, antes de colocar tudo nas costas da direção, precisamos falar de Paulo Pezzolano. Porque o treinador errou demais nesses dois Grenais. No Beira-Rio, já tinha inventado Calebe de lateral-direito, Vitinho de centroavante e mudado completamente o funcionamento de uma equipe que vinha encontrando alguma competitividade. Na Arena, inventou de novo. O Inter vinha conseguindo jogar melhor com uma linha de cinco defensores, três jogadores por dentro e uma equipe bem fechadinha, esperando o adversário. Não era um futebol lindo. Longe disso. Mas era o jeito em que este elenco conseguia competir. E aí eu pergunto: por que mudar justamente numa decisão? Pezzolano colocou Sanabria de centroavante e mexeu na estrutura defensiva. Na teoria era algo próximo de um 4-3-2-1. Só que, na prática, ajudou o Grêmio.
Sanabria nem fez uma partida horrorosa. Fez pivô, brigou, conseguiu segurar algumas bolas. Mas ele virou exatamente aquilo que Kannemann queria encontrar pela frente. Kannemann já não tem a mesma vitalidade para correr atrás de atacante rápido, móvel, que sai da área e obriga ele a defender espaço. Agora, dá uma referência para ele bater, disputar, antecipar e jogar no corpo? Aí tu está dando para o Kannemann exatamente o jogo que ele gosta. E o resultado foi que Kannemann se consagrou. Depois teve o lado direito. Mateus Bahia ficava mais preso, Maripán e Mercado completavam essa saída com três, enquanto Bruno Gomes avançava como uma espécie de ala. Só que Bruno Gomes não é um ala agressivo hoje. Ele já foi volante, virou lateral, depois virou zagueiro. Perdeu até o cacoete daquela função. Alan Patrick precisou entrar por dentro para não bater no mesmo espaço e congestionou tudo.
O Inter não tinha força pela direita. Alan Patrick não conseguia criar. Bruno Gomes não conseguia atacar. E, para piorar, abriu espaço para Amuzu. Amuzu, que não vinha jogando absolutamente nada desde a parada, simplesmente ressurgiu no Grenal. Sabe por quê? Porque tinha campo. Jogador rápido, com espaço, vai jogar. Pezzolano avançou o setor, tirou proteção, deixou o Grêmio atacar por ali e o Amuzu fez a festa. Aí fica difícil defender. Eu vinha dizendo que Pezzolano precisava inventar alguma coisa porque, se for jogador por jogador, qualidade por qualidade, o Inter tem enorme risco de cair. O treinador precisa encontrar uma estratégia diferente para competir. Mas uma coisa é ajuste. Outra é invencionice. Uma hora linha de cinco. Outra hora linha de quatro. Uma hora sem centroavante. Depois com centroavante. Já teve zagueiro de centroavante. Já teve Calebe, canhoto, de lateral-direito. Aí não dá. Me ajuda a te ajudar, Pezzolano.
O Grêmio percebeu tudo isso e fez uma escolha muito simples: “Inter, pega a bola”. E o Inter pegou. Teve mais posse de bola praticamente o jogo inteiro. Só que tem um detalhe: o Inter não sabe jogar com a bola. Não sabe. O Inter é melhor quando fica recuado, toma pressão, recupera e sai em três ou quatro toques. Carbonero correndo, Bernabei chegando, Alan Patrick tentando colocar alguém na cara do gol. Quando precisa pegar a bola, ficar tocando, construir contra bloco baixo e entrar numa defesa posicionada, o time simplesmente trava. O Grêmio foi inteligente. “Tu quer a bola? Fica com ela.” E ficou com os gols.
O primeiro saiu numa bola parada, com Carlos Vinícius se livrando da marcação de Mateus Bahia e aparecendo para marcar. Depois veio o segundo numa belíssima construção do Grêmio, com troca rápida de passes e Carlos Vinícius novamente aparecendo para fazer 2 a 0. Ali a classificação estava praticamente resolvida. E o mais assustador é que Pezzolano foi para o intervalo perdendo por 2 a 0 e não mexeu nas peças. Fez ajuste tático, tentou segurar um pouco mais um lado, mas jogador mesmo, mudança que sacudisse o time, nada. Aí tomou o terceiro. Só depois do 3 a 0 o Inter resolveu jogar com a faca entre os dentes. Só depois do 3 a 0 começou o desespero.
E aí entra Alerrandro. Alerrandro, que passou semanas sendo fritado. Perdeu espaço, foi criticado, viu até Juninho, que é zagueiro, terminar partida jogando de centroavante. Aí o time está tomando 3 a 0 num Grenal e dizem: “Vai lá, Alerrandro, resolve”. Complicado. Não dá para construir confiança em jogador desse jeito. E tem outra coisa que essa partida mostrou: aquela discussão sobre concentração e salário não pode virar explicação para tudo. No primeiro Grenal, o Inter estava com pagamento atrasado, os jogadores se recusaram a concentrar e fizeram um jogo equilibrado. Mercado foi um dos líderes do movimento para não concentrar e acabou sendo um dos melhores do Inter naquele clássico. Agora a direção pagou uma parte dos direitos de imagem, antecipou salário, todo mundo foi para o hotel, dormiu cedo, comeu direitinho, fez tudo bonitinho. E tomou 3 a 0.
Não to dizendo que concentrar faz mal. Evidentemente não. O que estou dizendo é que às vezes no futebol brasileiro a gente dá importância demais para certas coisas e esquece do principal. Futebol se ganha com jogador bom, treinador bom, estratégia, treinamento, organização, disciplina e trabalho de longo prazo. Não adianta ter concentração, bicho ou qualquer folclore se a estrutura esportiva não funciona. E hoje não funcionou. Luís Castro foi muito melhor do que Pezzolano. O Grêmio entendeu o jogo, o Inter não. O Grêmio sabia como atacar, sabia como defender e sabia exatamente onde estavam as dificuldades do rival.
Por isso a eliminação colorada é merecida. Não existe arbitragem, detalhe isolado ou justificativa extracampo capaz de explicar uma derrota tão clara. O Inter foi superado pelo adversário na estratégia, nas individualidades e no funcionamento coletivo. Agora acabou a Copa do Brasil. Não tem mais semifinal para sonhar, não tem mais clássico para desviar o assunto e não tem mais segunda competição para dividir atenção. É Campeonato Brasileiro. É Z4. É luta contra o rebaixamento.
Talvez essa eliminação sirva pelo menos para colocar os pés do Inter definitivamente no chão. O clube não pode se achar melhor do que é. Não pode entrar numa partida achando que vai propor, dominar e fazer o que simplesmente não sabe fazer. Hoje este Inter precisa entender suas limitações, fechar a casinha, competir e encontrar um jeito de sobreviver. Porque, depois de tudo que já aconteceu nessa gestão, só falta uma coisa. E se o Internacional cair para a Série B, aí Alessandro Barcellos terá completado o pior cenário possível.