Hugogil.pt
·21 de maio de 2026
Sport TV: quando a desinformação cobra assinatura

In partnership with
Yahoo sportsHugogil.pt
·21 de maio de 2026

Chegámos a um ponto que é simultaneamente caricato e preocupante no jornalismo desportivo português. A Sport TV publicou nas últimas horas que José Mourinho seria o próximo treinador do Benfica. Apagou a notícia pouco depois. Sem retratação pública. Silêncio total.
O pequeno detalhe é que José Mourinho continua a ir ao Seixal. Não comunicou rigorosamente nada ao clube nem à comunicação social. Marco Silva, outro nome que circula pelos corredores da especulação mediática, foi ainda mais direto: não ouviu, não esteve reunido, não recebeu qualquer proposta do Benfica. Zero. Nada. Ponto final.
Como é que uma redação com recursos humanos, com assinantes que pagam todos os meses, com uma marca construída ao longo de décadas, publica uma coisa dessas?
A resposta, lamentavelmente, é simples: porque a disputa pela audiência transformou o jornalismo desportivo numa corrida de velocidade onde importa ser o primeiro, não ser o mais rigoroso. Nessa corrida, perde-se o mais básico da profissão – confirmar a informação antes de a publicar. E quando se erra, apaga-se discretamente, esperando que ninguém note.
Mas nós notámos. E não esquecemos.
Este episódio não é um caso isolado, é um padrão. A Sport TV é o canal onde ex-jogadores de clubes rivais comentam jornadas do Benfica com toda a suposta isenção do mundo. Onde ex-árbitros abrem a boca com as opiniões que lhes chegam pelos grupos de WhatsApp de antigos colegas. Onde a perspetiva “neutral” é garantida, sistematicamente, por quem tem razões objetivas para não ser neutral.
Lembramo-nos ainda do episódio do Belenenses. Aquele em que foi noticiado que o clube descia de divisão quando ainda tinha dois jogos para disputar. Mas para quê esperar pelos factos quando a “notícia” já estava feita e o clique já tinha sido conquistado?
O problema não é errar. Errar é humano, é jornalístico, é inevitável. O problema é a ausência de consequências, de transparência, de responsabilização. É a cultura do apagar discreto e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.
A verdade nua e crua é esta: ninguém sabe nada. O mercado de treinadores é uma nebulosa de interesses cruzados – agentes a trabalhar várias frentes em simultâneo, clubes a explorar hipóteses sem compromissos formais, intermediários a fazer circular nomes para criar pressão nas negociações.
Os agentes adoram a imprensa desportiva portuguesa porque sabem que um “exclusivo” num canal com assinantes tem o poder de criar factos consumados, de pressionar decisões, de colocar um clube numa posição negocial desfavorável. É marketing e estratégia de negociação disfarçados de informação jornalística. E alguns jornalistas aceitam esse papel sem pestanejar.
Quem paga a assinatura tem direito a melhor do que isto. Tem direito a rigor. Quando um canal publica algo que não é verdade, alguém apareça em câmara a pedir desculpa. Tem direito a comentadores escolhidos pelo conhecimento e pela isenção, não pela disponibilidade ou pela ligação ao clube adversário.
Esse dia ainda não chegou. E enquanto os assinantes continuarem a pagar sem exigir, duvido que chegue tão cedo.
Ao vivo







































