Central do Timão
·12 de agosto de 2026
Stabile e Tuma são alvo de representação que pede afastamento e expulsão no Corinthians

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Por Larissa Beppler | Redação da Central do Timão
O associado do Corinthians Leandro Jorge Bittencourt Cano protocolou, nesta quarta-feira (12), um requerimento perante a Comissão de Ética e Disciplina do clube solicitando a instauração de processos ético-disciplinares contra o presidente da diretoria Osmar Stabile e o presidente do Conselho Deliberativo Romeu Tuma Júnior. No documento, Cano também pede o afastamento cautelar imediato dos dois dirigentes, a destituição de ambos dos cargos e, ao fim da apuração, a expulsão deles do quadro associativo do Timão.
O requerimento, ao qual a Central do Timão teve acesso, aponta que o Corinthians vive um período de grave instabilidade institucional e atribui aos dois principais dirigentes do clube uma série de episódios que, na avaliação do associado, são incompatíveis com os deveres estatutários de zelo pela reputação, pelo patrimônio e pelo regular funcionamento da instituição. As acusações apresentadas no documento deverão ser analisadas pela Comissão de Ética, que ainda precisará avaliar a admissibilidade e o mérito dos fatos narrados.

Foto: Evander Portilho/Corinthians
De acordo com Cano, juiz de direito e ex-conselheiro do Corinthians, a atual gestão do clube é marcada por sucessivos embates entre a Diretoria Executiva e o Conselho Deliberativo. O requerimento cita, entre outros episódios, confrontos públicos entre Stabile e Tuma Júnior, disputas judicializadas envolvendo decisões internas e três pedidos de impeachment apresentados contra o presidente do clube em curto intervalo de tempo.
O documento também destaca o afastamento cautelar de Tuma aprovado pelo Conselho Deliberativo por 115 votos a 15 e posteriormente anulado pela Justiça por vício formal relacionado à convocação da reunião extraordinária. Para o requerente, o episódio demonstra que as disputas entre as principais autoridades do clube chegaram a comprometer a observância das regras estatutárias.
Acusações contra Romeu Tuma Júnior
Em relação a Romeu Tuma Júnior, Cano aponta como um dos principais elementos de sua argumentação a condução de processos disciplinares envolvendo conselheiros que participaram dos episódios relacionados à invasão da sede social do Corinthians, em 31 de maio de 2025.
O requerimento afirma que teria havido tratamento desigual entre os envolvidos e cita, especificamente, o caso do conselheiro Mario Mello Júnior. Segundo o documento, Tuma teria substituído uma recomendação de desligamento apresentada pela Comissão de Ética por uma suspensão temporária. O dirigente, porém, nega ter criado uma pena alternativa. De acordo com Tuma, a própria defesa do conselheiro solicitou que o plenário analisasse a possibilidade de substituir a proposta de absolvição pela aplicação de uma suspensão, medida que, em sua avaliação, encontra respaldo no estatuto do clube.
O documento também menciona a decisão de Tuma, em 1º de julho de 2026, de conceder efeito suspensivo às expulsões dos ex-diretores das categorias de base Claudinei Alves e José Valmir da Costa. Posteriormente, o Conselho Deliberativo reverteu as expulsões, absolvendo Claudinei por 54 votos a 38 e Valmir por 57 a 32.
Na avaliação de Cano, a diferença de tratamento entre os processos representa possível aplicação seletiva do rito disciplinar e teria enfraquecido a autoridade da Comissão de Ética dos Associados.
Outro ponto destacado é o período em que Tuma se licenciou da presidência do Conselho Deliberativo, em abril de 2026, após a Justiça suspender uma Assembleia Geral que discutiria alterações no estatuto corinthiano. Em nota oficial, o dirigente classificou a atuação da diretoria como “autoritária” e “golpista”, acusações que, na visão do associado, deveriam ter sido submetidas aos mecanismos disciplinares internos.
Três pedidos de impeachment e investigação do Ministério Público contra Stabile
O requerimento dedica espaço ainda maior à atuação de Osmar Stabile. Cano relaciona três pedidos de impeachment apresentados contra o presidente corinthiano desde abril deste ano, cada um baseado em diferentes episódios envolvendo a administração do clube.
O primeiro, relembra no documento, questiona o acordo firmado entre o Corinthians e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) para equacionamento de uma dívida de aproximadamente R$ 1,2 bilhão. O requerimento também cita declarações de Stabile sobre a existência de supostos “funcionários fantasmas” no clube.
O segundo pedido de impeachment está relacionado à contratação da empresa Mega Assessoria Operacional Ltda., aberta em nome de um funcionário do Corinthians. Segundo o documento, a empresa recebeu mais de R$ 676 mil do clube, em contratação que posteriormente motivou a instauração de procedimento investigatório criminal pelo Ministério Público de São Paulo.
Já o terceiro pedido de impeachment, protocolado pelo próprio Leandro Cano, foi baseado, conforme o requerimento, em manifestação do Ministério Público no chamado “Caso Nike”. O associado questiona a decisão de Stabile de apresentar, nos autos do processo criminal, uma manifestação institucional favorável ao vice-presidente Armando Mendonça, afirmando que uma auditoria interna não teria identificado desvio de materiais esportivos. Para Cano, a manifestação pode representar conflito de interesses e gestão temerária, uma vez que o Corinthians aparece no caso como potencial vítima.
Um dos argumentos mais recentes utilizados no pedido diz respeito à inclusão formal de Osmar Stabile na condição de investigado em procedimento do Ministério Público de São Paulo, que passou a investigar o presidente por possível utilização de recursos do Corinthians para custear serviços de segurança particular em seu benefício, realizados pela empresa Bear Security. O requerente considera que a passagem de Stabile à condição formal de investigado reforça a necessidade de seu afastamento cautelar enquanto os fatos são analisados.
Outro episódio destacado no requerimento é uma declaração feita por Stabile em entrevista à TMC, no início de junho. Ao tratar da relação entre conselheiros e a administração corinthiana, o presidente afirmou que “cada conselheiro tem um contrato embaixo do braço”.
Cano argumenta que a declaração poderia indicar a existência de vínculos contratuais entre conselheiros e o clube e, consequentemente, possíveis conflitos de interesse no órgão responsável pela fiscalização da diretoria.
O documento lembra que Leonardo Pantaleão, presidente da Comissão de Ética e Disciplina do Conselho Deliberativo, solicitou esclarecimentos a Stabile sobre os contratos mencionados, incluindo objetos, valores e vigências. Segundo o requerimento, o presidente não teria apresentado, até o momento, esclarecimento público considerado satisfatório pelo autor da representação.
A aprovação das contas do Corinthians referentes ao exercício de 2025 também foi incluída entre os fundamentos do pedido. O balanço apontou déficit de R$ 143,4 milhões e foi aprovado pelo Conselho Deliberativo por 106 votos a 68.
Cano questiona especialmente as ressalvas apresentadas pela auditoria externa independente Parker Russell Brasil Auditores Independentes. Entre os pontos mencionados está o questionamento sobre a continuidade operacional do clube e o reconhecimento, nas demonstrações de 2025, de um ganho de aproximadamente R$ 593,3 milhões relacionado ao acordo com a PGFN, formalizado somente em 2026.
O requerimento afirma que Stabile defendeu a manutenção do lançamento contábil perante o plenário, apesar das ressalvas da auditoria e de recomendações também feitas pelo Conselho de Orientação e pelo Conselho Fiscal.
Caso Memphis Depay
O associado também incluiu no pedido a decisão anunciada pelo Corinthians na última terça-feira (11) de não renovar o contrato de Memphis Depay.
Segundo o documento, clube e jogador já haviam alinhado previamente os termos de um novo vínculo até meados de 2028, mas a diretoria desistiu da renovação. O requerimento menciona ainda uma dívida reconhecida pelo Corinthians de aproximadamente R$ 77 milhões com o atacante, referente a salários, direitos de imagem e premiações em atraso.
Na avaliação de Cano, a possibilidade de uma nova judicialização da dívida poderia gerar encargos adicionais e aumentar o desgaste institucional do clube.
Pedido de afastamento cautelar
Além da abertura do processo disciplinar, o requerente pede o afastamento imediato de Stabile e Tuma Júnior enquanto a Comissão de Ética analisa o caso.
A justificativa é baseada na existência de risco de continuidade ou agravamento dos danos institucionais. O documento argumenta que a permanência dos dois dirigentes nos cargos poderia favorecer a ocorrência de novos conflitos, deliberações posteriormente questionadas e atos de gestão relacionados a fatos sob investigação.
O associado sustenta ainda que a medida não representa antecipação de julgamento, mas uma providência cautelar destinada a preservar a isenção da apuração e a integridade institucional do Corinthians.
Por fim, Leandro Cano solicita que a Comissão de Ética e Disciplina receba e processe a representação, instaurando processo ético-disciplinar contra Stabile e Tuma. O pedido inclui a produção de provas, juntada de notícias, atas, decisões judiciais e demais documentos mencionados, além da oitiva dos dois dirigentes e de eventuais testemunhas.
Caso as acusações sejam consideradas procedentes ao término do processo, Cano pede a destituição de Stabile da presidência da diretoria e de Tuma Júnior da presidência do Conselho Deliberativo, além da aplicação da penalidade máxima prevista pelo estatuto, com a consequente expulsão de ambos do quadro associativo do Corinthians.
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