Zerozero
·18 de junho de 2026
Ucraniano, mas criado por americanos em plena guerra: quem é o adversário do Sporting?

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·18 de junho de 2026

Quando o Sporting entrar em campo para disputar a segunda ronda de qualificação da Liga dos Campeões, terá pela frente um dos projetos mais improváveis do futebol europeu.
Em apenas três anos de existência, o SeaSters Odesa passou do zero absoluto à elite do futebol feminino ucraniano. Fundado em 2023, em plena guerra, o clube vai agora disputar o acesso à maior prova europeia de clubes, depois de ter terminado a temporada 2025/26 no segundo lugar do campeonato da Ucrânia.
A história começa no verão de 2023, em Odesa, cidade portuária do sul da Ucrânia. Num país mergulhado na invasão russa em larga escala, surge um novo clube com uma identidade própria e um objetivo ambicioso: criar um projeto sustentável de futebol feminino num contexto de guerra.
O SeaSters Odesa nasce através da Allrise Capital, grupo de investimento norte-americano que já tinha adquirido o Estádio Chornomorets em 2020. Em vez de recuar perante o conflito, a empresa decidiu reforçar a presença no país e avançar com um projeto desportivo de raiz.
«Em vez de nos retirarmos do mercado ucraniano, expandimos os nossos projetos, incluindo a criação do SeaSters», explicou Mikhail Trubchik, COO da Allrise Capital, numa entrevista à Ukrainian News. A visão era clara: o futebol como ferramenta de reconstrução social.
O nome do clube reflete essa identidade. «SeaSters» junta sea (mar), numa referência a Odesa e ao Mar Negro, e sisters, sublinhando o carácter exclusivamente feminino do projeto.
Dentro de campo, o crescimento foi imediato. Na época de estreia, em 2023/24, o SeaSters dominou a Ukrainian Women’s First League e conquistou o título, garantindo a promoção ao principal escalão.
O primeiro treinador foi Yevhen Dodurych, técnico com experiência em clubes da região, e o plantel foi construído com uma base de jogadoras experientes, incluindo a internacional ucraniana Olga Boychenko, uma das figuras mais tituladas do futebol do país.
A adaptação à elite foi rápida. Na Ukrainian Women’s Top League, o clube consolidou-se entre as principais equipas do país e, em 2025/26, terminou o campeonato no segundo lugar, resultado que lhe garantiu a qualificação para o acesso à Liga dos Campeões.
O percurso técnico também evoluiu rapidamente. Após Dodurych, o comando passou por Denys Kolchin, antes de uma nova mudança em 2026, que levou Anatoliy Didenko a assumir a equipa técnica. Ao seu lado esteve Semen Altman, figura conhecida do futebol ucraniano.
Apesar da juventude do projeto, o SeaSters já reúne um núcleo competitivo com várias internacionais ucranianas, como Daria Vorontsova, Kateryna Samson e Yana Kalinina, além de Olga Osipyan, jogadora da seleção da Arménia.
O clube vai muito além do campo. Paralelamente à equipa principal, o SeaSters criou uma rede de escolas gratuitas de futebol feminino na região de Odesa. Atualmente existem seis centros em funcionamento, com cerca de 150 jovens atletas, e o plano passa por expandir para 25 escolas até ao final de 2026. A iniciativa nasceu da resposta direta aos efeitos da guerra.
Muitas destas raparigas perderam as suas casas, escolas e amigos», afirmou Mikhail Trubchik. «Queremos dar-lhes uma oportunidade de treinar, fazer amizades e sentirem-se parte de uma comunidade.»
O clube tornou-se também um veículo de projeção internacional da Ucrânia em tempo de guerra. Em colaboração com parceiros norte-americanos, organizou iniciativas de apoio logístico e exposições como «SeaSters: Strength and Hope», apresentada em cidades como Washington, Sacramento, São Francisco e Odesa, com imagens de treinos interrompidos por sirenes e estádios destruídos.
Para vários observadores, o SeaSters insere-se num fenómeno mais amplo: o uso do futebol como ferramenta de diplomacia durante o conflito.
A investigadora ucraniana Christine Karelska defende que o futebol feminino desempenha hoje um papel central na forma como a Ucrânia se projeta internacionalmente. «Estas mulheres são as nossas embaixadoras», afirmou numa entrevista à ERR News. «Representam a nossa cultura e mostram ao mundo como o país continua a resistir.»
Nos dias de jogo, o simbolismo mantém-se presente. O clube presta homenagem às vítimas da guerra antes do apito inicial e parte das receitas é canalizada para apoio às Forças Armadas ucranianas.
Num contexto de destruição e incerteza, o futebol continua e, em Odesa, o SeaSters tornou-se um dos exemplos mais visíveis dessa persistência.
Num futebol feminino europeu dominado, em grande parte, por secções de grandes clubes masculinos, o projeto ucraniano destaca-se pela origem: não nasceu de um histórico, nem de uma estrutura centenária, mas de uma iniciativa criada durante uma guerra.
Agora, dois anos depois da fundação, prepara-se para defrontar o Sporting no acesso à Liga dos Campeões. Um percurso que começou no meio do conflito e que já colocou o SeaSters no mapa do futebol europeu.







































