O Grêmio perdeu por 3 a 2 para o Bolívar na altitude, pela repescagem da Copa Sul-Americana, mas continua vivo na competição. Agora, sinceramente, foi um jogo de várzea. A partida começa com gol dos caras, o Grêmio consegue empatar com muito esforço e, um minuto e meio depois, toma outro gol. Em certo momento, estava 2 a 2 e tu pensava: “Bom, numa dessas o Grêmio acha um gol, o Villasanti aparece, e a gente volta para casa com um empate”. Só que, na segunda etapa, foi um massacre do Bolívar. O Weverton teve que fazer uma ou duas defesas absurdas e, se a gente forçar, até um terceiro milagre. O Grêmio só não saiu perdendo de quatro ou cinco porque o goleiro estava numa noite inspirada.
Eu sei que existe a altitude e jamais vou desprezar esse fator. É óbvio que jogar em La Paz é muito impactante. Mas o Grêmio joga no nível do mar e, mesmo assim, continua tendo enormes dificuldades. O time é insuficiente. Tem problemas de organização, sim, e o Luís Castro precisa ser cobrado por isso, mas também temos que começar a responsabilizar os jogadores pelas decisões que tomam em campo. Tomar um gol com um minuto de jogo não é culpa do treinador. Empatar uma partida com muito esforço e tomar outro gol um minuto e meio depois também é responsabilidade dos atletas.
O Pavón, por exemplo, vai dormir sonhando com o Patito Rodríguez. O cara tem quase 40 anos, jogou no Santos e nunca foi nada demais, mas hoje fez o que quis com o lateral-direito do Grêmio, deixando o jogador até sentado em um dos gols. Bola alta na área gremista virou um Deus nos acuda. Ao mesmo tempo, como tudo estava meio invertido, o Villasanti fez uma grande partida. Entendeu o jogo, tabelou quando tinha que tabelar, chutou quando tinha que chutar e fez, talvez, a melhor atuação dele com a camisa do Grêmio.
O torcedor do Grêmio, pelo menos, não morre de tédio. Foi 3 a 2 e dá para vencer na Arena, encaminhar a classificação e seguir na Sul-Americana. Mas que foi um jogo de várzea, isso foi.
O Weverton foi o melhor em campo. Eu sei que alguém pode dizer que ele poderia ter ido melhor em um ou outro gol, e é verdade. Mas ele salvou o Grêmio em uma bola cara a cara, fez defesa em chute de longe e evitou uma tragédia ainda maior. Se terminasse 5 a 2 para o Bolívar, não seria nenhum absurdo. O próprio time boliviano também perdeu chances, mas imagina o Grêmio tomando cinco gols e tendo que voltar para a Arena para tentar resolver a situação. O Weverton foi fundamental.
O segundo melhor, para mim, foi o Villasanti. O Pavón, por outro lado, é um jogador que normalmente participa de lances importantes no ataque, mas hoje caiu sentado em um dos gols. A defesa do Grêmio também teve uma noite muito ruim. Eu até vi elogios ao Wagner Leonardo, que pode ter ganhado alguns duelos, mas, quando a bola era levantada na área, era um desespero. O Pedro Gabriel também teve uma bola nas costas que terminou em uma defesa milagrosa do Weverton. Estava todo mundo falhando.
O Luís Castro não esteve na beira do campo por uma questão de saúde, e isso precisa ser respeitado. Mas é ele quem manda, é ele quem escala e é ele quem define a estrutura do time. O Léo Pereira ficou centralizado na frente da área, muitas vezes quase como um terceiro zagueiro, embora a ideia fosse que ele atuasse como primeiro volante para proteger a defesa. O Villasanti ficou pela direita, o Dodi pela esquerda, formando o meio-campo. Na frente, Pavón pela direita, Enamorado pela esquerda e Braithwaite como centroavante.
O Léo Perez, para mim, é insuficiente para o Grêmio. Acho que isso já ficou claro, a não ser que ele tenha uma evolução gigantesca. O Riquelme está voltando e ainda precisa de um desconto, mas mostrou qualidade no lampejo em que avançou e fez o gol. O Dodi é aquele tipo de jogador que os treinadores gostam. Tenho certeza de que ele foi escalado também porque a altitude exige pulmão e físico, e ele tem essas características.
O Villasanti foi o melhor jogador de linha do Grêmio. Já o Enamorado foi comprometedor novamente. É verdade que ele rende melhor pela esquerda, mas não repetiu as boas atuações individuais. Ele nunca foi um jogador muito associativo. Normalmente recebe a bola, parte para dentro, cruza e tenta resolver na jogada individual. Hoje, porém, foi muito mal. Teve uma chance em que o goleiro estava completamente perdido, a defesa também, e ele precisava apenas escorar a bola para o gol. É um jogador profissional. Não dá para perder uma oportunidade dessas. Aquela chance poderia ter mudado completamente a história da partida.
O Braithwaite também sentiu o efeito da altitude. Não fez uma grande partida e fisicamente não conseguiu acompanhar o jogo. Eu não entendi por que o Matheus Nascimento entrou apenas na reta final, já nos acréscimos. Se o Braithwaite estava sentindo, era possível colocar um atacante mais móvel, com mais vitalidade e força física, para tentar mudar o jogo. Essa é uma cobrança que pode ser feita ao treinador e à comissão técnica.
O Grêmio estava tomando muitos gols, a bola aérea era um problema e o jogo estava completamente aberto. Quando o Luis Eduardo não estava tão bem, houve uma mudança na zaga, mas também era necessário pensar em alterações que impactassem o time ofensivamente. O Matheus Nascimento poderia ter entrado antes justamente por ter mais velocidade e capacidade de correr atrás dos defensores.
Mas, no fim das contas, foi um jogo de várzea. Gol com um minuto, empate, gol um minuto depois, bola aérea a todo momento, goleiro fazendo milagre e gols do Grêmio saindo em jogadas meio caóticas. O gol do Villasanti teve mérito, claro, mas também contou com um pouco de sorte. O gol do Dodi também veio depois de um bate-rebate. Não estou tirando o mérito dos jogadores, mas é preciso reconhecer que não foi uma partida organizada.
Eu não estou ofendendo os jogadores do Grêmio quando digo isso. Mas um jogo de futebol profissional exige um pouco mais de organização e profissionalismo. O Grêmio volta vivo porque, embora o Bolívar tenha sido superior fisicamente no segundo tempo e tenha tido alguns momentos melhores tecnicamente, é um time que dá para vencer na Arena. Sem a altitude, o Grêmio perde uma das principais vantagens do adversário e certamente terá condições de jogar melhor.
Só que precisava fazer esse tipo de jogo? É o segundo jogo depois da parada e a segunda derrota. É verdade que essa derrota pode ser revertida, mas o Luís Castro tinha prometido que o Grêmio voltaria diferente. Vocês lembram? Tudo ficava para depois da parada. Pois então: a parada acabou, e a situação continua praticamente a mesma.