Uma vitória preocupante do Grêmio por conta disso aqui que aconteceu
O Grêmio venceu a Chapecoense por 3 a 1 na Arena, mas o resultado não pode esconder uma atuação bastante preocupante. É justamente aquele tipo de jogo que serve para mostrar que análise de futebol não pode ser resumida a ganhar ou perder. O Tricolor somou três pontos, virou uma partida em que começou atrás e não chegou a correr grande risco no placar depois da virada, mas continuou mostrando muitos dos mesmos problemas que aparecem há meses no trabalho de Luís Castro.
Mesmo com cinco mudanças em relação ao time que começou o Grenal, a escalação gremista continuava forte para enfrentar uma Chapecoense que vive uma situação extremamente complicada no campeonato. Pavón apareceu na lateral direita, Enamorado começou pelo lado, Braithwaite foi o centroavante e Danilo Barbosa entrou no meio porque Noriega estava suspenso. Villasanti ficou mais preso na marcação, enquanto Krovinović recebeu um pouco mais de liberdade para construir. A ideia parecia clara, mas o funcionamento novamente deixou muito a desejar.
A Chapecoense começou melhor e o 1 a 0 não surgiu por acaso. Antes mesmo de abrir o placar, já havia criado oportunidades e obrigado Everton a trabalhar. O gol aconteceu depois de uma sequência em que o visitante ocupava melhor o campo e conseguia chegar com facilidade. Para um Grêmio jogando na Arena, contra um adversário cheio de limitações, começar dessa maneira já era um sinal bastante ruim.
A reação pelo menos foi rápida. Aos 17 minutos, Enamorado aproveitou o rebote de uma cobrança de falta, finalizou forte, a bola desviou em Gustavo Martins e matou o goleiro. Dez minutos depois veio a virada com Pavón, aproveitando uma bola mal afastada depois de escanteio. O problema é justamente aquilo que aconteceu entre um gol e outro: praticamente nada. O Grêmio virou sem construir uma sequência de pressão ou produzir futebol suficiente para justificar aquela mudança no placar.
O terceiro gol, já no segundo tempo, também surgiu em bola parada. Depois de cobrança de escanteio no primeiro poste, Gustavo Martins apareceu para cabecear e fazer 3 a 1. Ou seja, os três gols gremistas nasceram de situações muito específicas: rebote de falta, sobra de escanteio e cobrança de escanteio. Todos valem exatamente a mesma coisa, claro, mas isso ajuda a explicar por que a torcida vaiou o time mesmo quando o Grêmio foi para o intervalo vencendo por 2 a 1.
Luís Castro também percebeu que o desempenho não era bom e começou a mexer relativamente cedo na segunda etapa. Mesmo depois do terceiro gol, o Grêmio continuou errando passes importantes, principalmente em zonas perigosas, e permitindo que a Chapecoense entrasse em sua defesa com uma facilidade que não deveria acontecer. Wallace precisou fazer um grande bloqueio em uma dessas jogadas e Everton voltou a aparecer logo depois. Os dois acabaram entre os destaques de uma partida contra um adversário que, teoricamente, deveria exigir muito menos do sistema defensivo gremista.
Individualmente, também existem muitos problemas. Pavón se esforçou, fez o gol e mostrou dedicação, mas ainda precisa entregar mais. Amuzu entrou e novamente passou uma sensação de distanciamento do jogo. Braithwaite teve outra atuação muito fraca e praticamente não participou das construções ofensivas. É aquele famoso caso em que parece existir um jogador a menos quando o time tem a bola. Carlos Vinícius entrou depois, mas também não conseguiu melhorar muito. É um atacante muito dependente de o restante da equipe produzir para que ele receba a bola dentro da área e finalize.
Villasanti também esteve muito abaixo. Errou fundamentos simples e apresentou uma versão muito distante daquele jogador que normalmente passa segurança no meio-campo. Pode existir uma questão física, principalmente porque voltou recentemente de lesão, mas a quantidade de erros chamou atenção. Krovinović, por outro lado, fez um primeiro tempo interessante quando recebeu liberdade para avançar e participar mais da construção, mas caiu fisicamente depois do intervalo.
E esse é outro problema que precisa ser colocado na conta. O Grêmio voltou a morrer fisicamente no segundo tempo. Krovinović já havia demonstrado isso no Grenal e novamente perdeu rendimento. Outros jogadores também caíram muito. É compreensível no caso do croata, que ficou bastante tempo sem ritmo competitivo, mas fica mais difícil justificar quando acontece de maneira coletiva. Luís Castro está no clube desde o começo da temporada, teve período de preparação e inclusive uma longa parada no calendário. Neste estágio do ano, o time já deveria apresentar uma condição física e uma mecânica de jogo mais consistentes.
No fim, todas essas críticas individuais também chegam ao treinador. Não dá para apontar Pavón, Amuzu, Braithwaite, Villasanti e outros jogadores sem perguntar por que quase todo o time apresenta dificuldades ao mesmo tempo. O Grêmio ainda não tem movimentos ofensivos coordenados de maneira natural. Muitas vezes o jogador recebe a bola e só então começa a procurar o que fazer. Falta o lateral passar no momento certo, o volante recuar para oferecer a saída, o meia atacar o espaço e o atacante puxar a marcação. Falta uma mecânica mais clara.
Esse talvez seja o ponto mais preocupante do trabalho de Luís Castro. O Grêmio tem momentos, ou “espasmos”, em que consegue construir alguma coisa, mas ainda não apresenta uma sequência de movimentos que permita reconhecer claramente um time treinado ofensivamente. Para o tempo de trabalho que a comissão já teve, deveria existir muito mais naturalidade.
A vitória por 3 a 1 é importante, principalmente porque o Grêmio precisa pontuar e respirar no Campeonato Brasileiro. Ninguém está dizendo que os três pontos não valem ou que vencer virou um problema. O que não dá é utilizar o placar para concluir que o time jogou bem.
Contra uma Chapecoense extremamente limitada, foi suficiente. Contra adversários melhores e, principalmente, pensando na decisão do Grenal pela Copa do Brasil, talvez não seja. O Grêmio venceu, mas continua deixando a sensação de que seus principais problemas estão exatamente no mesmo lugar. E é isso que torna uma vitória aparentemente tranquila também bastante preocupante.