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·27 de fevereiro de 2026
Vale uma Série B? A polêmica história do Torneio Paralelo de 1986

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Em agosto de 2025, representantes de Central, Criciúma, Inter de Limeira e Treze se reuniram para a criação de um grupo que tinha o intuito de pleitear junto à CBF o reconhecimento do Torneio Paralelo de 1986 como uma edição da Série B do Campeonato Brasileiro – e que teria os quatro clubes como campeões.
O pleito não chega a ser uma novidade, já que não é de agora que diversos clubes pedem reconhecimento de torneios como títulos, com ou sem lastro para tal. Ao mesmo tempo, o pedido mostra como o futebol brasileiro evoluiu em quatro décadas, consolidando competições que antes eram bem mais bagunçadas.
Naquela época, a CBF e o Conselho Nacional de Desportos vinham tentando desvincular o Brasileirão dos campeonatos estaduais. Era comum que os classificados do Campeonato Brasileiro fossem definidos pelas campanhas nos estaduais, mas a ideia era que o Brasileirão de 1986 já definisse os participantes de 1987 com base nos desempenhos dos times no torneio.
A ideia era que o Brasileirão de 1986 fosse realizado entre agosto de 1986 e fevereiro de 1987 e contasse com 44 clubes na primeira fase: campeão e vice de 1985 (Coritiba e Bangu), mais 22 times definidos por classificações estaduais, mais 19 por ranking histórico, mais o campeão da Taça de Prata de 1985 (Tuna Luso). As equipes seriam divididas em quatro grupos com 11 times cada, classificando para a segunda fase as seis melhores de cada chave, além das quatro melhores campanhas.
A estes 28 times, somariam-se mais quatro oriundos do Torneio Paralelo, totalizando 32 times. E é aí que começa a confusão.
O Torneio Paralelo indicaria quatro times para a segunda fase do Campeonato Brasileiro e seria disputado paralelamente à primeira fase com times que ficaram fora do grupo principal. Entre eles, o melhor colocado do Brasileiro de 1985 que não entrou na primeira lista (o Brasil de Pelotas) e o vice-campeão da Taça de Prata de 1985 (Goytacaz). Outros 22 times oriundos dos torneios estaduais completariam os 24 participantes.
Mais eis que chegou agosto, e diversas federações estaduais começaram a pressionar a CBF por mais vagas no torneio. O Rio de Janeiro, por exemplo, indicou o Americano para o lugar que seria do Campo Grande, alegando que a classificação seria definida pelo ano de 1985 e que o Campusca teria a vaga para 1987.
A CBF cedeu e aumentou de 24 para 36 o número de participantes. Curiosamente, o Rio de Janeiro não recebeu uma das vagas adicionais – pior para o Campo Grande, que foi preterido e viu o Americano ir para o torneio.
No fim das contas, o Torneio Paralelo teve 36 times e foi disputado de maneira simples entre setembro e outubro enquanto rolava a primeira fase do Brasileirão. Cada grupo teve nove times cada, e cada um enfrentou apenas os rivais do próprio grupo em turno único. Ao fim das oito rodadas, o vencedor de cada um dos quatro grupos garantiu vaga na segunda fase do Campeonato Brasileiro.
Terminadas as oito rodadas, Treze (Grupo E), Central (Grupo F), Inter de Limeira (Grupo G) e Criciúma (Grupo H) venceram os respectivos grupos do Torneio Paralelo e garantiram vagas para a segunda fase do Campeonato Brasileiro de 1986.

O Treze de 1986 (Imagem: Retalhos Históricos de Campina/Reprodução, via GE)
Parece uma repescagem simples, mas o formato basicamente dava sequência ao regulamento que a Taça de Prata utilizou entre 1980 e 1985.
Neste período, a Taça de Prata – a segunda divisão da época, disputada também com base nos resultados dos torneios estaduais – contava com um mecanismo que ficou conhecido como “acesso intermediário”. Os vencedores dos grupos da primeira fase eram promovidos diretamente para a segunda fase da Taça de Ouro, enquanto os segundos e os terceiros colocados das chaves permaneciam na disputa pelo título da segunda divisão, que dava a vaga à primeira divisão do ano seguinte.
Na prática, o Torneio Paralelo fazia a mesma coisa, dando aos vencedores de cada chave as vagas para o Campeonato Brasileiro. A diferença é que não houve a sequência do torneio para a definição de um campeão. De fato, o Torneio Paralelo consagrou o quatro times, mas sem que houvesse um campeão – ou, no caso, quatro campeões.
Os quatro classificados não foram muito longe. O Central foi lanterna de sua chave e rebaixado para a segunda divisão de 1987. O Treze escapou e permaneceu. Inter de Limeira e Criciúma passaram pela segunda fase, mas caíram nas oitavas.
Mas o olhar sobre este torneio mudou a partir de 2010, quando a CBF reconheceu como edições do Campeonato Brasileiros a Taça Brasil (1959 a 1968) e o Torneio Roberto Gomes Pedrosa (1968 a 1970). Com a unificação, outros clubes passaram a postular reconhecimentos de outras competições.
Apenas para listar os pedidos dos clubes, torneios como o Quadrangular de Belo Horizonte de 1948, o Torneio dos Campeões Norte-Nordeste de 1952, a Copa dos Campeões do Norte de 1966, a Copa Minas de 1967, o Torneio Norte-Nordeste de 1968, o Torneio das Campeões da CBD de 1969, o Torneio dos Campeões da CBF de 1982 poderiam ser válidos como edições do Brasileirão. Os pleitos têm pouca chance de sucesso, já que os torneios carecem de alguns requisitos, como linearidade cronológica e critérios de classificação, além de boa parte ter rolado quando o Campeonato Brasileiro já era uma competição consolidada.
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Mas o Torneio Paralelo teria mais chances – especialmente porque surgiu após uma sequência de edições da Taça de Prata, mantendo a base do formato de disputa. Em contrapartida, pode ser compreendida como uma fase do Campeonato Brasileiro de 1986. E agora?
Em 2023, as federações estaduais de Pernambuco e da Paraíba, representando respectivamente Central e Treze, anunciaram a intenção de reconhecer a competição como uma Série B de 1986. Os dirigentes deixaram claro que o momento era politicamente propício para a tentativa, e que a mudança de status da competição teria pouco ou nenhum impacto no presente.
“A CBF vem sendo solícita nesse tipo de análise histórica, reconhecendo títulos do passado. Queremos o mesmo em relação à Série B de 1986”, afirmou Michelle Ramalho, presidente da Federação Paraibana. “Não haveria prejuízo para ninguém, a competição não contaria pontos para o ranking atual. É apenas um afago na história. Os quatro times merecem o reconhecimento como campeões”, reforçou Evandro Carvalho, da Federação Pernambucana.
A CBF declarou na ocasião que “todos os filiados da CBF, através das federações, têm o direito de fazer suas solicitações e requerimentos”. A Federação Catarinense até chegou a sugerir na época um quadrangular entre os quatro times para definir um campeão, mas a ideia não foi adiante.
Com o sinal verde da CBF, os quatro clubes formaram em 2025 uma comissão para o reconhecimento do torneio, e tiveram um grande trunfo com a chegada de Samir Xaud à presidência da CBF – em especial porque Michelle Ramalho assumiu a vice-presidência da entidade no mesmo ano.









































