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·17 de setembro de 2026
'Vamos aos clássicos de carro-forte': as histórias do paulista do Capão Redondo que brilha na Indonésia

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Apaixonado pelo futebol desde criança, Gustavo logo soube que seu futuro seria com a bola. Seu primeiro contato foi aos dez anos, no popular terrão. Hoje, mais de 20 anos depois, o centroavante segue carreira longe do Brasil, desbravando o curioso e contagiante futebol indonésio, com histórias para lá de curiosas.
"Sou nascido e criado no Capão Redondo, na periferia de São Paulo. Eu vim de um lugar que não tinha condições. Só o futebol me fez acreditar. Mas eu sabia que era possível. Minha família fez o impossível para manter o meu sonho vivo. Acreditar foi o principal combustível", pontuou o jogador em entrevista à oGol.
A primeira experiência profissional de Gustavo com a bola redonda foi em 2016, há dez anos, vestindo a camisa do Marília. E a verdade é que as portas no futebol brasileiro pouco se abriram, o que resgatou um de seus sonhos: jogar fora do país. Em sua cabeça enquanto jovem, porém, isso ainda era confuso.
"Eu sempre tive esse sonho (de jogar fora), para dar condição à minha família, mudar a gente de realidade. Mas eu não tinha dimensão do que isso significava. Você vê as ligas europeias e o futebol de fora todo desenvolvido. Mas, às vezes, não sabe como é o processo para chegar lá", pontuou.
Gustavo teve uma carreira instável no Brasil, pulando de equipe em equipe, até deixar o país em 2019, para jogar no Vietña. Foram sete clubes em pouco mais de três temporadas e pouca estabilidade. Foi quando Anderson Talisca e o Bahia entraram na jogada.
"Eu tinha um amigo que jogava no Vietña e me chamava para ir. Foi quando eu fui jogar a segunda divisão baiana no Doce Mel emprestado pelo Vitória da Conquista. A gente jogou as finais, foi campeão e eu fui eleito o melhor jogador da competição. O time da final era o Olimpia, do Talisca, e ele quis me empresariar na época. Eu estava certo de ir para o Bahia jogar o Brasileirão de Aspirantes sub-23", disse.
"Só que nesse meio tempo apareceu o Vietña, com uma proposta financeiramente melhor. Eu queria poder mudar a vida da minha família. Eu nunca passei fome, mas já tive muita vontade que não pude realizar. Sabia que essa era a oportunidade que eu tinha. O Bahia podia dar certo, eu podia ir jogar uma Série A, mas eu optei por vir para fora e, desde então, nunca mais voltei", acrescentou o centroavante.
Gustavo começou sua carreira fora do Brasil no Nam Dinh, do Vietña, mas foi na Malásia que ele se destacou. Jogando pelo UiTM, equipe de futebol da Universidade Tecnológica MARA, o brasileiro viu que o caminho era animador longe de casa. Mas o destino, a princípio, era outro.
"Antes de acabar meu ano no Vietña eu assinei um pré-contrato com uma equipe da China, de 2019 para 2020. Eu cheguei lá e fiz a pré-temporada completa, mas estourou a pandemia da Covid-19 e o futebol parou. E eu tinha recusado outras propostas para ir para a China. Achei que tudo tinha dado errado. Foi quando um time da Malásia me procurou. Foi uma oportunidade boa de mostrar meu futebol", respondeu.
A Malásia foi um dos países em que o paulistano mais se destacou. Foram duas passagens por lá, com 17 gols feitos em 21 jogos. E a primeira, como de praxe em sua vida, foi curiosa. Por ser uma equipe de uma universidade, o UiTM poucas vezes disputou o mais alto nível do futebol malásio, mas tinha estrutura de ponta. Ambos os fatores, somado à pouca pressão, deram a tranquilidade que Gustavo procurava e precisava.
"A liga só teve um turno, mas eu me destaquei. Não tinha pressão, era tudo novidade e isso fez bem. A universidade era referência no esporte e tinha de tudo. Vários campos, laboratórios, tudo de melhor na estrutura. Eles sempre jogaram as divisões inferiores e, em 2020, foram para a elite. Eles montaram um time com alguns jogadores que já tinham passagem pela Ásia e que cabiam no orçamento. No fim deu tudo certo. Foi super bom e abriu um leque de oportunidades para a minha carreira", falou.
A experiência curta, mas de destaque, na Malásia foi muito positiva em sua vida e carreira, mas o plano não era seguir por lá. A permanência de Gustavo no país se tornou um desejo por parte dos clubes, mas o paulistano não se deu por satisfeito e seguiu com planos maiores.
"Eu não tinha a pretensão de construir uma carreira lá. Recebi propostas longas, de cinco anos de contrato, para pegar o passaporte e me naturalizar malaio, mas não era o que eu queria. Eu tinha o instinto de explorar. Eu via que eu tinha o potencial para ir mais longe, conseguir coisas maiores. E graças a Deus eu acertei", afirmou.
Depois de um período goleador na Malásia, o jogador pode realizar mais um de seus sonhos: jogar no futebol japonês. Ainda buscando trazer melhores condições para sua família, o paulistano via o país asiático com bons olhos, mas não foi da forma que ele imaginava.
"Eu sempre tive o objetivo de conhecer o futebol japonês, mas eu não me adaptei muito. Eu tive muitos problemas lá. Imagina, eu brasileiro, todo tatuado e negro. O que era para ser algo leve foi pesado. Eu não consegui desfrutar. Kagoshima é uma cidade afastada e muito velha. Acho que foi pelo momento e pela experiência que não deu certo. Dividi minha vivência com jogadores que lá estavam, como o Leandro Damião. Eles falavam que era a cidade, mas que o país era bom. Eu não quis ficar", pontuou.
Foi quando o futebol da Malásia reapareceu no retrovisor. Gustavo assinou com o Negeri Simbilan e retomou a alegria de jogar futebol em mais uma curta passagem no país: foram 11 gols em 13 jogos. Nesse período, o futebol árabe começou a despontar, e lá foi o atacante.
Na temporada 22/23, Gustavo reforçou o Al-Nasr, dos Emirados Árabes Unidos, mas teve outra experiência frustrada na Ásia. A princípio, o brasileiro se viu muito empolgado para jogar no país, mas, apesar da condição financeira falar alto, o aspecto esportivo deixou a desejar.
"Eles me proporcionam uma questão financeira muito boa. Mas eu pensei que era uma coisa e, chegando lá, vi que era outra. O nível do futebol lá é mais baixo. Os árabes treinam quando eles querem. Eu vi que estava sendo chato. Eu estava querendo ser competitivo. Falei com meu empresário e ele comentou sobre a Indonésia. E foi quando eu me encontrei de verdade. Era como se eu tivesse achado o que eu buscava no Japão", afirmou.
Na temporada 23/24, Gustavo reforçou o Arema, uma equipe de escalão mediano no futebol indonésio que sempre abriu as portas para brasileiros. E com o atacante não foi diferente. Sua passagem foi de apenas seis meses, mas de bons resultados dentro de campo: foram 14 gols marcados em 16 jogos.
Com a família sempre ao lado, o jogador foi colhendo os frutos de seu sucesso. Tanto que rapidamente chamou a atenção do Persija Jakarta, uma das maiores equipes do país. E foi aí que Gustavo enfim encontrou o que mais buscava na carreira: a estabilidade.
"Eu estava super adaptado ao Arema. E a questão de trocar pelo Persija foi que eu nem pude dizer 'não', porque eles pagaram a minha multa. Meus planos eram continuar a temporada inteira no Arema depois buscar um clube maior. Eu tava fluindo para ser o artilheiro do campeonato. Eu cheguei lá para ser o cara do clube. Mas eu tive alguns problemas de lesão no primeiro ano. Hoje, depois de tudo, não me arrependo nem um pouco. Era para acontecer daquela forma", pontuou.
Gustavo chegou ao Persija muito pelo desempenho meteórico no Arema, mas, também, por ter sido algoz daquele que seria seu novo clube. No primeiro embate entre ambos, o centroavante brasileiro marcou um doblete e ajudou o Arema a chegar ao empate em 2 a 2. O brasileiro também lembra que um gol contra o rival do Persija, o Persib Bandung, pesou.
"Nem foi só pelo doblete. Quando eu faço o gol contra o Persib a torcida do Persija invadiu o meu instagram e encheu de comentários pedindo a minha contratação. E foi uma prévia do que estava por vir. Quando eu assino com o Persija eu senti aquela atmosfera absurda ao meu favor. Minha passagem por lá foi vitoriosa e vai ser muito relembrada. É um clube que está no meu coração para sempre", adicionou.
Gustavo vestiu a camisa do Persija por duas temporadas e meia e atingiu feitos históricos. Além de ser o brasileiro mais goleador na história do clube, o centroavante se tornou o maior artilheiro do Jakarta International Stadium, casa do Macan Kemayoran. Foram 31 bolas na rede em 55 jogos.
"A minha relação com a torcida sempre foi muito boa lá. Eu tinha até música com a torcida. Me sentia muito à vontade para jogar lá. Quando a gente jogava no estádio, eu falava 'hoje eu faço gol, não tem jeito'. A decisão de deixar o clube foi 100% minha. Foi difícil, eles foram muito bons comigo e com a minha família. Eu recebo mensagens até hoje. Fico muito feliz e orgulhoso. É um sinal que eu deixei um legado no clube", adicionou.
Depois de dois anos e meio vestindo a camisa do Persija, Gustavo resolveu mudar de ares nesta temporada. Mas não deixar o país que foi e segue sendo sua casa, mas sim buscar um novo desafio. Foi quando o Java United, antigo Malut United, entrou na jogada com um projeto que chamou a atenção.
"Eu voltei para essa temporada com planos de seguir no Persija. Mas, com uma troca de treinador, veio o sentimento de mudança. Aquele 'feeling' de atleta que as coisas não iam seguir do mesmo jeito. O Fábio Fagundes, um treinador brasileiro vencedor aqui na Ásia, sempre deixou aberto o desejo de contar comigo. Quando ele assume o Java ele me chama. Foi tudo muito rápido. O Persija não dificultou em momento algum", respondeu.
"Quando um clube dessa grandeza, com um projeto interessante traz jogadores assim, te chama, é difícil recusar. Repleto de brasileiros vencedores também, que antes eram meus rivais, mas, acima de tudo, meus amigos. E sob a liderança do Fábio. A fome do projeto do Java é grande. Eles só pensam em ser campeões", acrescentou.
A temporada acabou de começar na Indonésia. Gustavo entrou apenas duas vezes em campo pela nova equipe e ainda não desencantou. Mas há muito caminho para seguir em um cenário insano, mas que o paulista já está acostumado.
"Explicar a grandeza do futebol da Indonésia é um pouco difícil. Para se ter uma ideia, quando jogamos clássicos aqui não vamos de ônibus, mas sim de carro-forte, porque a torcida vira os ônibus. E com oito carros de escolta policial. O futebol aqui é nesse nível para mais. Todo mundo quer ganhar. Todos os jogos fora de casa são com o estádio cheio. Todos na cidade vão ver. É uma atmosfera inacreditável. Viver essas experiências é sensacional. Agora, com esse novo objetivo, tenho certeza que vai ser uma temporada brilhante", pontuou.
Outras situações fizeram o paulistano entender a insanidade que era o futebol indonésio. Em um dos clássicos contra o Persib, pelo Persija, o centroavante foi decisivo no empate de 2 a 2 de seu clube. E, ao comemorar o gol tardio, não foi bem recebido pela torcida rival, digamos.
"Eu lembro que no finalzinho recebo uma bola na diagonal, driblo dois zagueiros e faço o gol. Eu fui na bandeirinha de eescanteio e fiz a comemoração do Cristiano Ronaldo. Um torcedor rival urinou numa garrafa d'água e jogou em mim. São histórias que eu lembro e falo 'não é possível que esse cara fez isso'. Eu recebi o prêmio de melhor em campo, dei uma entrevista rápida de quatro segundos e fui correndo para o carro forte. A gente sai antes pra não dar de cara com a torcida rival. E eu lembro de sair todo molhado, jogando uma garrafa de água em mim. São coisas do futebol indonésio", lembrou em meio aos risos.
Com o passar dos anos, Gustavo ficou cada vez mais identificado com a Indonésia. E, puxando na memória, o atacante conseguiu um pouco do que sempre quis: dar uma vida melhor para a família e ser feliz fazendo o que ama. Tudo isso em um país amplamente apaixonado pelo futebol.
"Eu sempre sonhava com isso que eu vivo aqui na Indonésia hoje em dia. Jogar em estádio cheio, ter a torcida gritando meu nome. Para ser bem sincero, eu nunca pedi para ser famoso. Eu pensava em jogar em estádio cheio mesmo, aquela atmosfera. Coisa que eu só via na televisão. Foi mais do que eu sonhava. Hoje me sinto muito realizado. Eu trabalhei muito para chegar até aqui. É coisa de louco", finalizou.















