Voz do Amazonas, jovem Onça carrega sonho de recolocar estado na elite nacional | OneFootball

Voz do Amazonas, jovem Onça carrega sonho de recolocar estado na elite nacional | OneFootball

In partnership with

Yahoo sports
Icon: oGol.com.br

oGol.com.br

·04 de abril de 2025

Voz do Amazonas, jovem Onça carrega sonho de recolocar estado na elite nacional

Imagem do artigo:Voz do Amazonas, jovem Onça carrega sonho de recolocar estado na elite nacional

Há quase 22 anos, no dia 24 de abril de 2003, Lecheva estava em um dos estádios mais icônicos do futebol mundial quando Iarley lembrou ao Brasil que o futebol do Norte existia. O Paysandu venceu o Boca Juniors, por 1 a 0, e emudeceu La Bombonera, que nunca antes havia sofrido de silêncio tão irreprimível. Duas décadas depois, Lecheva segue como voz do Norte, mas agora no Amazonas, que sonha levar o futebol amazonense de volta para a elite depois de quatro décadas. E sonhar talvez seja, de fato, o grande combustível da Onça.

Das histórias do futebol brasileiro, o Amazonas talvez seja uma das mais curtas. Longe de ser, entretanto, a mais opaca. Fundado em 2019 com a meta de levar o Estado para a elite nacional, dá voz a um sonho que só é impossível para quem nunca sonhou um dia.


Vídeos OneFootball


Lecheva e a voz do Norte

Ricardo Mendes Nascimento, ou Lecheva, é paulista, mas jogou muito pouco tempo no "eixo". O norte o atraiu como imã, primeiro no Tuna Luso, depois no Paysandu campeão da Copa dos Campeões e desafiante do Boca na Libertadores.

Começou a carreira como técnico no Papão, lá em 2012, e rodou por clubes da região Norte. Mas uma oportunidade no Nacional, tradicional clube amazonense, acabou dando a Lecheva a chance de escrever uma página em branco na história do futebol local.

Então presidente do Nacional, Roberto Peggy convidou Lecheva em 2019 para participar do projeto de criação do Amazonas FC, junto com Wesley Couto e Willian Abreu. Lecheva foi o primeiro técnico da história do clube.

"Achei interessante iniciar o trabalho em um clube que ia nascer. Lembro que em maio, dia 23, nós fomos no cartório, eu, Roberto, Willian e o Wesley Couto para registrar o clube. Lembro muito bem das palavras dos diretores na época, que estavam me dando um clube com uma folha em branco", contou, em entrevista para oGol.

Lecheva foi técnico, diretor de futebol, executivo... Logo no primeiro ano, ajudou o clube a alcançar a elite do futebol local, e já tinha a certeza que era apenas o início de um projeto que colheria muitos frutos.

"Desde a criação, o presidente sempre falou que o projeto era em cinco, seis anos, estar na Série A do Brasileiro. Muitos riram, desdenharam, mas aqui estamos hoje", ressaltou.

Da Série D em 2022, o Amazonas pulou para a Série B em 2024, com campanha de meio de tabela. Uma ascensão meteórica para mostrar que, de fato, a diretoria tinha razão em sonhar alto. Apesar de todos os desafios...

Os desafios de se fazer futebol no Norte

Mais de 4 mil km separam Manaus de Florianópolis, trajeto que o Amazonas terá de fazer na Série B. Se a temperatura média do inverno catarinense pode variar entre 14º e 23º, a do amazonense fica entre 24º e 31º. As distâncias geográficas e a diferença no clima apenas começam a defender um argumento bem mais amplo sobre a dificuldade de se trabalhar no futebol do Norte, inserido no contexto competitivo da Série B.

"Pouca gente dá atenção a essa questão da região. O principal problema é a geografia. O Amazonas, Paysandu e Remo, que estão na Série B também, são os clubes que mais sofrem por estarem em uma localização geográfica onde as dificuldades são enormes em tudo. Clima, logística, é a pior logística possível para os clubes do Norte. A malha aérea não nos favorece em nada. Estou tendo um embate sobre a nossa logística da primeira rodada, encontrando dificuldade com questão de voos. É muito difícil fazer futebol no Norte. Não são todos os atletas que querem vir jogar na região, porque sabem que vão encontrar um clima muito quente, às vezes clubes que não têm uma estrutura tão avançada. Mas a gente vem lutando contra tudo isso", apontou Lecheva, que hoje é executivo de futebol da Onça.

O colombiano Larry Vázquez ganha lugar nessa questão. Larry conversou com oGol para contar o que o atraiu a aceitar o desafio de defender a Onça e resumiu: "o que representa o Brasil para o futebol mundial".

"O Brasil, tudo o que representa Brasil. Um país muito rico no futebol. Desde pequeno, sempre foi muito bom ver o Brasil nos Mundiais, os jogadores do Brasil, sempre os mais importantes no mundo. Me chamou a atenção isso, poder experimentar o futebol brasileiro, aprender português. Logo que cheguei na cidade, gostei da cultura, poder compartilhar tudo com pessoas de vários outros lugares do país e do mundo", explicou.

O elenco do Amazonas conta com oito "gringos": três colombianos, dois uruguaios, um argentino, um equatoriano e um atleta de Guiné Equatorial. A multiculturalidade, para Vázquez, ajuda na adaptação ao novo contexto, embora os brasileiros tenham ajudado.

"Facilita um pouco pelo idioma. Mas não quer dizer que não falamos com os demais. Os jogadores do Amazonas foram muito amáveis, quiseram nos ensinar a falar português e, também, aprender a falar espanhol. Então falamos todos um pouco de 'portunhol'. Mas a convivência é boa, eles querem que nós, 'gringos', consigamos socializar, comunicar melhor, para que isso se reflita no gramado para atingirmos os objetivos", contou.

Lecheva endossa o discurso e lembra que dentro do projeto do futebol do Amazonas, lembra apenas de um caso de um estrangeiro que não conseguiu se adaptar ao clube, o belga Joshua Appiah.

"Tivemos alguns problemas ano passado. Às vezes até mesmo atletas do Brasil chegam no Norte e não conseguem se adaptar. Mas com estrangeiros, o grande diferencial é a língua. Mas temos conseguido reverter isso. A gente teve acho que só um problema, um jogador belga que veio e não conseguiu se adaptar ano passado, o Josh. Mas os demais conseguiram se adaptar muito rápido na questão da língua, culinária, clima. Temos tido muito mais sucesso", contou.

A oportunidade de carreira no futebol também abre a porta para um intercâmbio cultural no Amazonas. Vázquez, mesmo com pouco tempo em Manaus, já se arrisca muito no português e adora a culinária local. Já comeu tambaqui assado e adora o açaí. "Na Colômbia já vendem, mas agora aqui é açaí por todo o lado", brincou.

Lecheva ressalta a importância do mercado internacional para a formação do elenco da Onça que vai disputar essa Série B.

"A qualidade técnica é o principal que a gente avalia antes de qualquer coisa, mas sabemos que uma contratação 'internacional' tem um impacto diferente. Hoje é uma realidade no futebol brasileiro, todas as equipes praticamente contam com jogadores estrangeiros e o Amazonas não poderia ficar de fora dessa onda. Não que isso tenha sido uma regra, mas apareceram alguns nomes que achamos interessantes. A questão financeira também é um fator importante, não só pela dificuldade de se encontrar bons jogadores em determinadas posições, mas o financeiro acaba sendo um atrativo para jogadores com passagens em competições como Libertadores e Champions League. Hoje o mercado brasileiro é um atrativo muito grande para o mercado sul-americano".

Estruturas modestas, sonho alto

O Amazonas treina usando instalações do governo e também privadas da região. O clube fechou uma parceria com a Ulbra Manaus para usar dois campos para treinamentos tanto da base, quanto no profissional. A Onça engatinha no trabalho das divisões de base, mas já inicia o trabalho de formação de novos atletas do sub-8 ao sub-20.

"Isso não se constrói de uma hora para outra. Sabemos que de momento, pouco podemos contar com a base. Mas vislumbramos daqui a dois anos, já ter jogadores dentro do perfil para o profissional que almejamos. A diretoria tenta dar todo o suporte, os trabalhos da base vêm sendo intensificados, com a contratação de profissionais qualificados para a formação. Hoje já temos alguns atletas da base no profissional, um hoje já é titular da equipe principal, outros espalhados em outros clubes por empréstimo", pontuou Lecheva.

O Amazonas tem projeto para iniciar as obras do CT próprio em julho, com previsão para ter pelo menos um campo pronto para treinar em 2026. A iniciativa inclui a preparação da equipe principal e também das divisões de base.

Neste ano, a Onça se preparou para a temporada em Presidente Figueiredo, no Estádio Larissa Coelho Silva, já apelidado de Larissão, onde pode mandar alguns jogos da Série B. Além dele, o Estádio Carlos Zamith e a Arena da Amazônia devem ser a casa da equipe na Série B. Dois estádios menores, e um palco de jogos de Copa do Mundo, onde o grande desafio é atrair o público.

"O Amazonas é o clube do Estado no mais alto nível hoje, e o torcedor amazonense por muito tempo queria um time para torcer. O Amazonas está dando esse retorno. Ano passado, na primeira Série B, o Amazonas teve a sexta maior média de público, o que foi surpreendente para nós. Principalmente se você ver no Estadual, média de mil e poucas pessoas... Nossa meta é que a gente possa aumentar ainda mais a média de público esse ano", projetou Lecheva.

A Onça tenta chamar a atenção dos manauaras através de ações do departamento de marketing como o programa de sócios ou as ações pontuais em dias de jogos, e busca também, com jogos fora da cidade, engajar outras comunidades futebolísticas no Estado do Amazonas.

O trabalho para promover o futebol amazonense é duro dentro e fora de campo, mas o sonho é alto: jogadores, comissão e diretoria sonham com o acesso na Série B. Vázquez acredita que a Onça pode usar algumas dificuldades a seu favor ao longo da Série B.

"Sempre vejo mais o positivo. E vejo mais a favor da gente o fato de que tenham que vir aqui jogar, no calor, umidade, isso pode ser um ponto a nosso favor. É tirar proveito dessa situação", opinou.

Primeiro técnico da história do clube, hoje executivo de futebol, Lecheva não tem dúvidas de que o sonho de recolocar o futebol amazonense na elite depois de 40 anos é possível. Só Nacional, Fast e Rio Negro representaram o Estado na primeira divisão.

"Para muitos, seria impossível um clube que nasceu em 2019 estar na Série B. Só essa curta história nos dá combustível para que possamos acreditar que podemos chegar na Série A. O campeonato que fizemos ano passado também nos deu essa esperança de acreditar, mesmo sendo um clube novo. Algumas experiências também nos fortaleceram. Por mais que tenhamos encontrado algumas dificuldades no Estadual, estamos pensando lá na frente. A história do Amazonas é o maior combustível que nos faz acreditar que o Amazonas pode estar, em 2026, na primeira divisão do futebol brasileiro", arrematou.

Saiba mais sobre o veículo