AVANTE MEU TRICOLOR
·3 de junio de 2026
Criticada por ajudar Olten, oposição se defende, fala em cumprimento do Estatuto e impedir volta do ‘casarismo’

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·3 de junio de 2026

Entre todos os aspectos da votação que impediu o afastamento preventivo de Olten Ayres de Abreu da presidência do Conselho Deliberativo, chamou a atenção o fato de que a magra vitória do dirigente, 120 votos a 118, só foi obtida pela atuação dos grupos de oposição do São Paulo, que fecharam apoio ao ex-aliado político de Julio Casares.
Bem, a quem acompanha mais a fundo os bastidores da política tricolor, não é nenhuma novidade. Desde abril, quando foi ‘denunciado’ justamente pelo presidente Harry Massis, Olten debandou de vez para os lados contrários à gestão. Vem, inclusive, participando de reuniões para a escolha do nome que surgirá para concorrer às eleições presidenciais do clube no final do ano.
Bastidores à parte, não deixou de ser estarrecedor à boa parte da torcida ver nomes e rostos conhecidos desde o começo do ano, no processo que culminou na renúncia de Casares, supostamente votando favoravelmente a um dos principais pilares de toda a gestão do ex-presidente. Mais do que isso. Olten é acusado de algumas irregularidades, como empregar funcionária fantasma no clube e dar prejuízo com multas e reparos a carros cedidos para uso por uma montadora. Além disso, a Polícia Civil o investiga por suposta falsidade ideológica ligada a um parecer do Conselho Consultivo do clube, ampliando o alcance das investigações sobre o dirigente.
Entre outros pontos, podemos destacar aqui que Olten só se reelegeu para a presidência do Conselho em 2023 por ação do próprio Casares. Foi, inclusive, um dos motivos de ruptura com o ex-diretor de futebol Carlos Belmonte, cujo grupo político queria indicar outro nome ao cargo.
Mas, pois bem, como a política são-paulina é extremamente dinâmica e o cenário é de turbulência extrema, não teve como a oposição sair impune do pleito. E assim, alguns de seus principais nomes tiveram que recorrer às redes sociais para justificar o suposto voto pró-Olten, sob a argumentação de que seu afastamento fere o Estatuto e também que se trata de uma manobra de aliados de Casares para evitarem a sua expulsão do clube.
“A votação de hoje impediu que o São Paulo fosse entregue aos aliados políticos do antigo presidente (Julio Casares), cuja expulsão é apenas questão de tempo. O que alguns interpretam como uma salvação individual, na verdade, representa a proteção de um bem maior: o nosso São Paulo Futebol Clube. O processo continuará. Retiraremos, um a um, aqueles que transformaram o clube num meio de vida”, escreveu Caio Forjaz.
Ao responder um torcedor indignado com seu voto, o conselheiro completou sua justificativa. “Respeito e entendo a indignação. Ele não foi absolvido. Ainda há processo, e será julgado ao final. Havia uma manifesta intenção de afastamento ilegal. O fato de ele ter ‘errado’ em muitas ocasiões não legitima o parecer. Ele não terá mais espaço no São Paulo. Temos que ser inteligentes e eliminar um por um. Na fila da eliminação, há uns que a torcida não conhece. Destituímos o Casares e expulsamos Douglas, Mara e Márcio. Eliminaremos um por um”, pontuou.
Em mensagem enviada a grupos de mensagem de celular durante a madrugada, Flávio Marques, considerado por muitos um dos mais íntegros nomes do Conselho Deliberativo, destacou aspectos jurídicos legais para sua decisão.
“Amigos. Eu li as mais de 200 páginas do processo disciplinar, tomei notas e cheguei às minhas conclusões, como faço todas as vezes que vou votar. Assisti às apresentações dos advogados das duas partes. “O processo fere, na minha interpretação, o artigo 145, parágrafo 3.º, que determina o prazo de trinta dias para manifestação da comissão legislativa sobre propostas de alteração do estatuto, e o artigo 36, parágrafo único, do estatuto social do São Paulo, que estabelece o voto favorável de dois terços dos conselheiros com direito a voto para afastamento preventivo de qualquer associado do São Paulo. Votei com consciência reprovando o parecer/recomendação da comissão de ética. Votei, com convicção, pela legalidade”, escreveu.
“Respeito quem pensa diferente, mas o meu voto foi técnico. Estritamente técnico. Se o senhor Olten deixou multas penduradas e manutenções na conta do São Paulo, que providencie o imediato ressarcimento ao clube. Ele e todos os dirigentes que possam eventualmente estar na mesma condição. Que todos os dirigentes que cometeram irregularidades sejam punidos por aquilo que fizeram. Mas que os processos sigam a lógica dos artigos de nosso estatuto”, completou.
Entre as vozes da oposição, uma das mais cobradas pelos torcedores indignados foi a de Fábio Machado, afinal o conselheiro quase foi expulso do clube na era Casares e, com ajuda de Olten, chegou a ser processado criminalmente pela antiga gestão.
Em postagem nas suas redes sociais, Machado foi talvez quem escreveu de maneira mais explanativa possível o atual cenário político do clube e como o afastamento de Olten poderia acarretar em situações ainda mais danosas ao clube.
“Provavelmente ninguém no Conselho Deliberativo detesta mais Olten Ayres de Abreu do que eu. Durante todo o seu mandato, Olten fez tudo o que podia para perseguir a oposição e defender seu então aliado Julio Casares. Foram parceiros nas tentativas de golpe de estatuto, na aprovação de orçamentos e contas que não paravam em pé, em contratos ruins para o clube e em tantas outras medidas prejudiciais ao São Paulo Eram parceiros até na Justiça comum. Inclusive, processaram criminalmente a mim e ao Kristian Orberg (sócio do clube), por termos chamado ambos de golpistas. Permaneceram aliados até os momentos que antecederam o afastamento de JC (Casares) pelo Conselho”, escreveu.
“O fato é que hoje o São Paulo está em guerra entre duas facções: o grupo de Mara (Casares), Dedé e Douglas (Schwartzmann), unido à atual diretoria, contra Olten Ayres. Há lado bom? Há algum lado nessa disputa que coloque o São Paulo em primeiro lugar? A resposta me parece óbvia. Dito isso, muitos fizeram o cálculo político de que um afastamento de Olten entregaria todo o poder político do clube ao mesmo grupo de pessoas abjetas que hoje o comanda. Em resumo: terrível com Olten, mas ainda assim com um sistema de pesos e contrapesos dentro da disputa que ocorre atualmente no clube”, completou.
“Não estou dizendo que concordo com esse posicionamento ou que votei dessa forma, mas tenho certeza de que muitos que votaram assim — e incluo amigos meus, que estão sendo bombardeados por isso — o fizeram pensando no que acreditam ser melhor para o clube no longo prazo, engolindo esse enorme sapo que é ajudar Olten. A política do São Paulo é complexa demais, e nem sempre os movimentos são tão simples quanto parecem. Assim como nossas peças expulsaram Mara, Douglas e Márcio Carlomagno, além de afastarem Júlio Casares, vamos seguir trabalhando pela expulsão de Dedé, do próprio JC (Casares) e de outros responsáveis por levar o clube a essa situação”, finalizou.
O Conselho Deliberativo do São Paulo rejeitou, por 120 votos a 118, a prorrogação por mais quatro meses do afastamento preventivo de Olten Ayres de Abreu Júnior da presidência da casa.
A margem mínima não impediu que a decisão repercutisse negativamente nas redes sociais, onde torcedores reagiram com pesadas críticas a Olten, ao Conselho e à oposição, cujos integrantes foram determinantes para barrar a medida.
Com o resultado, o dirigente retorna ao cargo após quase três semanas afastado.
Olten se afastara voluntariamente em 14 de maio, após acordo com o vice-presidente do Conselho, João Farias Júnior, e o presidente da comissão de ética, Antônio Maria Patiño Zorz, para garantir prazo para apresentação de sua defesa.
Após analisar o caso, a comissão recomendou o afastamento preventivo até o fim da apuração, mas agora a proposta foi derrubada pelos conselheiros.
A votação, porém, não representa absolvição. O processo por gestão temerária segue em curso na comissão de ética, que pode recomendar a expulsão de Olten do quadro associativo são-paulino, a punição mais severa prevista internamente.
O Conselho também deverá analisar futuramente uma suspensão em definitivo, ainda sem data marcada.
A denúncia contra Olten foi protocolada em abril pelo presidente do clube, Harry Massis Júnior, com base em acusação de gestão temerária durante a tramitação de uma proposta de reforma estatutária.
O projeto, apresentado originalmente pelo ex-presidente Júlio Casares em dezembro, previa redução do quórum qualificado para decisões estruturais, como a transformação do clube em SAF. A comissão legislativa emitiu parecer contrário em abril, mas, antes disso, Olten instituíra uma nova comissão para tratar de mudanças mais amplas no estatuto.
Para Massis, a medida representou quebra estatutária ao reabrir tema já rejeitado. A crise acumulou novos capítulos ao longo da tramitação. Em meio ao processo, Olten chegou a destituir os membros da comissão de ética que conduziam a apuração, mas a decisão foi anulada por Farias, e os integrantes retornaram aos cargos.
Em 7 de maio, a Polícia Civil instaurou inquérito para investigar suposta falsidade ideológica ligada a um parecer do Conselho Consultivo do clube, ampliando o alcance das investigações sobre o dirigente.
Ainda não está claro quais serão os próximos passos de Olten, mas é possível que seu retorno faça com que a comissão legislativa volte a trabalhar em cima da reforma estatutária, paralisada por Massis desde o início de maio. Também não se sabe se ele retomará a destituição da comissão de ética.







































