Saudações Tricolores.com
·22 de febrero de 2026
FLÚNEL DO TEMPO: O dia em que a dança de Fred exorcisou os fantasmas do Engenhão

In partnership with
Yahoo sportsSaudações Tricolores.com
·22 de febrero de 2026

Naquela tarde de domingo, lá em 2012 no Engenhão, houve uma espécie de insolência tricolor no ar. E houve, sobretudo, Fred. O “dançarino” — expressão que poderia soar leviana, mas que ali virava assinatura — fez uma esquisita por duas vezes, como se o próprio corpo escrevesse a crônica por conta própria. O Fluminense venceu o Vasco por 3 a 1, levantou a Taça Guanabara e encerrou uma espera que já beirava o folclore: desde 1993 o clube não sentia o gosto do primeiro turno.
O jogo, que em tese era apenas um título de turno, parecia coisa maior. Parecia absolvição, parecia resposta, muito mais do que um simples bilhete carimbado, que nos garantia na final do Carioca. E, como toda tarde que vira lembrança, carregava seus personagens em estado de tensão: Abel Braga, antes espremido por desconfianças e ameaças de queda, saía dali com o paletó menos pesado. E o quarteto ofensivo — Deco, Thiago Neves, Wellington Nem e Fred — saía com o rosto de quem tinha encontrado um mapa.
O Fluminense começara com uma pressa elegante, de toques curtos e gente se mexendo como se o gramado estivesse em brasa. Logo aos 20 segundos, reclamara de um impedimento marcado em Wellington Nem, lance daqueles em que a linha imaginária do bandeirinha costumava ser mais subjetiva do que a poesia. Com pouco mais de um minuto, Nem passara por Dedé com uma facilidade quase indecente e entrara na área; Fred oferecera o corpo como opção, mas Nem chutara torto para fora, como quem tinha vontade demais e calma de menos.
O Vasco demorara a acordar. William Barbio, revezando pontas, não encaixara de início. Então o time apelara para sua liturgia: Juninho, bola parada, perigo. Nilton subira solto e testara, por pouco. Mas o Fluminense, mais frio, mais rápido, mais senhor de si, seguia rondando com maior vocação para ferir.
Thiago Neves, em chute traiçoeiro, obrigara Fernando Prass a salvar quase de manchete. Fred, pressionado, batera por cima na pequena área. E o jogo ainda colecionaria um outro impedimento mal assinalado — desta vez com queixa do lado vascaíno — como se o apito lateral também quisesse participar da trama.
O Vasco crescera num sopro, empurrado por Barbio e por uma bola na trave de Diego Souza, aos 33, após uma furada bisonha de Anderson. A torcida inflamava. E, quando o adversário se animava, o Fluminense encontrava sua cena decisiva: Nem entrara na área e fora interrompido por uma imprudência de Fagner. Pênalti. Fred cobrara alto, no canto direito, aos 36, enquanto Prass se atirava para o lado oposto. O Engenhão, naquele instante, tinha o barulho das grandes confirmações.
Aos 42, veio o golpe que desorientava: Deco recebe o escanteio, e com o olhar 43, percebe o posicionamento de Prass e faz uma pintura de longe. A bola entrara no canto direito, e o goleiro, tentando voltar, já voltava tarde.
— Percebi que ele saiu pensando que eu iria cruzar no segundo pau. Tentei chutar e dei sorte — disse Deco, no intervalo, com a humildade que só os gênios carregam.
O segundo gol deixara o Vasco atordoado. Rodolfo errara um domínio elementar, Thiago Neves roubara e entrara livre, mas finalizara para fora. Era como se o Fluminense, mesmo quando desperdiçava, ainda assim controlasse a narrativa.
No segundo tempo, a desvantagem obrigara o Vasco a avançar. E avançar, naquele dia, significava insistir no alto: foram 33 bolas aéreas durante a partida, uma romaria de cruzamentos. O Fluminense, porém, administrara com a serenidade de quem tinha o placar como aliado e a velocidade como punhal.
Aos 11, o contra-ataque saíra de pé em pé, como música bem ensaiada, até Thiago Neves servir Fred. O camisa 9 finalizara rasteiro: 3 a 0. E, com isso, a arquibancada tricolor encontrara o deboche pronto, puxando o coro de “vice de novo”, tirando do rival a esperança e colocando no ar aquela crueldade típica dos dias em que tudo dá certo.
Diguinho quase fizera o quarto. O Vasco, desorganizado, apelara ao improvável: Dedé largara a defesa e virara centroavante, como se o desespero fosse uma posição. Ainda houve chance de Juninho, espalmada de Cavalieri; houve um cruzamento perigoso salvo por Leandro Euzébio; e houve o grito de “é campeão” ainda antes do relógio permitir.
Aos 38, Eduardo Costa cabeceara forte e diminuíra: 3 a 1, um lembrete de que clássico nunca morre totalmente. No lance seguinte, Dedé cabeceara na trave direita, ameaçando dar drama ao que já parecia resolvido. Kim chutara para fora. E Cavalieri, como goleiro de final, fizera defesas espetaculares em chutes de Diego Souza e Alecsandro dentro da pequena área, já com parte da torcida vascaína em retirada — um êxodo silencioso, desses que o futebol provoca quando a fé é vencida antes do apito.
No fim, ficou o que sempre fica quando o Fluminense ganha e ainda por cima levanta taça: a sensação de que a história tinha sido escrita com tinta grossa. A Taça Guanabara, que não vinha desde 1993 (quando Ézio marcara contra o Volta Redonda), voltava para a sala de troféus como a nona da trajetória do clube. E caía também um outro peso invisível: o jejum de 12 clássicos sem vitória, que já parecia praga antiga, se desmanchava ali, no gramado.
Em 2026, olhando para trás pelo Flúnel do Tempo, 2012 ainda soava como aquele dia em que Fred dançara duas vezes e, entre um passo torto e outro, o Fluminense recuperara não apenas um troféu, mas um pedaço do próprio orgulho.
Naquele ano, aquele time ainda conquistaria o Brasileirão além, é claro, do próprio Estadual. Mas essas, são histórias para outro Flúnel do Tempo.


En vivo







































