Portal dos Dragões
·10 juin 2026
“A forma como eu gostaria de ter saído do FC Porto certamente era outra”

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·10 juin 2026

Depois de deixar o Futebol Clube do Porto, de forma conturbada, Sérgio Conceição preferiu guardar silêncio. Nunca comentou a forma como saiu do clube, na sequência das eleições que puseram fim ao «reinado» de Pinto da Costa e abriram a porta a André Villas-Boas, nem tão-pouco a maneira como foi substituído pelo seu antigo adjunto, Vítor Bruno.
Ao longo de sete épocas nos Dragões, tornou-se o treinador mais titulado da história do clube, consolidando a imagem de um técnico perspicaz, capaz de travar equipas teoricamente superiores e de construir equipas competitivas com poucos recursos, mas também de um homem de temperamento forte.
Foram sete temporadas em que não só representou o FC Porto como se confundiu com o próprio clube. No fundo, garante, foi isso que fez em todas as equipas por onde passou. Ainda assim, a intensidade da ligação ao Dragão foi tal que é difícil imaginá-lo a orientar outro dos três grandes em Portugal.
Passou por Itália, ao serviço do Milan, e pela Arábia Saudita, no Al Ittihad. Em ambos os casos, entrou a meio da época, em contextos delicados. Conheceu vitórias e derrotas. Lutou. A sua marca.
Esta entrevista foi realizada precisamente dois anos depois da saída do FC Porto. Voltar ao tema era inevitável. Mas falou-se também de muito mais: do homem, das origens, da família e do futuro. Que, tudo indica, deverá passar pelo estrangeiro.
No segundo ano de mandato – e depois de uma época muito abaixo do esperado – André Villas-Boas viu o Futebol Clube do Porto sagrar-se campeão nacional. Francesco Farioli foi o treinador que recolocou os Dragões no topo da Liga portuguesa. Sérgio Conceição acompanhou esse percurso e esse triunfo à distância. Mas nunca deixou de seguir o que se passava.
E também não esqueceu a forma como saiu do clube. Compreende que André Villas-Boas quisesse outro treinador – sobretudo depois de se ter envolvido no processo eleitoral ao renovar contrato a dois dias das eleições – mas esperava que tudo tivesse sido conduzido de outra maneira. Além disso, garante que disse a Villas-Boas que o contrato assinado com Pinto da Costa deixava de ter efeito por causa do resultado eleitoral. Foi então que percebeu que Vítor Bruno seria o sucessor.
MF: Sérgio, vamos voltar então a Portugal. O FC Porto acaba de ser campeão, depois de uma época muito complicada. Como é que seguiu o título do FC Porto? Ficou contente de ver o Porto campeão? Como é que viu esta recuperação?
Sérgio Conceição: Mas porque é que está a fazer a pergunta, se fiquei contente?
Pela ligação que tem ao FC Porto… Já disse publicamente que o FC Porto é o seu clube de coração.
Sim, obviamente que sim. Por vezes criam-se narrativas completamente erradas, falsas, porque hoje existem estruturas nos clubes em que a comunicação também tem um papel interno – e muito relevante – tal como o marketing e outras áreas. E isso, por vezes, gera histórias que não correspondem à verdade.
O título do FC Porto foi um título merecido para a estrutura, para o treinador e, na minha perspetiva, para os jogadores.
Tive ainda a particularidade de felicitar todos os jogadores que treinei no Futebol Clube do Porto, bem como pessoas que continuam a fazer parte de diferentes departamentos do clube. Fiquei contente, sim, pela época que o Futebol Clube do Porto realizou, por conquistar um título que foi inteiramente merecido face ao que fez nesta temporada.
Mas passaram dois anos desde que saiu do FC Porto. E vamos entrar aqui na…
Deixe-me só voltar atrás, posso?
Claro.
Fez essa pergunta por eu não ter dado os parabéns nas redes sociais?
Não. De todo. Só pela sua ligação pessoal.
A minha ligação aos adeptos é… é umbilical. Ou seja, é muito forte a ligação às pessoas do Futebol Clube do Porto… Eu tenho a minha forma de…
Depois de o Futebol Clube do Porto conquistar o título – e de eu ter felicitado as pessoas de que já falei – achei que, com tantas celebrações, os adeptos nem iam prestar atenção ao que eu diria. Houve muita festa depois do título. E como sabia que ia dar esta entrevista, aproveitei a oportunidade para deixar os parabéns ao Futebol Clube do Porto, sem qualquer dúvida, pelo título fantástico que alcançou.
Mas voltemos então ao tema mais polémico: quebra o silêncio, dois anos depois de ter saído do Futebol Clube do Porto de uma forma que deu origem a muitas notícias. Sobre esse assunto nunca falou. Na sua opinião, saiu de uma forma merecida ou foi um alvo por ter sido sempre muito ligado e próximo de Pinto da Costa?
A forma como eu gostaria de ter saído do Futebol Clube do Porto seria certamente outra. Tenho de expressar o que sinto.
Mas também não foi fácil. Houve um ciclo muito importante na história do Futebol Clube do Porto, que foi o do nosso presidente durante 42 anos, o presidente mais titulado do mundo – e o meu, ao longo de sete anos.
Sou o treinador mais titulado do Futebol Clube do Porto. E não era simples. Hoje compreendo e aceito. E talvez fosse necessário existir essa transição.
Mas na altura não aceitou.
Não, mas eu aceito – e na altura também aceitei. Não sei se se recordam, mas no dia 26 de maio, há dois anos, na final da Taça de Portugal, estava o presidente Pinto da Costa – o senhor presidente Pinto da Costa – estava o Pepe ao meu lado e estava o atual presidente do Futebol Clube do Porto, mais atrás, a quem eu puxei para levantar a taça comigo.
Nesse momento eu não sabia se ficava ou não. Tinha assinado um contrato de quatro anos – e já lá vamos – a dois dias das eleições, algo que também foi muito criticado por toda a gente. E eu posso explicar as razões que me levaram a assinar um contrato a dois dias.
Foi visto como uma manobra de campanha.
Mas vou já lá chegar, só para terminar o raciocínio. Nessa altura, eu não sabia o que me esperava. No dia 27, toda a equipa técnica folgou; no dia 28 fomos trabalhar ao Olival para preparar o plano de férias que entregamos aos jogadores, bem como o relatório que fazemos sempre no fim da época.
No dia 29, tinha combinado com André Villas-Boas, já como presidente do Futebol Clube do Porto, ir a casa dele para falarmos um pouco sobre a minha situação e sobre o futuro próximo do clube. E foi isso que aconteceu.
Conte-nos melhor o que é que aconteceu durante essa conversa.
A primeira coisa… bem, acho que não me fica bem revelar tudo o que foi conversado entre nós. De forma geral, expliquei-lhe porquê, porque se estivesse no lugar dele também, se calhar, não gostaria muito de ver um treinador com sete anos de clube, depois de tudo o que ganhou, e com uma ligação tão forte aos adeptos, envolvido de um lado do processo eleitoral.
E eu estive sempre à parte, até dois dias antes das eleições.
Foi quando fui convidado pelo presidente Jorge Nuno Pinto da Costa para ir ao seu gabinete, onde também estava o Pepe – que entretanto saiu – e ele explicou-me a presença do Pepe, que tinha renovado o seu contrato, e que, se fosse reeleito presidente do Futebol Clube do Porto, o Pepe continuaria com ele.
Ele abriu um pouco o coração. Falou-me de forma muito emocionada da sua doença, explicou a estratégia que tinha para os anos seguintes no Futebol Clube do Porto e eu, por amizade, respeito e gratidão, aceitei.
E foi isso que fui explicar a André Villas-Boas: que, a partir desse momento, o meu contrato ficava sem efeito porque eu tinha aceite renovar com o Futebol Clube do Porto com um presidente. Como ele já não era presidente do Futebol Clube do Porto, tinha de respeitar.
Eu, se estivesse no lugar de André Villas-Boas, também não teria gostado muito.
Estava a explicar o porquê. E tinha a ver com o que acabei de dizer – sem entrar em muitos pormenores, porque isto mexe um pouco comigo… A forma como o presidente, nessa conversa, estava tocado, não só com a possibilidade de perder as eleições… E estamos a falar de alguém que olhava para o Futebol Clube do Porto como um bem maior do que a própria família. Sei bem o que estou a dizer, era como um irmão para mim.
Mas nessa fase já tinha a noção que poderia perder as eleições?
Acho que, também pelo estado de saúde dele, que se agravou de forma impressionante… ele chamou-me lá precisamente para me dizer isso, no gabinete dele.
E eu, tendo a possibilidade de sair um ano antes, dois anos antes, e não o ter feito, continuando com ele… Enfim, naquele momento não me sentia bem se o abandonasse. A ele e àquilo que era o futuro do Futebol Clube do Porto.
Vítor Bruno? Disse que tinha surgido um convite para o Qatar, mas não me disse aquilo que seguramente já sabia
Ou seja, era possível ficar com André Villas-Boas?
Não… Entretanto, nessa conversa. Desculpe, a informação é muita…
Ou seja, fui explicar-lhe exatamente que tive essa conversa tão forte, tão emotiva com o presidente, mas disse-lhe também que a realidade era outra e que o meu contrato deixava de ter efeito a partir do momento em que percebi – nessa conversa com o presidente Villas-Boas – que eu não fazia parte, ou que não era visto para dar continuidade como treinador principal.
E eu respeito… Ele teve as suas razões, tem a sua visão, tem a sua estratégia e tem o seu percurso a fazer, toma as suas decisões e eu só tinha de respeitar.
Porque não me disse, era um contrato elevado, é verdade, é público… Nunca me perguntou se queria ficar por metade ou de borla. Então percebi que não faria parte da escolha que ele tinha pensado para treinador principal do Futebol Clube do Porto. E eu, ao respeitar isso, continuámos, tivemos uma conversa muito… Ele contou um pouco do seu percurso, também da sua saída como treinador do Futebol Clube do Porto, enfim, entre outras coisas, acho que temos de resumir…
E depois, quando surgiu a conversa sobre o futuro do Futebol Clube do Porto…
Quem seria o sucessor…
Sim, o treinador, sim. E foi aí que soube, percebi que o meu ex-adjunto seria uma solução.
Como é que reagiu?
De forma natural…
Mas o Vítor Bruno já tinha falado consigo sobre essa possibilidade?
Não, não.
Na noite anterior tínhamos jantado – um jantar de despedida que faço sempre no fim do ano com a equipa técnica – e ele disse que queria seguir o seu caminho como treinador principal e eu achei muito bem.
Mas nunca lhe disse como treinador do FC Porto?
Não, não, não.
O Vítor Bruno acompanhou-o durante muitos anos. Foi o seu braço direito, andava sempre consigo para todo o lado….
E com o resto da equipa técnica, o Dembélé…
Sim, com certeza. Mas Vítor Bruno era uma pessoa que seguramente via como o seu grande amigo. Viu isso como uma traição?
O que tenho a dizer é que, depois de saber que alguém ligado ao Futebol Clube do Porto tinha falado já com o Vítor Bruno, o meu ex-adjunto, aí… A atitude, alguns consideram deselegante, podemos qualificá-la como quisermos. Pode ser traiçoeira, pode ser…
Mas para si, o que é que sentiu?
Não, acho que isso faz parte do passado. As pessoas são…
É a primeira vez que fala sobre isto. Gostava mesmo que me dissesse.
Tive outro adjunto, que também era adjunto principal. Foi o Rosário. Foi adjunto de Fernando Santos na Seleção, durante algum tempo. Teve um percurso de 20 anos com ele. Estava a trabalhar comigo no Vitória de Guimarães e o Fernando Santos ligou-me, queria dar-lhe um prémio de carreira porque tinha trabalhado 20 anos com ele e se tinha desligado dele há três ou quatro anos… Queria que ele acompanhasse a Seleção e ele foi. Eu disse “ok, o mister fala com o Júlio Mendes – que era o presidente do Vitória na altura – que para mim está tudo bem”. O Rosário foi, fizeram o Europeu, fomos campeões da Europa, ainda bem.
Chegou a Portugal, foi a minha casa e disse-me: “Sérgio, tive um convite da Federação, vou ficar perto da minha família, vou ficar por aqui”.
Ok, faz parte. No mínimo, esperava que o Vítor Bruno tivesse feito algo semelhante.
Acho que as pessoas têm direito a ter os seus sonhos, que é a expectativa natural de quem tem objetivos na vida. Isso é absolutamente normal, não tem qualquer problema. Desde que as situações e os assuntos sejam tratados com lealdade e frontalidade.
E não houve lealdade?
Como sabe, o resto da história depois… as coisas não aconteceram dessa forma e, claro, quem não sente não é filho de boa gente, como se costuma dizer, e eu sinto muito, sobretudo com as pessoas de quem gosto. Foi um percurso unido durante muitos anos e as coisas deviam ter sido feitas de outra maneira.
A forma como saí, e volto a dizer, tudo aquilo que foi aquela semana, praticamente de enxovalho, de muitas críticas ao Sérgio Conceição, não aconteceu porque o Sérgio não quis sair e estava agarrado a um contrato.
A primeira coisa que disse ao presidente André Villas-Boas foi que esse contrato não tinha validade. Foi por outras razões, estas de que estamos a falar agora.
E como é a sua relação com o André Villas-Boas agora? Existe uma relação?
Não.
Há dias falou de si como um grande portista.
É como eu falo dele. Foi um treinador vencedor, campeão da Europa (da Liga Europa, ndr). Teve um percurso curto, mas fantástico, como treinador no Futebol Clube do Porto.
Agora, como presidente, o primeiro ano não correu bem, por tudo aquilo que foi uma transição muito difícil, e neste momento é um presidente que conquistou um campeonato nacional e está de parabéns por isso.
Mas não tem relação pessoal, essa deixou de existir.
Não, mas vivemos tão focados, com tão pouco tempo para criar relações diferentes daquelas que temos diariamente na nossa profissão, na nossa família, que é difícil. Ainda assim, o respeito existe sempre, um grande respeito por tudo o que foi o trajeto dele como treinador e agora como presidente.
E com o Vítor Bruno? Alguma vez mais falou?
Não.
Nem tenciona?
Não.
Foi um ponto final? Amargo?
Mas não da minha parte, da parte dele.
Mas a iniciativa de nunca mais falar foi sua? Ou ele tentou alguma abordagem para se justificar em algum momento?
Eu, sabe, deve ser dos meus 51 anos, estou a ficar fraco de memória…
Acho que, depois do que aconteceu e de perceber a forma como o processo foi andando… E aquilo que depois vamos sabendo, porque depois vamos sabendo como realmente se passou toda a história…
Está a querer dizer que percebeu que tudo estava preparado nas suas costas há muito tempo?
Hoje não tenho dúvidas de que não houve lealdade, frontalidade nem verdade para me dizerem o que se passava. Algo que eu aceitaria de forma natural, porque era uma escolha que o presidente tinha todo o direito de fazer, era uma escolha do meu ex-adjunto seguir a sua vida profissional, como treinador principal e não como número dois – inicialmente, comigo, era o número três ou o número quatro até, e eu promovi-o a adjunto principal quando o Rosário saiu para a Seleção. Bastava uma conversa entre nós.
E houve essa conversa, atenção, no dia 28, naquele jantar que organizei para a equipa técnica…
Mas em que não lhe disse a verdade? Não, disse que tinha um convite…
Tinha surgido um convite para o Qatar, ou algo do género, mas não me disse aquilo que seguramente já sabia.







































