Zerozero
·22 janvier 2026
A história, cultura e o desconforto da única coisa que o PSG não comprou: os seus adeptos

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·22 janvier 2026

Seria fácil construir uma narrativa de que o PSG comprou os seus adeptos. Pelo menos é esse o rótulo que costuma ser colado no plástico do apoio aos gigantes europeus que se tornaram ricos da noite para o dia, como aconteceu a este clube quando chegou o investimento do Catar.
Mas o PSG não nasceu em 2011. Nasceu quatro décadas antes, em 1970, e desde então formou o tipo de história que não pode ser comprada. O tipo de história que não era tão rica em troféus (apenas dois títulos de campeão francês até à chegada da Qatar Sports Investments), mas que já era bastante pesada a nível cultural.
Aliás, em Paris, o amor ao maior clube local nunca foi linear, consensual ou confortável. Não o era antes das superestrelas chegarem e não é agora, numa altura em que falamos do detentor da Liga dos Campeões. É um amor intenso e complexo, forjado na cultura ultra de um grupo de adeptos que não se curvam perante os cifrões que governam o clube.
Esta terça-feira, a equipa de Luis Enrique não brilhou como o esperado e tombou frente ao bicampeão português - o Sporting. Os adeptos, por sua vez, brilharam. Apresentaram-se de vozes afinadas e não pararam de cantar até ao final do jogo, fazendo mais barulho do que qualquer outro grupo visitante no Estádio José Alvalade esta temporada (pode ver no vídeo acima). Assim, motivaram o zerozero a mergulhar um pouco mais fundo no tema.
Depois da fundação, o Paris Saint-Germain cresceu e tornou-se rapidamente símbolo futebolístico numa cidade que nunca tinha tido um. Apesar da dimensão e do estatuto de capital política e económica, desportivamente era ainda território vazio e o novo clube ocupou esse espaço.
Nos anos 80 e 90, o clube vira o reflexo das suas ruas: multicultural, barulhento, por vezes violento. O Parc des Princes passa a ser palco de uma rivalidade interna entre Boulogne e Auteuil - duas bancadas, duas visões do mundo, duas formas de viver o clube. O resultado foi um dos ambientes mais vivos do futebol francês, mesmo que com alguma toxicidade.
A guerra civil das bancadas deixou cicatrizes. Em 2010, o Plan Leproux tentou apagar o problema pela raiz: expulsou os ultras, proibiu cânticos organizados, transformou o estádio num espaço higienizado.
Nesse momento o PSG ganhou silêncio, mas perdeu a alma. Muitos adeptos sentiram-se exilados do próprio clube, numa rutura que ainda hoje condiciona essa relação. A chegada da QSI, um ano depois, gerou desconfiança e a tentativa de perceber se o novo projeto procurava consumidores ou adeptos. Ora... primeiro um, depois o outro.
Em 2016 foi autorizado o regresso das claques organizadas, em particular o Collectif Ultras Paris, que nunca deixaram de reclamar o seu direito de existir. Foi uma decisão que afastou o PSG dessa ideia (generalizada fora de França) de que não tinham apoio real, mas que simultaneamente recolocou clube e adeptos em constante confronto
Ao longo dos últimos 10 anos, o gigante da capital gaulesa tem vivido esta contradição do futebol moderno: é um super-clube global sustentado por um fundo aparentemente infinito, mas também por uma base adepta que se recusa a ser submissa.
Ninguém é intocável. Neymar, Messi, Mbappé... Todos eles foram alvos de críticas, assobios e insultos nos momentos em que não estiveram à altura dos padrões de uma bancada de emoções fortes e que não se remete ao silêncio nem sequer perante alguns dos melhores jogadores da história.
E nem é uma questão de exigência, mas sim de território. São adeptos que reclamam o clube e não dele e que se manifestam de forma mais romântica nas derrotas do que nas vitórias. Depois de maus resultados, o estádio junta-se em coro para cantar Ô Ville Lumière, reforçando o orgulho parisiense como identidade que supera o futebol em si.
A cada troféu conquistado e celebrado pelo Paris Saint-Germain, valerá a pena recordar: a paixão pelo clube não nasceu do petróleo; sobreviveu-lhe.







































