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·9 avril 2026

O ‘Dossiê Baggio’ não prometia milagres: conheça as ideias ignoradas pelo futebol italiano

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Se você costumeiramente consome conteúdos relacionados ao futebol italiano, seja através de fontes nacionais ou estrangeiras, já deve ter esbarrado por aí em algo sobre o relatório de cerca de 900 páginas elaborado pelo craque Roberto Baggio em seus tempos como presidente do Setor Técnico da FIGC. O documento veio à tona novamente em outro fracasso retumbante da seleção da Itália, que falhou em ir para mais uma Copa do Mundo. Afinal, o que era proposto? Por que foi recusado? Quem participou da sua redação? Vamos esmiuçar o que há de disponível do texto, associando as suas premissas a projetos semelhantes e entender o que ainda poderia ser aplicado depois de 15 anos.

O retrato atual do futebol italiano

Antes, é importante destacar que o documento de Baggio não ficou datado. Atendendo a uma requisição do governo da Itália, a Federação Italiana de Futebol – FIGC emitiu um relatório sobre a situação crítica do futebol local em abril de 2026, durante o período mais turbulento desta década. Nele, são evidenciados problemas do esporte na questão da formação de jogadores, oportunidades para os jovens, sustentabilidade financeira e infraestrutura defasada.


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A começar pela transição de jovens da base para o profissional. A Serie A é a segunda pior liga do mundo, entre 50 monitoradas, em termos de oportunidades para jogadores sub-21 formados no país e elegíveis para a seleção. Somente 1,9% de todos atletas que atuam na primeira divisão italiana fazem parte desse grupo específico. Atrás da Itália, somente os Emirados Árabes Unidos.

Contribui para esse cenário um entrave vindo das divisões inferiores, que frequentemente servem – ou deveriam servir – de abrigo para atletas em fase de maturação, sobretudo os emprestados por times da elite. Em um sistema inflado, com quase 100 clubes profissionais e cerca de 200 inscrições barradas nos últimos 40 anos por falta de garantias financeiras, a instabilidade é regra. Nas séries B e C, ligas muito equilibradas e de margens estreitas, uma queda de divisão pode significar colapso de receitas e até risco de falência, reduzindo drasticamente a tolerância ao risco.

A pressão por resultados empurra decisões de curto prazo: jovens têm pouco tempo para responder e, diante da oscilação natural, acabam rapidamente substituídos por jogadores mais experientes ou estrangeiros mais baratos. As apostas são feitas a conta-gotas, interrompendo a continuidade e o desenvolvimento. Não é raro ver talentos que brilhavam nas categorias de base saltando de equipe em equipe sem conseguirem se firmar – e isso, em vários casos, diz respeito a situações extracampo de ordem econômica.

No fim das contas, a Serie A fica envelhecida. A idade média dos atletas da liga italiana é de cerca de 27 anos, atrás dos campeonatos de Inglaterra, França, Alemanha, Holanda, Portugal, entre outros. Isso, claro, é resultado da falta de renovação. Se você não colocar jovens para atuar, a média sobe. É uma conta bem fácil de se fazer e que impacta diretamente na Nazionale.

Sem matéria prima, também não há exportação, e isso se reflete no âmbito financeiro. Entre as 50 melhores academias de clubes no mundo, somente duas italianas aparecem na lista. São as de Atalanta e Juventus, concomitantemente, duas das equipes com time sub-23, uma novidade recente no futebol italiano – mas não no mundo. Em termos de valores brutos obtidos com as vendas desses jogadores, a receita da Itália é inferior às da França, Espanha, Portugal, Holanda, Inglaterra e Alemanha, considerando os principais concorrentes na Europa.

Olhando agora para os aspectos técnicos, a Serie A tem visto um empobrecimento do seu jogo por falta de repertório dos próprios atletas – embora, de maneira geral, o campeonato tenha melhorado desde meados da década passada. Entre as principais ligas europeias, é aquela com o menor índice de dribles por jogo: nos últimos sete anos, o número de dribles bem-sucedidos caiu de cerca de 19 por partida para 12. Além disso, não fica entre as 10 principais da Europa em metros percorridos por arrancadas.

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De Coverciano, sede do Setor Técnico da FIGC, deveriam partir ideias que melhorassem o futebol italiano (Getty)

Diante de todo esse sucateamento atual, Baggio entendia que esse cenário era provável. E, coincidentemente ou não, diversas propostas da lenda italiana dialogavam com vários desses problemas diagnosticados por esse recente relatório da FIGC.

Como nasceu a proposta de Baggio

Tudo começou na África do Sul. Após ser campeã mundial na Alemanha, a Itália manteve alguns medalhões de 2006 e foi eliminada de maneira vexatória quatro anos depois, ainda na fase de grupos, ficando atrás de Eslováquia e Paraguai – sequer somo vitórias e olha que chegou a enfrentar a modesta Nova Zelândia. Alguns meses depois, mais precisamente em agosto, Roberto Baggio foi nomeado como presidente do Setor Técnico da FIGC. Sua função, obviamente, era ajudar em uma reestruturação necessária no futebol nacional, especialmente na formação de novos talentos.

Em pouco mais de um ano de trabalho, em setembro de 2011, Baggio apresentou o programa Rinnovare Il Futuro, que em tradução livre para o português seria “Renovar o Futuro”. A ideia do projeto, composto por sete capítulos, era direta: construir novos caminhos para reformular o futebol italiano. E nenhuma proposta se baseava em demitir todo mundo e fazer uma limpa. Eram ideias mais concretas e bem descritas, feitas com a colaboração de outros 50 profissionais.

“O objetivo é desenvolver bons jogadores de futebol e, especialmente, boas pessoas”, explicou o próprio Robi. Na visão da lenda do esporte, os métodos de treino no país estavam se deteriorando, ou seja, tornavam-se cada vez piores. O excessivo foco em tática em detrimento da lapidação da técnica dos jovens era uma questão central do seu plano, além da necessidade de qualificar os treinadores de base.

Questão física e tática em segundo plano

Não é novidade a importância que os clubes italianos atribuem à tática. Porém, a limitação de ações, decisões e posicionamento desde muito cedo pode – e, via de regra, tende a ser – prejudicial ao crescimento de um jogador. E quem afirma isso não somos nós, mas Ricardo Eid, médico do esporte especialista em concussão cerebral, que abordou o tema em entrevista à Trivela.

“Se você olhar o desenvolvimento cerebral das pessoas, como é que estão as ativações cerebrais delas, talvez não dê diferença. Mas, via de regra, quanto mais cedo você especializar o seu atleta, pior é para o desenvolvimento dele”, diz Ricardo. Vale destacar que o trabalho de Baggio envolvia profissionais com formação acadêmica e sólida capacidade pedagógica, o que reforça o embasamento científico do projeto voltado ao desenvolvimento de crianças e jovens.

A expressão-chave para entender a mudança que Robi propunha nesse campo é: “relação contínua com a bola”. O brincar, na forma mais pura. O contato constante com a bola estimula a dimensão lúdica do futebol – criatividade, inventividade ou qualquer outro termo que se queira utilizar nesse sentido. Esse é o primeiro ponto do planejamento: priorizar o aprimoramento técnico por meio de contextos reais de jogo. O talento cresce na liberdade.

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Em 2010, Baggio foi escolhido para liderar reformas no futebol da Itália, mas teve trabalho deixado à sombra (Ansa)

Os trabalhos de base e de peneira, por sua vez, não deveriam se concentrar em atributos isolados do atleta. Segundo o documento, exercícios excessivamente específicos se afastam da realidade do jogo e acabam sendo contraproducentes. “Os testes devem ser mistos, físicos e técnicos, porque aqueles apenas físicos são totalmente desvinculados do contexto de jogo”, afirmou Baggio.

O plano do Divin Codino encontra respaldo na literatura científica do esporte. Ambientes excessivamente estruturados e especializados reduzem a variabilidade de experiências, o que compromete um elemento central para o desenvolvimento da criatividade: a construção de repertório para tomadas de decisões e coordenação motora, requisitos essenciais no futebol. Dá para imaginar quais tipos de atletas acabam ficando pelo caminho nesse processo?

Como encontrar os diamantes?

Treinamento puro e simples, sem matéria-prima, não resolve nada. O dossiê de cerca de 900 páginas também especificava formas de distribuir profissionais responsáveis pela identificação de talentos. É importante destacar que se trata de um projeto apresentado em 2011; portanto, a Itália já acumula mais de uma década de atraso na aplicação dessas ideias, que, inclusive, são adotadas em outros países – e que talvez, dado o estágio atual das coisas, nem sirvam mais para serem usadas na íntegra. Na prática, o desenvolvimento ficou à mercê do acaso.

Atualmente, o modelo italiano apresenta limitações na prospecção de atletas com potencial. O máximo que se concretizou foi um plano piloto na Toscana, com resultados positivos. O projeto, porém, não teve continuidade, mesmo após validar uma parte relevante da metodologia. Ficou longe de operar em escala nacional, para a infelicidade do esporte no país.

A divisão do país seria feita em 100 distritos, com o intuito de facilitar o acompanhamento regional. Cada distrito contaria com três instrutores federais responsáveis por monitorar continuamente sua área – a diferença do seu trabalho para o dos treinadores será explicada adiante. A atuação seria em cooperação com os clubes, e não apenas de mera observação. Esses profissionais estariam inseridos no cotidiano do futebol local.

A mudança central consistia na substituição do olhar esporádico por um acompanhamento contínuo. A avaliação deixaria de se basear apenas em testes pontuais e passaria a considerar a evolução dos jogadores no longo prazo, aproximando as etapas de observação e formação. Uma proposta longe de utópica. A Alemanha seguiu caminho semelhante ao criar centros de desenvolvimento espalhados pelo país, integrando jovens do futebol local a uma estrutura federativa mais ativa – iniciativa adotada justamente após um fracasso da seleção alemã, eliminada como lanterna de um grupo com Portugal, Romênia e Inglaterra na Euro 2000.

Dado esse contexto, Baggio estabeleceu uma meta ambiciosa: “observar 50 mil partidas por ano, interagindo diariamente com as categorias de base para depois criar um grande banco de dados multimídia: exercícios, testes e jogos filmados e catalogados”. O resultado seria um arquivo digital nacional, elevando o trabalho de scouting a outro patamar.

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Entre as ideias do craque, destacava-se a formação de jovens com mais ênfase na técnica do que em aspectos físicos e táticos (LaPresse)

Informação mapeada e reabastecida

Caso a ideia funcionasse, todos os registros feitos em diferentes mídias resultariam em um grande arquivo digital centralizado pela FIGC. Informação é ouro, e aqui ela teria papel ativo no desenvolvimento, além de permitir trocas constantes entre os próprios instrutores. Não seria apenas um repositório, mas uma ferramenta de acompanhamento, análise e aprimoramento. E, convenhamos, não é incomum vermos hoje o uso de tecnologia – especialmente de vídeo – nos clubes de ponta do futebol mundial.

Uma das maiores vantagens estaria no processo de correção. A evolução dos atletas poderia ser acompanhada de forma contínua, ajustando desvios, identificando padrões – positivos ou negativos – e refinando o desenvolvimento com maior precisão. Centralizar essas informações daria profundidade ao processo, permitindo não só encontrar talentos, mas lapidá-los de maneira mais eficiente.

Na própria Itália, é possível encontrar um mecanismo semelhante e bem-sucedido. A Federação Italiana de Vôlei – FIPAV trabalha o desenvolvimento de atletas de base com a lógica do acompanhamento contínuo. O enfoque está na identificação de aspectos técnicos e motores, além de considerar a velocidade de aprendizagem. Nada é analisado de forma isolada, mas como parte de um projeto mais amplo.

Retomando a questão do alcance, a estrutura da FIPAV se apoia em forte capilaridade territorial. Trata-se de uma rede espalhada por todo o país, que não negligencia as menores cidades e clubes do sistema. É um ambiente que amplia a descoberta de talentos e reduz o desperdício, com impacto direto na qualidade da formação.

O uso de vídeo, com imagens de treinos e jogos na avaliação de gestos técnicos, vai além da simples mensuração de desempenho. Trata-se de compreender como o atleta aprende, reage, improvisa e pensa. Em suma, sua forma de evoluir como esportista. Essa lógica, naturalmente, é aplicável ao futebol. Não se sabe se Baggio se inspirou no que fez a FIPAV, mas a convergência filosófica é evidente.

Ciência no jogo

Somado a tudo isso, o projeto incorporava o meio acadêmico ao próprio sistema de desenvolvimento do futebol italiano. Estava prevista a participação de um grupo de estudo permanente, formado por pesquisadores federais e universitários. Haveria, claro, contato obrigatório com os profissionais presentes no dia a dia dos gramados. No fim, o objetivo era aproximar prática e teoria dentro de um mesmo processo.

A observação, por si só, é limitada. O trabalho desse grupo visaria aprimorar a conversão de dados em ações práticas – estudar e desenvolver eram os eixos deste capítulo. Além disso, os profissionais ajudariam teriam a função de não deixar o futebol à mercê de intuição, subjetividade e tradição, oferecendo um suporte científico relevante, capaz de fornecer uma segunda leitura embasada.

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Baggio disse adeus à FIGC após ver seu projeto engavetado; Abete, ex-presidente e abaixo do craque na imagem, negou a acusação (Getty)

Olhando novamente para o entorno do futebol e passeando pela práxis de outros esportes profissionais na Itália, a Federação de Ciclismo Italiana – FCI trabalha no desenvolvimento de seus atletas a partir de uma lógica mais sistematizada. A integração entre prática, formação e conhecimento técnico é central, com processos organizados para utilizar a tecnologia como ferramenta de potencialização.

São adotados, por exemplo, critérios objetivos de avaliação, separando dificuldades físicas e técnicas. A ideia é reduzir a subjetividade do processo e estabelecer parâmetros mais claros na leitura do desenvolvimento de um atleta. Isso vai ao encontro do que Baggio propunha: apoiar a intuição em fatores mensuráveis.

O ciclismo italiano opera em uma via de mão dupla – com o perdão do trocadilho – nessa relação entre conhecimento acadêmico e experiência empírica. O saber não pode ficar isolado, sem ser testado, assim como achismos e testes desconectados não podem orientar um trabalho de formação de longo prazo. Mas quais seriam os profissionais que fariam essa ponte?

Não só treinar, instruir

Curiosamente, antes mesmo da derrota da Itália para Bósnia e Herzegovina e de todo o rebuliço em torno do trabalho de Robi Baggio, um ex-capitão azzurro tocou nesse ponto em entrevista à ESPN Brasil. “É verdade que a nossa escola não trabalha mais como antes. Hoje, os treinadores vão para as categorias de base; antes, eram instrutores. O instrutor fazia o jovem crescer. O treinador pensa apenas em sua própria evolução profissional”, afirmou Fabio Cannavaro, ao acertar em um ponto importante.

Baggio propunha um enfoque maior no desenvolvimento enquanto pessoa, e isso passa pelo trabalho de um instrutor. Não bastaria que esse profissional fosse apenas um entendedor de futebol. A formação teria papel crucial, com enfoque especial nas qualidades educativas oferecidas por ele.

O candidato ideal uniria experiência profissional no esporte à formação universitária. Conhecimento, vivência e capacidade pedagógica formariam o tripé do que deveria ser oferecido. Não se trata apenas de qualificar melhor quem trabalha na base, mas de ampliar e enriquecer seu escopo de atuação.

Haveria, claro, uma contrapartida da FIGC na formação desses profissionais. Além de um novo modelo voltado a crianças e adolescentes, Robi pretendia reformular a preparação de quem atuaria nesse setor. Esse movimento também ajudaria a enfrentar outro problema mencionado anteriormente: a falta de cuidado e a especialização precoce no público infantojuvenil. A formação facilitaria a incorporação de métodos científicos no dia a dia, reduzindo a resistência ao uso de análise e dados.

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Abete era o presidente da FIGC quando o projeto de Baggio foi ignorado e é um dos cotados para voltar ao comando da federação (LaPresse)

Enfim, o projeto apontava para uma redefinição do perfil dos chamados instrutores federais. Vale a ressalva: Baggio não era contra o treinador com foco tático, mas sim contra um trabalho exclusivo e desconectado do contexto do jogo. O objetivo era transformá-lo em um agente pedagógico, integrado a um sistema nacional de desenvolvimento. As trocas e o estudo eram elementos centrais do projeto como um todo.

Por que não deu certo?

Apresentado em dezembro de 2011, o projeto chegou a ter uma experiência prática inicial, em Pisa e Pontedera – cidades toscanas não tão distantes de Coverciano, base do Setor Técnico da FIGC – além da aprovação de um investimento inicial de 10 milhões de euros. Porém, Baggio afirmou que os recursos nunca chegaram até ele para dar continuidade ao trabalho. Nas palavras da lenda italiana, Rinnovare Il Futuro virou letra morta. Além disso, o craque foi acusado de ter participado de apenas três das 23 reuniões do Conselho Federal da FIGC, o que rebateu em entrevista ao TG1, o principal telejornal do país.

“Eu não tinha direito a voto e entendi que era inútil participar de reuniões que não tinham nada a ver com minha função de presidente do Setor Técnico. Dou um exemplo: quando apresentamos o projeto, ficamos cinco horas esperando e tivemos apenas 15 minutos para apresentá-lo. Sou grato ao presidente [Giancarlo] Abete. Mas, infelizmente, até agora não recebi os recursos, e tudo ficou no papel”, disse em janeiro de 2013, quando se demitiu do cargo de diretor técnico. Robi também afirmou que não se tratava de uma despedida definitiva. Disse que ama o futebol, ama o seu país e que estava disponível para qualquer iniciativa voltada a resolver os problemas do esporte.

Presidente da FIGC à época, Giancarlo Abete – que tem boas chances de voltar ao poder nas eleições de junho de 2026 – respondeu, eximiu-se da responsabilidade pelo insucesso do projeto e transferiu a culpa para o craque. “O projeto, elaborado com o auxílio de consultores externos, foi discutido no Conselho Federal e modificado: inicialmente era voltado ao scouting de jogadores, mas isso compete ao Club Italia e a Arrigo Sacchi. A Baggio cabia a formação dos técnicos. O Conselho Federal concordou com as modificações e destinou os recursos, que existem e não são um problema. Mas, depois, cabia ao Setor Técnico dar continuidade, junto à Liga Nacional de Amadores – LND, para a criação de centros federais em todas as regiões. E isso parou ali, não houve o segundo passo. Evidentemente, por uma escolha de Baggio”.

Atual presidente da LND, a entidade com mais peso na eleição da FIGC, Abete é considerado favorito à presidência da FIGC e, após a terceira eliminação seguida da Itália nas eliminatórias, voltou a ser perguntado sobre o dossiê de Baggio. Em sua defesa, sustentou que o projeto não foi abandonado, mas parcialmente absorvido pela estrutura federativa ao longo dos anos, na gestão de Carlo Tavecchio – que era o cabeça da LND e o sucedeu em 2014. Segundo ele, os centros técnicos previstos no dossiê foram implementados em nível federal e seguem ativos, ainda que dependam de maior investimento e continuidade. O dirigente também apontou limites operacionais da própria federação, afirmando que a execução mais ampla esbarra na autonomia dos clubes e na necessidade de equilibrar interesses gerais e demandas específicas do sistema.

A leitura de Vittorio Petrone, ex-agente de Baggio, vai na direção oposta. Em recente entrevista ao podcast Cronache di Spogliatoio, o empresário afirmou que projeto encontrou resistência interna desde o início, sobretudo por parte da LND, então sob comando de Tavecchio, e de setores da própria classe de treinadores. Para o parceiro de Robi, faltou vontade política para levá-lo adiante: havia mais interesse na preservação de dinâmicas estabelecidas – como o resultadismo e o lobby dos procuradores esportivos dentro dos clubes – do que na construção de um modelo sistêmico de formação. Segundo ele, a proposta, que previa maior controle central, critérios técnicos mais rigorosos e até um componente ético desde a base, estava destinada a ser sufocada ainda na origem.

No fim das contas, o que se pode afirmar categoricamente é que nada do que foi proposto no projeto de 900 páginas era mirabolante. Como se viu nos blocos anteriores, há semelhanças e, possivelmente, inspirações em outras estruturas de sucesso – inclusive no próprio país. Em meio ao fracasso do futebol masculino, outras modalidades na Itália lideram o esporte em nível mundial. E, mesmo diante desse cenário, o então presidente da federação italiana de futebol, Gabriele Gravina, optou por chamar de “amadoras” modalidades muito mais organizadas do que o futebol sob sua gestão – uma declaração indigesta e que contribuiu para aumentar a fervura que resultou em sua renúncia.

O contraste entre o que poderia servir de inspiração e acabou sendo tratado com desdém ajuda a explicar o cenário atual: resistência ao novo e insistência em um modelo parado no tempo. Até quando? O fato é que talento não é mero fruto do acaso: é processo.

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