Zerozero
·13 mars 2026
O espelho da Hungria, onde o futebol é um silencioso aviso para Portugal

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·13 mars 2026

«Magyarország?», estranhou este jornalista, há 20 anos, no que foi um dos seus primeiros contactos com o futebol: uma caderneta de cromos do Mundial de 2006. Na secção da história, essa palavra - impronunciável para quem só sabia ler há um ano - surgia por duas vezes, como nação vencida na grande final. 1938 e 1954.
A palavra estranha é o endónimo da Hungria, viemos a saber. Uma nação que por essa altura já ia em duas décadas sem participar no Mundial. Tendo falhado a qualificação para o deste verão, ficando em terceiro no grupo de apuramento de Portugal, são agora quatro décadas. Magiares estão sem magia…
E dura para sempre a paisagem, como confirmámos ao sentir o futebol nas ruas de Budapeste, mas não é eterna a identidade, orgulhosa, de ser uma nação forte no futebol. Como é que um país tão pequeno à escala geográfica se torna numa das maiores potências do globo na modalidade? A equação é rica em variáveis, mas traz a garantia: tudo pode mudar.
A esse nível, não há país mais próximo de Portugal. A mesma população a rondar os dez milhões, ambos em torno dos 92 mil quilómetros quadrados. Um tem uma seleção recheada de talento e com vontade de um Mundial agarrar, o outro já foi assim e nunca mais conseguiu lá voltar.
Sentimos, por tudo isto, que olhar para o futebol húngaro é um necessário exercício de humildade. Estando neste país a propósito do jogo entre o Ferencváros e o SC Braga, o zerozero procurou essa reflexão.
A Aranicsapat, como era conhecida por casa (traduz-se para «equipa de ouro»), não foi só uma das melhores do seu tempo. Era uma das melhores de todos os tempos.
Com engenho tático à frente do seu tempo e liderança do histórico capitão Ferenc Puskás, além de nomes relevantes como Sándor Kocsis ou Zoltán Czibor, a Hungria estava no topo. Depois disso as exibições caíram, e no espaço de dois anos houve ainda uma revolução que marcou a história do país de uma forma ainda mais forte. Uma melhor versão da nação estaria por chegar, do ponto de vista dos seus cidadãos, mas isso não se traduziu na equipa de futebol.
«Sim, essa geração fez-nos, húngaros, acreditar que o país era uma grande potência do futebol», começa por confirmar-nos Tamás Kis, jornalista da MTI - a Agência Húngara de Imprensa.
«Depois vieram mudanças políticas e económicas muito profundas e isso afetou o futebol, que ainda está a recuperar. Durante décadas e décadas temos discutido o que precisa de mudar para o futebol húngaro voltar a competir ao mais alto nível.»
Mas como se tenta reerguer? Ora, com investimento! E embora isso também gere questões e seja parte do debate interno, com um crescente envolvimento político no futebol - não é segredo que o próprio Viktor Orbán é fanático pela bola -, o dinheiro tem entrado na federação e nos clubes.
«Nos últimos anos foram criadas academias e melhores infraestruturas para o desenvolvimento dos jovens. Hoje esse sistema tenta garantir melhores condições de evolução e isso não acontece sem investimento, mesmo que público.»
É evidente que o investimento na infraestrutura não é suficiente, especialmente se a grande parte das outras nações europeias seguirem planos semelhantes. O caminho é esse, desenvolvimento de dentro para fora, e também jogos como a vitória do Ferencváros sobre o SC Braga na Liga Europa ajudam a tornar o futebol húngaro mais atrativo.
«Talento individual pode aparecer, mas o verdadeiro desafio é criar um sistema que produza jogadores regularmente. Hoje ainda é comum ver os jovens a procurar desenvolver-se noutro país, mas está a melhorar», diz-nos quem convive com este futebol.
Mais que da liga doméstica, onde o clube mais atrativo enche o seu estádio de 20 mil lugares, o povo quer ver o sucesso da seleção. Essa enche sempre a nova Puskás Arena, com espaço para 67 mil adeptos - a casa da final da atual edição da Liga dos Campeões.
E o mais recente fracasso no apuramento para o Mundial, embora desmoralizador, não apaga o progresso até aqui feito. Há fatores relevantes que têm colocado alguma fé no atual rumo.
«É meio que um puzzle, mas sim, estamos na direção certa. Conseguir o apuramento e jogar os últimos Campeonatos da Europa mostrou isso. Quando a seleção joga o país vê e os adeptos estão contentes com esse progresso da equipa», explica Tamás.
Sobre esse foco na formação, o jornalista húngaro que nos fala lamenta o individualismo do sistema, recheado de pais convencidos de que o seu filho será o próximo Puskás. Um pouco como acontece em Portugal, ainda que no nosso caso seja atenuado por maior foco no treino e na metodologia do mesmo.
Essa é só uma das dezenas de paralelos que podemos fazer entre o futebol nos dois países. As já referidas semelhanças geográficas justificam comparações e, mais que as seleções, o importante é ver as decisões que estão a ser tomadas.
Um ponto curioso é a dimensão da Liga. Em Portugal, o primeiro escalão foi ampliado de 16 para 18 equipas em 2012. A questão da rentabilidade e dos direitos televisivos já foi central nessa decisão, justificada ainda com um suposto aumento de competitividade, mas são também esses os chavões de qualquer sugestão de redução.
Na Hungria (um país de igual população e dimensão, reforçamos) o escalão de topo joga-se com 12 equipas. Dois terços da nossa Primeira Liga. O argumento em torno disso é precisamente a maior qualidade e competitividade das equipas que lá jogam, mas também esse é um debate interno regular.
«Quando olho para o campeonato português, parece-me que existem quatro grandes clubes e os restantes estão bastante atrás. Uma das ideias do modelo húngaro é evitar uma diferença tão grande entre os clubes», comenta Tamás Kis, talvez esquecendo-se que a conversa decorre no estádio de uma equipa que conquistou os últimos sete campeonatos da Hungria.
«Mas sim, é um tema constante. Algumas pessoas defendem que a primeira divisão deveria voltar a ter 16 clubes, mas a federação acredita que uma liga mais curta cria uma competição mais equilibrada», diz, antes de confessar que, na sua opinião, manteria a atual dimensão mas com um formato de playoffs na fase final da época.
Não é um tema de respostas certas ou erradas, mas certo é que só participa na discussão quem está interessado em tornar o futebol da sua nação mais forte e competitivo.
E este é apenas um dos exemplos do que separa a Hungria (e o seu futebol) de Portugal (e do seu futebol). São de facto mundos diferentes, mas nem sempre foram e é por isso que importa olhar além dos tempos e das fronteiras, sem cair no erro de pensar que o que está bem continuará assim para sempre.
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