Zerozero
·16 janvier 2026
Talento da Premier League nasceu no Barreiro: «Fazia 30 minutos a pé para ir para o treino»

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·16 janvier 2026

«In your head, in your head! Mané, Mané, Mané!»
O Wolverhampton até pode estar a atravessar uma das épocas mais difíceis de sempre, com o pior arranque da história da Premier League e, a cada jornada, mais e mais condenado à descida de divisão, mas encontrou num jovem, com português a correr-lhe pelo corpo, uma réstia de esperança. E os adeptos já se renderam a Mateus Mané.
Nasceu em Portugal, filho de pais guineenses, e por cá esteve metade da sua vida (literalmente), até que o destino - ou os pais, para sermos mais corretos - o levaram para Inglaterra. Não demorou a tornar-se um ídolo entre os adeptos do Wolverhampton, que rapidamente fizeram um cântico - baseado no clássico «Zombie», dos The Cranberries - para o jovem avançado de 18 anos.
Mas vamos por partes. Mateus Mané está a começar a encantar em Inglaterra e, nas últimas semanas, tem sido um raio de luz na época negra do Wolves. Está em Inglaterra desde 2016, mas viveu nove anos em Portugal e foi nas escolinhas do Barreirense que deu os primeiros chutos numa bola enquanto atleta.
Por isso mesmo, não tardámos em começar a investigar sobre o seu passado no Barreiro, terra que o viu nascer, crescer e começar a impressionar.
Foi no Barreiro, mais propriamente no Vale da Amoreira, que encontrámos a família Serafim, que teve um importante papel na vida do jovem Mateus Mané, quando este dava esses primeiros passos na vida e no futebol.
Foi aí que António (pai) e Mateus (filho) entraram na vida do agora jogador do Wolverhampton, através dessa ligação ao Barreirense.
«Conhecemo-nos porque o meu Mateus decidiu ir para o futebol. Chamou-me à atenção que o Mateus Mané ia a pé com a irmã Marta para os treinos, desde aqui do Vale da Amoreira, até ao campo de treinos do Barreirense. São uns 30 minutos de caminho. Ele tinha uns seis/sete anos. Meti-me com eles, fiquei a saber que morávamos no mesmo bairro e ofereci-me para o começar a levar e trazer dos treinos. Só me apercebi do que se passava lá para novembro e ele certamente fazia aquilo desde o início da época. Até mesmo quando o meu Mateus estava doente, eu ir para os treinos para levar o Mané», começa por contar-nos António.
Mateus Mané passou dois anos na formação do Barreirense, criando, por isso, uma forte ligação à família Serafim. As boleias transformaram-se em conversas, que se transformaram em almoços e jantares, que se transformaram numa bela amizade, que dura até aos dias de hoje, mesmo que a distância não ajude.
«Como pessoa, comigo, o Mateus Mané ele era dificílimo para o ver sorrir. Era muito calado e sossegado. Frequentou-me aqui a casa durante algum tempo e nunca mexeu no frigorífico, na despensa, em nada. Aceitava tudo o que lhe dava. Nunca me disse que não, nem que não gostava ou que queria mais ou menos. Nada. Tinha uma educação espetacular, tal como os irmãos», explica o pai Serafim.
«Comigo ele tinha mais à vontade. No início, era envergonhado. Era a maneira dele de ser. Mas ficámos amigos. Em vez de irmos apenas para o treino juntos, como morávamos no mesmo bairro, ele vinha bater à minha porta e íamos jogar à bola lá fora. Estava mais à vontade comigo e ficámos amigos», complementa o seu filho, também ele chamado Mateus.
Mateus e os seus três irmãos - Marta, Mara e Marcos - são muito próximos, todos criados da mesma forma, todos muito ligados à religião - Mateus, de resto, partilha várias citações da Bíblia nas suas redes sociais -, todos muito unidos à família. Essa educação era bem visível desde cedo, desde a forma como interagia com os restantes, até à forma como...comia.
«Ele rapinava tudo o que lhe dava. Quando assim é, pensava que ele tinha fome e, por isso, quando ele vinha, comprava sempre mais para ele. Só ao fim de uns sete meses é que ele foi capaz de me dizer que havia um sabor de barra de cereais que eu comprava e lhe dava que ele não gostava. Vim a saber, mais tarde, que fazia parte da educação e da cultura deles, nunca recusar a comida que lhes é dada. Tudo por respeito. Levou muito tempo a levar confiança para o dizer e disse ao meu filho», lembra António.
«Quando eu vejo um miúdo a rapar tudo o que está no prato, acho que ele está a passar fome e coloco-lhe mais, mas ele comia sempre, até rebentar. A educação dele era assim. Mesmo que não gostasse. Ele limpava o prato e eu continua a meter mais, mesmo que o fizesse cinco vezes. Depois, a irmã contou-me que fazia parte da educação deles, que não rejeitavam a comida que lhes metiam no prato», acrescenta.
Foi em 2016 que a família Mané trocou o Barreiro por Rochdale, na região de grande Manchester, Inglaterra. Primeiro foi a mãe Isabel, enquanto o pai - com a grande ajuda da filha Marta, a mais velha - ficava com os quatro filhos. Depois, seguiram todos, em busca de uma vida melhor.
Por cá, Mateus já havia impressionado e cedo começou a mostrar que tinha talento, mesmo no "modesto" Barreirense, como conta António: «Ele esteve no Torneio dos Templários e entrou para o Sete Ideal, quando havia equipas como o Sporting e Benfica lá. Na altura, quem percebia de futebol já dizia que, se alguém de toda aquela equipa ia ter sucesso, seria ele. Ele foi criado na rua a jogar à bola, com os mais velhos. Com sete/oito anos, já fazia muita diferença a nível de motricidade. Com seis anos, jogava aqui no bairro com miúdos de 10. Aprendeu muito de rua e isso notava-se em campo contra os da idade dele.»
Por isso mesmo, o jovem jogador não quis deixar o futebol e juntou-se à formação do Rochdale, com apenas oito anos. Por lá ficou precisamente oito anos e, aos 16, chegou a ir para o banco de suplentes da equipa principal (1-2), que habitava, na altura, na National League, o 5º escalão nacional inglês.
O seu talento chamava cada vez mais à atenção e chegou a fazer testes no Southampton, mas foi o Wolverhampton quem conseguiu a sua contratação no início de 2024.
Desde então, a ascensão tem sido alucinante. Ganhou minutos nos Sub-18 com 16 anos, jogou nos Sub-21 com frequência com 17 e, em 2025, estreou-se na Premier League, na derrota com o Brighton (0-2), pela mão do português Vítor Pereira. Foi no entanto, a última vez que o técnico luso apostou nele, até porque foi despedido já no decorrer da presente temporada.
Como já foi referido, 2025/26 tem sido para esquecer para o Wolves e os seus adeptos, mas Mateus tem dado algumas das poucas alegrias que tiveram. Chamou à atenção ao assistir na derrota com o Arsenal (2-1), marcou na primeira vitória do Wolverhampton na Premier League esta época, frente ao West Ham (3-0) e voltou a faturar, mais recentemente, no empate com o Everton (1-1).
Os Serafim não escondem a felicidade por este sucesso e destacam o papel da educação de Mateus para tal.
Acho que está na mesma. A educação deles é assim. Vi episódios de ele ser mal tratado em campo por ser negro e ele nunca perdeu o foco, nunca foi abaixo mentalmente. Não sei se ia sozinho, mas mantinha a compostura. Tinha muita maturidade para a idade que tinha. Quando ele marcou o golo, no mesmo minuto mandei-lhe mensagem a dar os parabéns. Desejo-lhe tudo de bom no Mundo. A família toda merece ser feliz. Foi uma família que conheci e pela qual temos muita admiração», referem
Mateus Mané e a sua família ainda mantêm ligação a Portugal. Durante algum tempo, vinham a terras lusas de seis em seis meses ou, pelo menos, uma vez por ano. O Barreiro, e a casa Serafim, sempre foram paragem «obrigatória» e António e Mateus ainda falam, por mensagem, frequentemente com o jovem do Wolves. Contudo, Mateus confessa que o seu homónimo «já fala numa mistura entre português e inglês» e que por mensagens até falam «em inglês, por ser mais fácil para ele.»
«A última vez que estive com ele foi há dois anos, em 2024, e ele esteve aqui em minha casa. Já me vi à rasca para falar com ele, porque já só falava inglês. Não aprofundei muito conversa com ele, porque eu falo pouco inglês e ele já fala pouco português», acrescenta António.
Aqui se vê a dicotomia existente para o jovem Mané atualmente. De resto, este tema da sua nacionalidade tem vindo à baila nos últimos tempos, com o seu crescimento na Premier League.
Mateus chegou a representar a seleção portuguesa Sub-17 no passado, mas logo a seguir foi chamado pelos Sub-18 de Inglaterra e de Portugal, simultaneamente, para um torneio de preparação. Aproveitando as regras da UEFA, que permitem alternar entre seleções jovens, até ser chamado à principal de um país, optou por Inglaterra, nessa altura.
Atualmente, ambas as Federações «lutam» pela escolha de Mateus Mané, que aparenta estar mais inclinado para a inglesa - por quem conta com a maioria das internacionalizações jovens. O amigo António percebe a escolha.
«Nunca comentou connosco a escolha da seleção, até porque nunca aprofundámos isso. Se ele está a jogar bem pelas seleções inglesas, se está a correr bem, acho que ele deveria continuar lá. Ele acaba por já ter mais anos de Inglaterra do que de Portugal, tanto que já se vê á rasca para escrever e falar português», conclui António.









































