Jornal do Fla
·30 Juli 2026
Flamengo não voltou pior da Copa. Voltou com os mesmos problemas

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·30 Juli 2026


Todo mágico depende de um truque de atenção. Não é a moeda que some, é ele que faz você olhar para o outro lado. O Flamengo de Leonardo Jardim parece viver de um truque parecido em 2026.
Um gol de placa aqui, uma goleada ali, um calendário generoso o suficiente para esconder a mão que segurava a moeda. Nesta quarta (29), no Beira-Rio, contra um Internacional que não pontuava havia quatro rodadas, o truque foi exposto mais uma vez na temporada.
As críticas ao time de Jardim não nasceram agora. Começaram em abril, com o problema crônico da bola aérea e da falta de eficiência ofensiva. Seguiram em maio, quando o Flamengo caiu na Copa do Brasil para o Vitória, pior campanha da história do clube na competição, e emendou empates com Vasco e Athletico-PR enquanto acumulava 74% de posse sem gerar perigo.
No fim de maio veio a derrota para o Palmeiras por 3 a 0, em confronto direto, no Maracanã. Logo depois, vitórias contra Cusco e Coritiba deram um respiro. E então chegou a pausa para a Copa do Mundo.
A pausa surgiu quase como uma promessa. Agora sim, pensou-se, Jardim vai ter tempo para treinar, para ajustar, para corrigir o que vinha de errado. É uma expectativa razoável. E o que ele disse depois do empate com o Internacional também é verdade: nove convocados, Ortiz lesionado, um grupo treinando 30 dias com outras ideias enquanto o resto ficava fora, pouco tempo para reintegrar todo mundo.
“Foram dez dias com três jogos, ou uma semana com três partidas. Por isso, temos que aproveitar ao máximo este período que teremos agora para voltar a ajustar o grupo em sua totalidade, de forma que as ações sejam mais bem interpretadas e que a qualidade do jogo retorne ao nível que apresentamos em uma primeira fase, quando tínhamos todo o grupo à disposição”, declarou.
A justificativa é verdadeira, todos os pontos de fato aconteceram. Contudo, disfarça um problema cada vez mais urgente.
Foto: Reprodução/FlamengoTV
A pausa não corrigiu nada. Ela só interrompeu a sequência ruim por tempo suficiente para a memória fazer uma leve trapaça: a de achar que, antes da Copa, o projeto dava sinais de caminhar bem.
O time que reapareceu contra São Paulo e Internacional, com posse estéril, pouca objetividade e dificuldade de construir contra blocos fechados, é o mesmo time que já preocupava em abril e maio.
Contra o Internacional, foram 73% de posse e 645 passes certos contra apenas 198 do adversário. E, mesmo com esse domínio esmagador, só duas grandes chances criadas, uma convertida, o placar final travado em 1 a 1. É o retrato exato do que já se via: muita bola, pouco gol.
Olhando o retrospecto completo, fica claro o que sustenta a sensação de que existe um projeto: vitórias como 3 a 0 no Botafogo e 4 a 0 no Atlético-MG, ainda no calor inicial do trabalho, o título carioca conquistado nos pênaltis, e uma boa campanha geral na fase de grupos da Libertadores.
Momentos que, analisados de forma criteriosa, são pouco para o que se projeta desse time do Flamengo. Eles provam, na melhor das hipóteses, que o elenco é bom demais para não vencer nada.
Mesmo a vitória sobre o Grêmio, dentro de casa, foi um alerta nesse sentido. O time dominou o jogo do início ao fim e resolveu no detalhe, 1 a 0. Mesmo tipo de resultado apertado que, contra o Vitória semanas depois, se transformou em eliminação.
Se o critério que derrubou Filipe Luís foi a grande queda de desempenho comparado ao time campeão de 2025, especialmente com perda de títulos e começo ruim no Brasileiro, esse critério agora é aplicado com mais paciência.
Meses depois, olhando para os números, para os 74% de posse que não geram gol, para os empates contra adversários que brigam contra o rebaixamento, para a eliminação inédita na Copa do Brasil, cabe perguntar: que time é esse que estamos vendo agora?
O risco de confundir talento individual com trabalho coletivo é justamente esse: pegar os lampejos, os pênaltis contra o Fluminense, goleadas iniciais, os triunfos de intertemporada, e usar isso como prova de que existe um caminho sendo construído.
Pode ser só a prova de que o talento individual encontra, de vez em quando, uma saída apesar do sistema, não por causa dele.
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