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·21 Juni 2026

Villas-Boas: “O presidente do FC Porto deve ser eleito de forma unânime”

Gambar artikel:Villas-Boas: “O presidente do FC Porto deve ser eleito de forma unânime”

André Villas-Boas abriu a porta a uma nova candidatura à presidência do FC Porto, mas colocou-lhe uma condição que diz tudo sobre a ideia de clube que quer defender: unidade. Numa conversa que passou pela sucessão, pela pacificação interna, pela relação com os sócios e até pela velha tensão identitária do universo portista, o presidente azul e branco traçou uma linha de rumo assente em projeto, sustentabilidade e coesão. E, no centro dessa visão, deixou uma frase sem rodeios: “o presidente do FC Porto deve ser eleito de forma unânime”.

Com ainda caminho pela frente no mandato, André Villas-Boas falou a partir de um tempo de balanço e de projeção, entre o peso da herança e a exigência do futuro. O atual presidente do FC Porto apresentou-se com uma mensagem clara: mais do que discutir calendários eleitorais, interessa-lhe perceber se o clube continua reunido em torno de um projeto que se quer vencedor.


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Questionado diretamente sobre a possibilidade de se recandidatar, Villas-Boas não fugiu ao tema e enquadrou-o na lógica interna do clube. A resposta foi longa, pensada e reveladora da forma como olha para o cargo.

“Sim, passa rápido. Um título está conquistado, em dois anos restam mais dois por disputar, sendo que o último apanhará, evidentemente, as eleições de abril, perante os estatutos do FC Porto. Acho que os sócios votarão pelo trabalho. Eu sempre disse que o presidente do FC Porto deve ser eleito de forma unânime.”, afirmou. “Penso que é isto que une também os portistas. O FC Porto é mais forte quando está unido. Por muito que eu goste de respeitar a democracia, penso que a história do FC Porto obriga que o seu presidente seja eleito de forma unânime,para haver união comum em torno de objetivos a atingir, que é o sucesso do clube. Dito desta forma, enquanto o meu projeto FC Porto, seja ele qual for, for unânime, aqui estarei para liderá-lo. A partir do momento que eu perceber que deixo de ser unânime, nem sequer me recandidato, porque antes de ser presidente sou também sócio, sei perceber as dinâmicas que estão associadas à união do clube e jamais me poderia candidatar se visse que não tinha um projeto claramente vencedor.”

Há, nesta formulação, uma ideia de legitimidade que vai além do voto e entra no terreno simbólico da unidade. Villas-Boas não se limita a admitir uma recandidatura: condiciona-a a uma perceção de consenso que, no seu entendimento, fortalece o clube e protege-o de fraturas internas.

Confrontado depois com a possibilidade de uma vitória ainda mais expressiva no futuro, preferiu recentrar a conversa no essencial. Antes de pensar em urnas, apontou ao rendimento desportivo e à construção do que vem a seguir.

“Em primeiro lugar, espero conquistar o título 26/27 e, a partir daí, ser a base da construção de um FC Porto cada vez melhor.”

A resposta é curta, mas suficientemente eloquente. Mostra um presidente que tenta subordinar a ambição política ao resultado e ao crescimento do clube, colocando o próximo passo na estrada desportiva antes da estrada eleitoral.

Quando o tema passou para as feridas abertas do passado e para a tão falada pacificação interna, Villas-Boas escolheu a memória como ponto de partida. Fê-lo sublinhando o peso da história portista e a marca deixada por uma liderança de décadas.

“O FC Porto agarra-se a este passado, por isso é que fizemos também esta entrevista no museu, pela construção da sua história, pelo reconhecimento único do clube que somos e dos princípios e valores que nos marcam enquanto adeptos. Eu fui marcado por esta geração, pela liderança de Pinto da Costa, que foi de 42 anos.”, explicou. “Tenho 48 anos, portanto, alta e profundamente marcada por uma liderança única e vencedora. Estes novos sócios que agora chegam, que crescem a 20% ao ano, eu quero que eles sejam marcados da mesma forma que eu.”

Mais do que romper, o presidente procura inscrever-se numa continuidade emocional e cultural, ainda que com outro modelo de gestão e outra linguagem. A pacificação de que fala parece nascer daí: da tentativa de ligar passado e futuro sem negar o que fez o clube chegar até aqui.

Foi nesse registo que lhe perguntaram o que mudou efetivamente desde a chegada à presidência. Villas-Boas respondeu apontando para a estrutura do projeto e para a relação com a base associativa.

“Houve sobretudo uma mudança radical em termos de projeto, sustentabilidade económica, relacionamento com a massa associativa, na forma de comunicar com o verdadeiro dono do clube e se calhar uma visão mais projetada no tempo, fruto da juventude do seu atual presidente. Foi nisso que os sócios votaram, basicamente.”, sublinhou. “Há uma nova forma de nos relacionarmos com os associados, mais viva, mais direta, frontal e honesta, que os honra. Ser sócio do FC Porto, ter um lugar anual, custa dinheiro, é muito caro. E é por isso que os sócios também têm de ser recompensados, na forma como se relacionam com o seu clube de coração. Como é que se melhora isso? Necessidades, serviços, comunicação, benefícios e títulos.”

O retrato é o de uma presidência que quer ser julgada tanto pela gestão como pela proximidade. Ao falar no “verdadeiro dono do clube”, Villas-Boas recentra o discurso nos associados e sugere uma mudança de contrato emocional entre direção e bancada.

Houve ainda espaço para uma questão identitária, daquelas que atravessam gerações no universo azul e branco. Sobre o lema “nós contra Lisboa”, o presidente não disfarçou que continua a ver nele um reflexo de uma perceção persistente.

“Acho que não há outra forma de o ver enquanto se mantiver a disparidade de tratamento relativamente ao FC Porto, aos seus méritos, à forma como conquista, à forma como nos penalizam, como desgostam de nós, como desgostam dos nossos ativos. Acho que é uma cultura muito própria e nossa, mas que deve ser sustentada no tempo.”

A declaração confirma que, para Villas-Boas, essa matriz identitária não pertence apenas ao folclore do clube: continua a ser uma lente através da qual se interpreta o contexto competitivo e mediático. É uma visão que ajuda a consolidar o sentimento de pertença, mas também a manter viva uma narrativa de resistência.

Por fim, a conversa entrou num dos terrenos mais sensíveis do último período do clube: a relação entre a direção e os grupos organizados de adeptos. Villas-Boas descreveu um antes e um depois, ligando a mudança a uma revisão de práticas e ao controlo da bilhética.

“Há uma relação muito estreita e direta com o grupo organizado de adeptos, após uma revisão profunda do protocolo. Protocolo esse que um dia, como vocês bem sabem, eu queria ver lançado e aprovado em sede da Assembleia Geral. Penso que já não precisamos desse passo, porque a relação é cordial, é frontal. O que sobretudo deixou de acontecer com um dos grupos organizados de adeptos é que deixou de haver desvio de fundos. Isto é claro e é factual.”, garantiu. “O FC Porto perdia cerca de dois milhões de euros por ano relativamente à bilhética que estava relacionada com um grupo organizado de adeptos, mais outras problemáticas que estavam relacionadas com algumas casas. Portanto, isso ficou resolvido a partir do momento em que o FC Porto se transformou digitalmente e deixou de haver capacidade de haver ilícitos relacionados com a bilhética. A partir do momento em que isso deixou de acontecer, a relação passou a ser factual, frontal e honesta.”

O presidente sublinhou ainda que a contestação existiu, mas distinguiu a crítica desportiva da violência. E aproveitou para associar esse período a um contexto de dificuldades internas que, diz, obrigou a um ano de transição.

“Evidentemente, houve retaliação, mas houve uma retaliação desportiva relativamente à época 24/25, que se eu fosse adepto a teria feito também da mesma forma, não da forma violenta, mas de forma vocal e comunicativa relativamente a objetivos que tínhamos obrigatoriamente que atingir e não atingimos. Se calhar houve pouca tolerância para um ano de transição, absolutamente necessário, porque as fragilidades económicas que nós encontramos… Algumas são públicas, outras só nós sabemos. E foram muitas e duras.”, reconheceu. “O FC Porto, que era um clube que tinha salários em atraso, não incumpriu uma única vez com nenhum dos atletas em nenhuma modalidade e nenhum dos seus funcionários em 2025/26. Isto é algo que nos orgulha enquanto gestores e é o patamar de excelência que queremos atingir para o futuro.”

Neste ponto, Villas-Boas fecha o círculo do seu discurso: a unidade que pede, a exigência que aceita, a memória que invoca e a gestão que reivindica. Tudo converge na mesma tese — a de um FC Porto que, para voltar a ser mais forte, precisa de se reconhecer ao mesmo tempo na ordem, na exigência e na ideia de projeto comum.

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