Território MLS
·25 de junho de 2026
ANÁLISE: O que está acontecendo com a Bélgica nesta Copa do Mundo?

In partnership with
Yahoo sportsTerritório MLS
·25 de junho de 2026

A Bélgica chega à última rodada da fase de grupos da Copa do Mundo sob pressão. Os empates contra Egito e Irã frustraram a expectativa criada em torno dos Red Devils, que entraram no torneio como amplos favoritos para liderar o grupo. Antes da bola rolar, o cenário mais esperado era uma classificação tranquila, com nove pontos conquistados e uma das melhores campanhas da fase de grupos. Em vez disso, a seleção comandada por Rudi Garcia chega à última rodada ainda sem vitórias e cercada por dúvidas sobre o seu desempenho.
Os resultados são decepcionantes. A Bélgica deveria ter vencido Egito e Irã. Da mesma forma que deveria ter vencido Macedônia do Norte e Cazaquistão durante as Eliminatórias Europeias. Isso precisa ser o ponto de partida de qualquer análise séria.
Mas os resultados também levantam uma questão interessante: os problemas apresentados pela Bélgica nesta Copa são realmente novos?
A resposta parece ser não.
O trabalho de Rudi Garcia começou em uma situação delicada. Após a passagem de Domenico Tedesco, a Bélgica precisou disputar os playoffs de permanência da UEFA Nations League. Depois da derrota por 3 a 1 para a Ucrânia no jogo de ida, Garcia conseguiu uma vitória por 3 a 0 na volta e evitou o rebaixamento.
Aqueles dois jogos, no entanto, aconteceram em um contexto muito específico. A Bélgica precisava buscar o resultado a qualquer custo e jogou de forma muito mais agressiva do que normalmente faz. Por isso, as Eliminatórias para a Copa do Mundo acabam servindo como um retrato mais fiel da equipe que chegaria ao Mundial.
Logo na estreia, a Bélgica empatou com a Macedônia do Norte por 1 a 1. O roteiro daquela partida lembra bastante o que foi visto contra Egito e Irã. A Bélgica dominou a posse de bola, controlou territorialmente o jogo e encontrou dificuldades para transformar esse domínio em chances claras. Depois de abrir o placar, viu a Macedônia encontrar o empate em uma das poucas oportunidades criadas.
A partida serviu como o primeiro sinal de um problema que voltaria a aparecer diversas vezes.
Poucos dias depois, a Bélgica enfrentou País de Gales e venceu por 4 a 3. O resultado, porém, aconteceu em um contexto completamente diferente. Mesmo reconhecendo a superioridade técnica belga, os galeses participaram do jogo. Não abriram mão de atacar. Não passaram noventa minutos defendendo próximos da própria área. Foi uma seleção que procurou jogar futebol, ainda que de forma conservadora e respeitando suas limitações.
E isso faz diferença.
Ao longo dos últimos meses, ficou cada vez mais evidente que a Bélgica se sente mais confortável quando enfrenta equipes dispostas a participar do jogo. Não necessariamente equipes mais fortes, mas equipes que atacam em algum momento, pressionam em determinados momentos e oferecem espaços durante a partida.
O exemplo mais claro talvez tenha acontecido contra o Cazaquistão. O placar final de 6 a 0 pode sugerir uma atuação tranquila, mas o desenvolvimento da partida conta outra história. A Bélgica demorou mais de quarenta minutos para abrir o placar e encontrou muitas dificuldades enquanto o jogo permaneceu empatado. A diferença é que, depois do primeiro gol, o cenário mudou completamente. O adversário precisou sair um pouco mais para o jogo e os espaços começaram a aparecer.
Essa questão dos espaços ajuda a explicar boa parte do que vem acontecendo com a seleção.
A Bélgica não é uma equipe construída para atacar apenas através de transições. Também sabe controlar a posse de bola, ocupar o campo adversário e criar oportunidades em ataques posicionais. O problema é que suas principais virtudes aparecem justamente quando encontra espaço para acelerar.
Isso não começou com Rudi Garcia.
Também não começou com Domenico Tedesco.
Na verdade, essa característica acompanha a evolução do futebol belga há mais de duas décadas.
Depois da decepcionante Euro 2000, realizada em casa, a Bélgica iniciou um amplo processo de reformulação do seu futebol. O objetivo era criar uma identidade nacional clara para suas categorias de base e para a seleção principal. O projeto foi bem-sucedido e ajudou a formar a geração mais talentosa da história do país, revelando nomes como Hazard, De Bruyne, Courtois, Lukaku e companhia. Ao longo desse período, diferentes treinadores passaram pela seleção principal, cada um com suas próprias ideias e interpretações do jogo. O modelo, porém, permaneceu o mesmo. A Bélgica passou a valorizar a posse de bola não apenas como forma de controlar partidas, mas também como ferramenta para atrair adversários, gerar desequilíbrios e atacar os espaços criados a partir deles.
Por isso, os melhores momentos da história recente da seleção ajudam a entender o presente.
A geração de 2018 continua sendo a principal referência do futebol belga. Quando se fala naquela campanha, é impossível não lembrar do contra-ataque histórico contra o Japão ou da atuação diante do Brasil nas quartas de final. Foram partidas em que a Bélgica encontrou espaço para acelerar, atacar em velocidade e potencializar as características dos seus melhores jogadores.
Isso não significa que aquela equipe fosse incapaz de dominar adversários fortes. Pelo contrário. Na semifinal contra a França, por exemplo, a Bélgica controlou longos períodos da partida, empurrou os franceses para trás e criou oportunidades suficientes para disputar o resultado até o fim. Mas mesmo aquela geração tinha nas transições uma de suas principais armas.
A diferença é que havia mais talento individual disponível.
Hazard, De Bruyne, Lukaku em seu auge físico, Vertonghen, Alderweireld e Courtois formavam uma das seleções mais talentosas da história do país.
A Bélgica atual continua contando com jogadores de alto nível, mas depende muito mais de Jeremy Doku e Kevin De Bruyne para encontrar soluções criativas.
E isso ficou evidente nos dois primeiros jogos da Copa.
Contra o Egito, a equipe africana montou uma estratégia extremamente disciplinada para reduzir os espaços ofensivos da Bélgica. Em muitos momentos, Doku recebia a bola já cercado por múltiplos marcadores. Mesmo quando conseguia vencer o primeiro duelo, encontrava uma segunda ou terceira cobertura logo em seguida. O resultado foi uma Bélgica com muita posse e poucas situações realmente perigosas.
O jogo contra o Irã apresentou dificuldades semelhantes. A diferença é que os iranianos se mostraram ainda menos interessados em participar da partida. Durante longos períodos, aceitaram defender próximos da própria área e apostaram praticamente todas as suas fichas em bolas paradas e contra-ataques isolados.
Isso não absolve a Bélgica.
Nem absolve Rudi Garcia.
O treinador teve praticamente um ano de trabalho para preparar a equipe para a Copa do Mundo. É verdade que não teve um ciclo completo de quatro anos, mas também é verdade que Roberto Martínez assumiu a seleção sem um ciclo completo antes de 2018 e conduziu a melhor campanha da história do país em Mundiais.
A diferença está nas escolhas.
Garcia optou por aperfeiçoar uma ideia de jogo já existente em vez de ampliar significativamente o repertório da equipe. Em vários momentos essa decisão funcionou. A Bélgica venceu partidas importantes, apresentou evolução em relação ao período final da era Tedesco e mostrou boas atuações contra adversários como Estados Unidos e Croácia.
Contra os norte-americanos, encontrou uma equipe disposta a pressionar alto e atacar. Contra a Croácia, encarou uma seleção que procurou controlar a posse de bola e jogar em campo adversário. Foram contextos diferentes, mas que produziram algo em comum: espaço.
O próprio Mundial oferece exemplos que ajudam a contextualizar o que a Bélgica encontrou nas duas primeiras rodadas. A Espanha, uma das seleções mais associadas ao controle da posse de bola no futebol mundial, empatou sem gols com Cabo Verde. A equipe controlou territorialmente a partida, teve a bola durante praticamente todo o jogo, mas encontrou enormes dificuldades para criar oportunidades claras diante de um adversário confortável sem a posse e comprometido em defender próximo da própria área.
A ausência de Lamine Yamal também ajuda a explicar parte do cenário. Assim como a Bélgica sentiu falta de Jeremy Doku contra o Irã, a Espanha perdeu justamente o jogador mais capaz de criar desequilíbrios individuais em espaços reduzidos. Ainda assim, o principal fator continua sendo o contexto da partida: quando praticamente não existem espaços, até as seleções mais talentosas do mundo encontram dificuldades para transformar domínio em chances claras de gol.
Portugal viveu um cenário diferente diante da República Democrática do Congo. Apesar do empate por 1 a 1, encontrou um adversário disposto a participar mais do jogo, pressionar em determinados momentos e atacar quando surgiam oportunidades. Ainda assim, o jogo oferece outro paralelo interessante com a Bélgica.
Quando Portugal não conseguiu transformar sua superioridade em gol logo nos primeiros minutos e, pior, viu o Congo abrir o placar, a partida mudou completamente. O empate passou a ser insuficiente para uma seleção que tinha obrigação de vencer. A necessidade de buscar o resultado fez Portugal adiantar ainda mais suas linhas, assumir mais riscos e perder parte do controle emocional e tático da partida. Quanto mais o relógio avançava, maior era a sensação de urgência.
Foi exatamente esse tipo de cenário que a Bélgica viveu contra Egito e Irã. Não marcar cedo transforma um jogo teoricamente controlável em um teste de paciência. Sofrer um gol, como aconteceu diante do Egito, potencializa ainda mais esse problema. A equipe passa a atacar com mais homens, assume riscos maiores e, inevitavelmente, oferece espaços que talvez não concedesse em uma situação de maior tranquilidade.
A diferença entre esses contextos ajuda a entender o que a Bélgica encontrou contra Egito e Irã. O problema não está apenas na qualidade do adversário, mas também na forma como ele decide disputar a partida. Existe uma diferença importante entre enfrentar uma equipe que procura competir através do jogo e outra que transforma a defesa constante e o empate em objetivo principal.
E é justamente por isso que o duelo contra a Nova Zelândia ganha tanta importância.
Mas porque é um adversário que precisa vencer.
A equipe oceânica ainda possui chances de classificação e dificilmente poderá repetir a estratégia utilizada pelos dois primeiros adversários da Bélgica. Em algum momento terá que correr riscos, adiantar suas linhas e buscar o resultado.
Se isso acontecer, a Bélgica encontrará pela primeira vez nesta Copa do Mundo um cenário mais próximo daquele que historicamente favorece seu modelo de jogo.
Isso não garante uma grande atuação.
Também não garante classificação em primeiro lugar.
Mas oferece uma oportunidade importante para avaliar se os problemas apresentados contra Egito e Irã estão ligados apenas ao perfil dos adversários ou se representam limitações mais profundas de uma equipe que ainda busca sua melhor versão sob o comando de Rudi Garcia.
A Bélgica continua devendo futebol nesta Copa do Mundo. Mas a partida contra a Nova Zelândia pode ajudar a responder uma das principais perguntas do torneio até aqui: os Red Devils estão jogando abaixo do esperado ou simplesmente enfrentaram, nos dois primeiros jogos, os adversários que mais dificultam a execução do seu modelo de jogo?
Acompanhe a cobertura completa da Bélgica no Território Belga!
Ao vivo







































