Central do Timão
·29 de agosto de 2026
Corinthians faz série de questionamentos à SAFiel e trava avanço de proposta por SAF

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·29 de agosto de 2026

Por Larissa Beppler e Henrique Vigliotti | Redação da Central do Timão
O Corinthians encaminhou à SAFiel uma série de questionamentos sobre a proposta para transformação do futebol do clube em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) e, neste momento, condiciona o avanço das tratativas à apresentação de esclarecimentos pelo grupo.
O documento foi enviado após a reunião realizada na última quarta-feira (26), no Parque São Jorge, entre representantes do projeto e integrantes da cúpula alvinegra. A manifestação foi assinada por Osmar Stabile, presidente da Diretoria Executiva; Romeu Tuma Júnior, presidente do Conselho Deliberativo; e Miguel Marques e Silva, presidente do Conselho de Orientação (Cori). No texto, os três poderes do clube formalizam dúvidas que deverão ser respondidas antes de uma nova avaliação da proposta.

Eduardo Salusse e Carlos Teixeira, idealizadores da SAFiel, ao lado de Osmar Stabile, presidente do Corinthians — Foto: Reprodução
A iniciativa confirma a apuração publicada pela Central do Timão antes do encontro: a reunião não tinha como objetivo a assinatura da Proposta Não Vinculante (NBO), mas o esclarecimento de questões levantadas pelo Corinthians. Agora, o clube formalizou essas dúvidas e colocou a resposta da SAFiel como etapa necessária para a continuidade da análise.
O documento aborda aspectos jurídicos, financeiros, societários e de compliance e questiona, entre outros pontos, a base estatutária para a criação da SAF, as projeções de captação junto aos torcedores, a estrutura da empresa responsável pela proposta e possíveis conflitos relacionados a um de seus sócios.
Um dos principais pontos levantados pelo Corinthians está justamente na natureza da proposta. Embora a SAFiel a apresente como não vinculante, o clube identificou obrigações com eficácia jurídica imediata em uma de suas cláusulas e pede esclarecimentos sobre as possíveis consequências da assinatura do documento.
Corinthians questiona base estatutária para criação da SAF
O primeiro bloco de questionamentos envolve a possibilidade jurídica de constituição da SAF a partir do estatuto do Corinthians.
O clube observa que o artigo 2º, alínea “a”, estabelece o futebol como uma de suas finalidades associativas essenciais. O parágrafo 1º do mesmo artigo permite a criação de sociedade empresária como meio para que a associação alcance suas finalidades.
O Corinthians, porém, ressalta que o estatuto não estabelece um procedimento específico para a cisão do departamento de futebol ou sua transformação em SAF. O documento também cita uma reunião do Conselho Deliberativo realizada em 4 de maio de 2026, quando foi discutida a criação de um rito específico para uma operação dessa natureza, mas a proposta não foi instituída, uma vez que a reforma estatutária do clube segue suspensa pela Justiça.
Diante disso, o clube solicita que a SAFiel apresente a fundamentação jurídica para considerar o artigo 2º suficiente para respaldar a institucionalização da SAF.
Clube coloca projeção de captação da SAFiel sob análise
A projeção de captação de recursos junto aos torcedores também foi alvo de questionamentos.
O Corinthians cita o Anexo II do “Book SAFiel 2.0”, que utiliza informações de diferentes bases, incluindo Datafolha, Ipsos/Ipec, IBGE, Serasa, ANBIMA, B3 e Instituto Locomotiva. A proposta considera uma adesão de aproximadamente 5% dos chamados “torcedores economicamente ativos”.
O clube quer entender como dados provenientes de diferentes universos estatísticos foram compatibilizados e se houve algum tratamento técnico para evitar distorções na projeção.
Também solicita que a SAFiel apresente precedentes de operações nacionais ou internacionais de capitalização pulverizada no futebol que tenham alcançado taxa de conversão semelhante, além das respectivas fontes.
Outro ponto diz respeito à capacidade financeira dos torcedores. O Corinthians pede esclarecimentos sobre a consideração de fatores como endividamento familiar, inadimplência, restrição de crédito e liquidez disponível na elaboração da estimativa.
O clube também questiona se foram desenvolvidos cenários alternativos, incluindo hipóteses conservadora, intermediária e pessimista, para o caso de as premissas utilizadas pela SAFiel não se confirmarem.
Capital social de R$ 3 mil é questionado
A estrutura da Invasão Fiel S/A, empresa apresentada como proponente da operação, também entrou na lista de questionamentos.
O Corinthians chama atenção para o fato de a companhia possuir capital social de R$ 3 mil, considerado pelo clube um ponto que precisa ser esclarecido diante da dimensão econômica do projeto apresentado.
O documento também registra que a empresa foi constituída em 18 de julho de 2025 e tem como CNAE principal a atividade de holding de instituições não financeiras.
Diante disso, o Corinthians solicita que a SAFiel explique as razões societárias e negociais que levaram à constituição da empresa naquele momento e apresente informações capazes de demonstrar a experiência e a capacidade técnica e financeira de seus sócios para conduzir uma operação dessa magnitude.
Sócio da SAFiel é alvo de questionamentos de compliance
Um dos pontos mais delicados do documento envolve Maurício Dornellas Tabbal Chamati, sócio da Invasão Fiel S/A.
O Corinthians lembra que Chamati integrou o Comitê Independente de Finanças durante a gestão de Augusto Melo e assinou, em 19 de setembro de 2024, um Termo de Confidencialidade (NDA) que previa obrigação adicional de sigilo por cinco anos.
Por isso, o clube questiona se alguma informação obtida por Chamati durante sua participação no comitê foi utilizada na elaboração da proposta da SAFiel. Também solicita a identificação dos documentos e informações eventualmente acessados pelo empresário e quais medidas de compliance foram adotadas para afastar qualquer dúvida sobre o cumprimento do acordo de confidencialidade.
O documento ainda registra outros pontos levantados pelo departamento de Compliance relacionados ao sócio, entre eles uma condenação judicial mencionada pelo clube, um procedimento investigatório criminal por estelionato e suposto envolvimento no financiamento da campanha eleitoral de Augusto Melo.
O próprio Corinthians ressalva que os apontamentos integram o processo de diligência e não constituem juízo conclusivo sobre responsabilidade, ilicitude ou culpabilidade. A SAFiel deverá apresentar esclarecimentos para que o departamento de Compliance possa concluir sua análise.
O clube também solicita esclarecimentos sobre uma cláusula específica do NDA firmado por Chamati.
Segundo o documento, a Cláusula Sexta prevê, em caso de divulgação indevida de informações confidenciais obtidas no Comitê Independente de Finanças, a possibilidade de rescisão imediata do acordo e aplicação de multa compensatória pré-fixada em R$ 500 mil.
O Corinthians ressalta que a exigibilidade da penalidade depende da comprovação judicial de eventual violação, mas questiona se a SAFiel tinha conhecimento da existência e dos termos da cláusula.
Além disso, o clube pede que sejam discriminados os documentos, dados e fontes utilizados para a elaboração do projeto e do “Book SAFiel 2.0”. A intenção é verificar se informações protegidas pelo acordo de confidencialidade foram utilizadas, direta ou indiretamente, na construção da proposta.
Proposta é chamada de não vinculante, mas possui cláusula obrigatória
A natureza jurídica da NBO é outro ponto central da manifestação. O Corinthians destaca que, apesar de a SAFiel classificar a proposta como “não vinculante”, a Cláusula 9 é apresentada no próprio documento como contendo “Obrigações Vinculantes”.
A atenção do clube está especialmente voltada ao item 9.4, que determina que cada parte deverá arcar com seus próprios custos, “salvo acordo escrito em contrário”.
Para o Corinthians, a previsão precisa ser esclarecida porque pode produzir obrigações financeiras antes da conclusão de uma eventual operação. O clube quer saber quais situações estariam abrangidas pela exceção prevista na cláusula e quais seriam as consequências práticas de sua assinatura.
O documento ainda aponta uma aparente contradição entre a classificação da NBO como “não vinculante”, prevista nas Cláusulas 1 e 12, e a eficácia jurídica imediata atribuída à Cláusula 9.
Por isso, o Corinthians solicita que a SAFiel esclareça se a proposta possui, na prática, uma natureza híbrida, com determinadas disposições obrigatórias mesmo antes da conclusão de qualquer negócio.
Clube quer saber se assinatura impediria negociação com outros grupos
Outro questionamento diz respeito à possibilidade de exclusividade. O Corinthians quer saber se a eventual assinatura da NBO impediria o clube de analisar ou negociar propostas de constituição de SAF apresentadas por outros grupos durante o período de validade do documento.
A dúvida ganha relevância justamente porque a proposta contém obrigações consideradas vinculantes pelo próprio instrumento, mas sua classificação geral é de documento não vinculante.
SAFiel terá de responder antes de nova manifestação do Corinthians
Por fim, o Corinthians afirma que a avaliação da proposta permanece prejudicada enquanto os esclarecimentos solicitados não forem apresentados de maneira satisfatória.
O clube, porém, deixa claro que os questionamentos não representam uma rejeição ao projeto da SAFiel. Da mesma forma, o documento não significa a aprovação da proposta.
A manifestação trata a etapa como um processo de diligência. Após receber as respostas e os documentos solicitados, os poderes do Corinthians afirmam que voltarão a analisar os pontos levantados e os requisitos legais aplicáveis à eventual operação.
Apesar dos questionamentos formalizados pelo clube, a SAFiel afirmou, na última sexta-feira (28), que está disposta a elaborar uma nova proposta, de caráter vinculante, conforme compromisso manifestado publicamente pelo presidente Osmar Stabile.
O mandatário alvinegro declarou em entrevista que assinaria uma proposta definitiva mediante o compromisso de antecipação de parte dos aportes previstos no projeto, com o objetivo de viabilizar recursos para a quitação da Neo Química Arena.
A SAFiel aceitou a condição e afirmou que procuraria a diretoria do Corinthians na segunda-feira (31) para iniciar a elaboração da minuta e das demais providências necessárias à estruturação da operação, ressaltando, ao mesmo tempo, a necessidade de observância dos ritos estatutários do clube e de segurança jurídica para as partes.
Com isso, as tratativas entram em uma nova fase, na qual a elaboração de um documento vinculante deverá ser acompanhada da análise dos órgãos internos do Corinthians e do cumprimento das aprovações previstas no estatuto do Timão.
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