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·18 de setembro de 2026

FC Porto chegou à elite no feminino: “Sensação de representar algo maior do que nós próprias”

Imagem do artigo:FC Porto chegou à elite no feminino: “Sensação de representar algo maior do que nós próprias”

Em apenas dois anos, o FC Porto passou por duas subidas de divisão e estreou-se com uma vitória no principal escalão do futebol feminino. A evolução do projeto tem sido rápida, mas a chegada à Liga BPI representa uma mudança significativa: a equipa deixou de dominar as divisões inferiores para começar a medir forças, semana após semana, com clubes mais experientes e estruturados.

Foi precisamente sobre essa transição que o zerozero falou com Ema Gonçalves, Morgan Stone e Daniel Chaves, no âmbito do Media Day organizado pelo FC Porto.


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Entre a ambição inerente ao clube e a prudência necessária numa fase de crescimento, capitã, reforço e treinador partilham a mesma convicção: o Dragão chegou à elite para competir, embora continue a formar a equipa que quer afirmar no futuro.

Um objetivo alcançado, ainda sem ser vivido no relvado

Ema Gonçalves vive a subida de forma particularmente especial. A capitã chegou ao FC Porto no início do projeto com a missão de ajudar a levar o clube até à Liga BPI. Depois de contribuir para a conquista da III Divisão e para o domínio portista na II Divisão, viu o objetivo concretizado, mas ainda não conseguiu desfrutá-lo dentro das quatro linhas.

«Sinto que este é o culminar de um primeiro objetivo, porque não quero parar por aqui. A minha vinda para o FC Porto foi, sem dúvida, com este objetivo de trazer o clube à primeira divisão. E aqui estamos», começou por dizer.

Uma fratura no perónio direito, contraída na fase final da temporada passada, impediu-a de participar nos jogos decisivos. Ema teve de acompanhar à distância a final da Taça de Portugal, a Supertaça e a estreia do FC Porto na Liga BPI. Antes da lesão, em 2025/26, tinha participado em 24 partidas e apontado três golos.

A impossibilidade de jogar levou-a também a reinventar a forma de exercer a liderança. Sem poder influenciar a equipa através da atitude nos duelos ou da resposta às adversidades, passou a dar maior importância à comunicação para desempenhar o papel de capitã.

«Enquanto capitã, às vezes não são precisas palavras. Basta a forma como estamos no jogo, como abordamos um lance ou reagimos a certas coisas. Não estando em campo, essa parte apaga-se um bocadinho e é preciso comunicar mais. Foi diferente, mas também me fez crescer.»

Com a recuperação a aproximar-se do fim, permanece apenas por concretizar um momento simbólico.

«Vai ser uma enorme felicidade quando chegar, porque foi para isso que vim: para estar na Liga BPI e trazer o FC Porto para a Liga BPI. Nem que sejam 30 segundos, nem que seja para ir à baliza. O que importa é entrar em campo e servir o FC Porto da maneira que merece.»

Duas subidas e uma presença no Jamor

Ema acompanhou de perto todas as etapas do crescimento do projeto. Na primeira temporada, a equipa ainda não tinha condições para treinar regularmente no Olival. Entretanto, o clube reforçou os recursos, aumentou o acesso a relvados naturais e elevou o nível de exigência colocado no grupo. O progresso também tem sido evidente nos resultados.

Na época passada, o FC Porto terminou o campeonato com 18 vitórias, dois empates e uma derrota em 21 jogos. Marcou 52 golos, sofreu nove e completou invicto a fase de apuramento de campeão.

A temporada ultrapassou a conquista da II Divisão e a segunda promoção consecutiva. No caminho até à final da Taça de Portugal, as portistas eliminaram adversários do principal escalão, acabando derrotadas pelo Benfica, por 2-0, no jogo decisivo. A presença no Jamor garantiu ainda a participação na Supertaça.

O crescimento veloz aumentou as expectativas, mas Daniel Chaves reconhece que chegar à Liga BPI é diferente de estar preparado para dominar a prova. O treinador passou a defrontar equipas com vários anos de experiência no escalão principal, maior capacidade de investimento e presença em competições europeias.

«Queremos dar passos sólidos e não dar um passo maior do que a perna. Sabemos que as coisas, para estarem ao nível que o clube quer, levam tempo. Acima de tudo, queremos ser competitivos», explicou.

A profunda reformulação do plantel torna igualmente necessário reconstruir rotinas e relações em campo. O FC Porto procurou juntar experiência de Liga BPI, maior concorrência interna e mais capacidade física, mas voltou a começar a época com muitas jogadoras novas.

Morgan acrescenta experiência a um grupo em crescimento

Morgan Stone é uma das novidades e chega com conhecimento do principal escalão. Depois de ter vestido as camisolas de Damaiense e Valadares Gaia, a média norte-americana encarou a mudança para o FC Porto como o passo natural seguinte numa carreira construída em Portugal.

«Em cada clube pensava em como podia subir ligeiramente o nível e desafiar-me. A passagem do Valadares para o FC Porto foi muito clara, porque sempre fui uma grande adepta do clube. Adorava o projeto, mas, acima de tudo, adorava o clube e a cultura que existe à sua volta.»

Na última temporada, a jogadora somou 22 encontros, um golo e duas assistências pelo Valadares. A sua experiência poderá ser importante num plantel jovem, onde várias futebolistas ainda não tiveram contacto com a exigência do principal escalão.

«Há um salto muito grande entre a segunda e a primeira divisão. A intensidade e a competitividade de cada jogo são diferentes. Algumas jogadoras são jovens e novas na Liga, por isso essa é uma experiência que posso partilhar com elas.»

A dimensão do FC Porto trouxe também uma responsabilidade acrescida. Morgan percebeu-o na apresentação aos adeptos, diante de cerca de dez mil pessoas, na vitória por 2-1 sobre o Celta de Vigo, no Estádio do Dragão.

«Há uma responsabilidade diferente sempre que vestimos esta camisola. Os adeptos do FC Porto são muito exigentes, mas é exatamente disso que precisamos. Algumas pessoas podem ver isso como algo negativo; para mim, é positivo, porque me obriga a querer representar cada vez melhor o clube.»

Da derrota na Supertaça à reação na estreia

O primeiro desafio oficial da nova realidade terminou com uma derrota pesada. O Benfica bateu o FC Porto por 5-1 na Supertaça, num resultado que evidenciou a distância entre o hexacampeão nacional e uma equipa ainda a criar novos automatismos.

Daniel Chaves relaciona esse desfecho com o contexto vivido pelo plantel. Na época anterior, apesar de competir no segundo escalão, o FC Porto chegou aos momentos decisivos com processos assimilados e um conhecimento profundo entre as jogadoras. No Fontelo, apresentou várias caras novas, pouco tempo de trabalho conjunto e algumas condicionantes resultantes de lesões.

«Sabemos o nível que temos de ter e aquele a que queremos chegar. Vamos encontrar jogos que nos vão pedir outras coisas e momentos em que não vamos dominar como dominámos nos últimos dois anos. Temos de saber ajustar-nos e passar por essas fases.»

A resposta não tardou. Seis dias depois, na estreia absoluta na Liga BPI, o FC Porto entrou em desvantagem no terreno do Valadares Gaia, mas conseguiu dar a volta e vencer por 3-1. Morgan Stone marcou frente à antiga equipa, aos 16 minutos, Fatumata Sissé consumou a reviravolta ainda na primeira parte e Angeline da Costa estabeleceu o resultado final perto do apito.

«A estreia correu exatamente como queríamos. Aprendemos muito desde o primeiro dia, passando pela Supertaça, até este jogo. Enquanto continuarmos a aprender e a crescer ao longo da Liga, estaremos bem», considerou Morgan.

O triunfo confirmou a capacidade de reação exigida por Daniel Chaves. Depois de sofrer primeiro, o FC Porto respondeu de imediato e iniciou a caminhada no principal escalão com três pontos, apesar de ainda estar longe da versão idealizada pelo treinador.

SC Braga será o primeiro grande teste na elite

O próximo adversário é o SC Braga, que também começou o campeonato com uma vitória, depois de golear o Marítimo por 5-0. A partida será o primeiro teste de maior exigência em casa para o FC Porto na Liga BPI, colocando frente a frente duas equipas determinadas a aproximar-se dos lugares cimeiros.

Para já, Daniel Chaves não estabelece uma classificação como prioridade. O treinador quer, acima de tudo, que o FC Porto desenvolva uma identidade própria e facilmente reconhecível.

«O objetivo é que a nossa equipa seja vista como uma equipa à FC Porto: trabalhadora e capaz de fazer com que as dificuldades não sejam fraquezas. Queremos que os adeptos olhem para dentro de campo e vejam uma equipa com a imagem vincada do clube.»

Ema resume essa identidade em «alma, raça, querer e vontade». Morgan fala em «competitividade, resiliência e a sensação de representar algo maior do que nós próprias». Cabe a Daniel transformar esses princípios num coletivo preparado para os períodos em que terá menos bola e menor controlo dos jogos do que acontecia nas divisões inferiores.

O FC Porto entrou na Liga BPI com muito por aprender, mas já conseguiu deixar uma primeira impressão. Depois de duas promoções seguidas, o desafio passa agora por demonstrar que a velocidade do trajeto não comprometeu a criação de bases consistentes.

Quando Ema regressar ao relvado, mesmo que seja apenas por 30 segundos, ficará cumprido o primeiro grande objetivo de uma caminhada que o clube pretende prolongar.

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