Felipão conta diversas novidades sobre o trabalho de Luís Castro no Grêmio
Luiz Felipe Scolari falou sobre o momento do Grêmio e fez uma defesa bastante interessante do trabalho de Luís Castro. Em entrevista à Rádio Grenal antes da partida contra a Chapecoense, Felipão admitiu que os resultados ainda não apareceram como deveriam e calculou que o Tricolor precisaria ter aproximadamente seis a oito pontos a mais no Campeonato Brasileiro para que a pressão sobre o treinador fosse bem menor. Ao mesmo tempo, foi além daquele discurso tradicional de que “o trabalho no dia a dia é bom” e explicou por que entende que o processo ainda precisa de tempo.
Segundo Felipão, Luís Castro é um treinador extremamente exigente na parte tática e cobra bastante disciplina dos jogadores. O problema é que as características do atual elenco gremista ainda não são exatamente aquelas que o português gostaria de ter para colocar seu modelo em prática. Na visão do coordenador, Castro está tentando mudar uma cultura de jogo dentro do clube e isso não acontece rapidamente. Existem jogadores que precisam desenvolver novas valências e aprender funções que hoje não fazem naturalmente.
Esse talvez tenha sido o ponto mais importante da entrevista. Felipão entende que não basta o treinador apresentar boas ideias. Os atletas também precisam conseguir executá-las. E, na opinião dele, há jogadores do Grêmio que ainda precisam acrescentar qualidades ao próprio jogo para que o time consiga chegar mais perto daquilo que Luís Castro pretende. Não foi uma crítica direta, mas inevitavelmente coloca uma parcela importante de responsabilidade sobre o elenco.
Scolari também reconheceu que, se Luís Castro fosse um treinador brasileiro, provavelmente estaria sendo ainda mais atacado neste momento. Só que fez questão de afirmar que aquilo que acompanha e escuta internamente sobre as ideias do treinador é positivo. O problema continua sendo transformar essas ideias em futebol dentro de campo. E aí entra justamente essa incompatibilidade parcial entre aquilo que Castro deseja e aquilo que algumas peças do elenco conseguem entregar atualmente.
É mais uma voz importante dentro do Grêmio apontando para os jogadores. A direção já vinha fazendo isso ao defender a manutenção do treinador e optar por modificar o elenco antes de trocar o comando técnico. Agora Felipão também reforça essa linha: existe responsabilidade de Luís Castro, evidentemente, mas o clube entende que vários atletas ainda não estão conseguindo executar aquilo que é pedido.
Felipão também explicou claramente qual é sua função dentro do departamento de futebol. Ele não pretende interferir em escalação, esquema tático ou substituições. Inclusive comparou sua atuação com aquilo que imagina acontecer com Abel Braga no Internacional. Segundo Scolari, nem ele nem Abel são mais os treinadores das equipes e, portanto, não devem entrar na sala dos técnicos para determinar quem joga ou como o time deve atuar.
A lógica é simples. Quando era treinador, Felipão também não aceitava interferência externa em escalações e decisões de campo. Agora, como coordenador técnico, pretende respeitar exatamente a mesma autonomia. Pode emitir pareceres, conversar e dar sua opinião quando for solicitado, mas não vai chamar Luís Castro para determinar quem precisa entrar, sair ou qual formação deve ser utilizada.
Neste momento, inclusive, Felipão diz estar muito mais envolvido com as categorias de base e com o desenvolvimento dos jovens que poderão formar o Grêmio dos próximos anos. E esse assunto também ajuda a entender parte da paciência existente com Luís Castro. Uma das características valorizadas no treinador é justamente o trabalho com atletas jovens. Viery ganhou espaço e acabou vendido, Gabriel Mec está deixando o clube rumo ao Porto e outros jogadores da base começaram a receber oportunidades.
Só que Felipão fez um alerta importante: não dá para esperar que todo garoto de 17 ou 18 anos que sobe para o profissional esteja imediatamente preparado para decidir partidas pelo Grêmio. Segundo ele, um jovem que chega ao time principal e consegue dar resposta já no primeiro ano é uma raridade, praticamente um caso em mil. A maioria precisa de dois, três ou até quatro anos de formação no profissional até atingir maturidade física, técnica e principalmente mental.
Por isso, quando o Grêmio sobe jogadores do sub-17 ou sub-20 atualmente, a expectativa interna não deveria necessariamente estar em 2026. Felipão fala muito mais em 2027 e 2028 como o período em que vários desses atletas poderão começar a apresentar uma resposta consistente. É um projeto de médio prazo e também uma forma encontrada pelo clube para desenvolver patrimônio, vender jogadores e ajudar na reorganização financeira.
Esse ponto ajuda a explicar a aposta em Luís Castro. O Grêmio entende que está reconstruindo o elenco, reduzindo a folha salarial e aumentando a participação da base ao mesmo tempo em que tenta mudar sua maneira de jogar. Isso naturalmente exige tempo. O problema é que futebol também cobra resultado imediato, e o próprio Felipão reconhece que faltam pontos na tabela.
Então a defesa não é irrestrita. O que Scolari está dizendo é que existem motivos para acreditar no processo, mas também existem razões claras para o rendimento ainda estar abaixo do esperado. Luís Castro tenta implementar um modelo que o elenco ainda não executa completamente, os jogadores precisam desenvolver características diferentes e muitos dos jovens tratados como parte da solução só deverão estar realmente prontos daqui a dois ou três anos.
É uma explicação mais profunda para aquilo que acontece no Grêmio. Agora falta a parte mais importante: fazer esse processo começar a aparecer também dentro de campo. Porque boas ideias, planejamento de base e projeto para 2027 ou 2028 podem justificar paciência, mas o time principal continua precisando responder no presente.