Calciopédia
·08 de agosto de 2026
Francesco Guidolin fez história ao brilhar no comando de times pequenos e médios da Itália

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O futebol italiano sempre reservou um espaço especial para treinadores capazes de fazer mais com menos. Enquanto alguns construíram fama comandando gigantes como Inter, Juventus ou Milan, outros ergueram sua reputação transformando equipes de orçamento limitado em adversários temidos, potencializando jogadores pouco conhecidos e levando azarões a resultados improváveis. Francesco Guidolin pertence justamente a esse segundo grupo. Ao longo de quase três décadas à beira do gramado, tornou-se um dos técnicos mais respeitados de sua geração por repetir esse processo em diferentes contextos, deixando uma marca de organização e capacidade de adaptação tática e comportamental. Não por acaso, seu nome passou a ser associado a alguns dos trabalhos mais consistentes realizados por times de fora do círculo das tradicionais potências do esporte local.
Nascido em 3 de outubro de 1955, em Castelfranco Veneto, Guidolin iniciou sua relação com o esporte na sua própria cidade natal, defendendo as categorias de base do Giorgione. Foi ali que chamou a atenção de Giancarlo Cadè, então treinador do Verona, durante um período de testes realizado no estádio Marcantonio Bentegodi, começando uma trajetória que parecia apontar para uma carreira promissora como jogador. Aos 17 anos, passou a integrar a base do Hellas e, pouco depois, estreou na Serie A, em novembro de 1975, diante do Ascoli. Ele era um meio-campista de boa visão de jogo, capaz de atuar tanto pelo centro quanto pelos lados do campo, com características de organizador, mas sem o vigor físico necessário para competir em pé de igualdade com outros jogadores da posição.
Durante os anos seguintes, sua carreira foi marcada por sucessivos empréstimos e tentativas de afirmação. Em 1977, ganhou espaço na Sambenedettese, onde finalmente disputou uma temporada como titular na Serie B. De volta ao Verona, voltou a encontrar dificuldades para conquistar minutos em campo e acabou sendo novamente cedido, desta vez à Pistoiese. Guidolin participou da campanha que levou a chamada Olandesina ao acesso para a Serie A antes de retornar outra vez ao Hellas.
Na volta ao clube, viveu seu momento mais consistente como atleta. Na Serie B de 1980-81, tornou-se titular, passou a ostentar a braçadeira de capitão e colaborou diretamente para o retorno do Verona à primeira divisão, contribuindo inclusive com oito gols ao longo da campanha do título. Ainda assim, jamais conseguiu transformar aquela boa temporada em consolidação. Quando teria a chance de despontar na elite, Guidolin viu a diretoria dos butei investir no experiente brasileiro Dirceu, que tinha duas Copas do Mundo nas costas, e foi cedido ao Bologna, time com o qual caiu para a terceira divisão. O meia logo tornou ao Hellas, onde já encontrava espaço cada vez menor – embora se valesse da convivência com o técnico Osvaldo Bagnoli, uma de suas influências, para desenvolver seu estilo de trabalho nos vestiários mais tarde.
O meia manteve vínculo com o time gialloblù até 1984. O que significa que, por pouco, não fez parte do elenco que conquistou o histórico scudetto de 1984-85. Curiosamente, apesar de ser vêneto e de ter vivido grande parte de sua trajetória como atleta com a camisa dos mastini, nunca treinaria o Verona em sua longa trajetória como técnico. Ao contrário, faria história no grande rival – mas isso é assunto para depois.
Em junho de 1984, já aos 28 anos, deixou definitivamente o time gialloblù para acertar sua transferência ao Venezia, então na Serie C2. À época, essa idade representava um estágio muito mais avançado da carreira de um jogador do que representa atualmente. A evolução da medicina esportiva, dos métodos de treinamento e da preparação física ainda estava longe do nível alcançado nas décadas seguintes, fazendo com que muitos atletas entrassem em declínio antes mesmo de chegarem aos 30. Uma lesão sofrida durante a segunda temporada pelos lagunari agravou ainda mais sua situação e acabou levando à rescisão do contrato, em 1986.
Assim, aos 31 anos, Guidolin pendurou as chuteiras. Posteriormente, ele próprio faria uma autocrítica bastante dura, reconhecendo que lhe sobrava qualidade técnica, mas faltavam características indispensáveis para competir em alto nível: definiu a si mesmo como um jogador pouco combativo, nem sempre suficientemente motivado e excessivamente influenciado por fatores externos, como o estado do gramado, o clima ou até mesmo as reações das arquibancadas.
A transição do campo para a prancheta foi quase imediata. Encerrada a carreira de atleta em 1986, Guidolin voltou ao Giorgione, clube onde dera seus primeiros passos no esporte. Inicialmente assumiu as categorias de base, iniciando um aprendizado distante dos holofotes e das pressões dos grandes centros. Ali também reencontrou Raul Pietribiasi, presidente da agremiação e uma figura decisiva em sua trajetória. Além de confiar no ex-jogador para iniciar sua caminhada como treinador, o cartola voltaria a exercer papel importante em sua vida pessoal: o de sogro. Afinal, o técnico casou com Michela, filha do dirigente.
Guidolin foi meia talentoso e teve sua carreira como atleta ligada principalmente ao Verona (Getty)
Dois anos depois de ingressar nas fileiras dos rossostellati, Guidolin recebeu a oportunidade de dirigir o time principal, que disputava a Serie C2, já com a temporada em andamento. O início esteve longe de ser animador. Em sua primeira experiência como técnico profissional, o Giorgione terminou na última colocação do campeonato e acabou rebaixado para a quinta divisão. Este desfecho poderia ter comprometido a carreira de qualquer treinador iniciante, mas acabou produzindo o efeito oposto e o comandante chamou a atenção do Treviso, um dos clubes mais tradicionais do Vêneto, também na Serie C2.
Guidolin, que aprendia rapidamente a lidar com o novo ofício, já apresentou uma evolução perceptível no comando dos biancocelesti. A equipe terminou a temporada 1989-90 na sexta colocação, desempenho suficiente para recolocá-lo no radar de clubes da terceira divisão. O passo seguinte foi o Fano, na Serie C1. Pelo time marquesão, repetiu uma campanha sólida e o conduziu ao quinto lugar em 1990-91. Na temporada seguinte, assumiu o Empoli, também na terceirona, e repetiu o posicionamento em seu grupo na categoria – ao passo que os grenás caíram. Os resultados talvez não chamassem imediatamente a atenção do grande público, mas demonstravam uma característica que passaria a acompanhá-lo por toda a carreira: seus times raramente ficavam abaixo do que suas condições permitiam.
O salto da carreira do técnico veio a partir de 1992-93, quando assumiu o Ravenna. Sob a batuta do vêneto e conduzido pelos gols de Cosimo Francioso, o time romanholo faturou o primeiro lugar de seu grupo na Serie C1, garantindo o acesso à segunda divisão italiana pela primeira vez na história. Paralelamente, os giallorossi também alcançaram as semifinais da Coppa Italia da terceirona. Naquele trabalho, para além da inédita promoção, Guidolin valorizou atletas que ganhariam espaço na elite mais tarde: Francesco Toldo, Stefano Torrisi e Lamberto Zauli, que reencontraria em três outros clubes ao longo da carreira. Depois de três temporadas consecutivas entre os cinco primeiros colocados da terceira divisão e, enfim, de um título, o treinador já não podia mais ser visto apenas como uma aposta.
O trabalho em Ravenna foi suficiente para despertar o interesse da Atalanta, que decidiu confiar a um treinador de apenas 38 anos a missão de comandar uma equipe da Serie A. Naquela época, a Dea ainda estava longe de ser a potência construída décadas depois sob o comando de Gian Piero Gasperini. Tratava-se de um time acostumado a batalhar sempre pela permanência na elite, oscilando entre campanhas mais tranquilas e temporadas de sofrimento, nas quais se via envolvido na disputa contra o rebaixamento. Ainda assim, era um salto enorme para alguém cuja experiência se restringia até então às divisões inferiores.
Guidolin chegava credenciado por suas ideias de futebol, inspiradas nas inovações que Arrigo Sacchi trouxera no fim da década de 1980. A aposta no 4-4-2 e na marcação por zona, porém, não produziu os resultados esperados. A Atalanta iniciou mal a temporada 1993-94 e o treinador acabou demitido após apenas 10 rodadas da Serie A. O desempenho certamente pesou para a decisão, mas o contexto também merece ser observado. A classificação ainda estava bastante comprimida naquele momento, e a equipe dividia a mesma pontuação com diversos concorrentes diretos, tendo apenas o Lecce abaixo. A diretoria nerazzurra preferiu agir cedo, encerrando um trabalho que mal havia começado, e entregou o comando ao inexperiente Cesare Prandelli, então técnico dos juvenis, que sequer tinha concluído o curso para dirigir um time de elite – de modo que Andrea Valdinoci é que tinha de assinar as súmulas. A Dea acabou caindo. E o comandante vêneto também partiu para a segundona.
O ainda jovem Guidolin, que estava para completar 39 anos, tomou uma decisão que se repetiria em outros momentos de sua carreira: aceitou dar um passo atrás para voltar a crescer. Na Serie B, quem sabe, poderia implementar plenamente suas ideias. E foi realmente o que ocorreu quando, a partir de junho de 1994, voltou ao Vêneto para comandar o Vicenza, arquirrival do Verona. Na sua região natal, iniciaria o seu primeiro grande trabalho no futebol italiano. De cara, logo na primeira temporada, conduziu a equipe ao terceiro lugar da segunda divisão, garantindo o seu retorno à elite após 16 anos de ausência. Curiosamente, o feito foi obtido com um elenco formado integralmente por italianos, como os destaques Giorgio Sterchele, Luigi Sartor, Giovanni Lopez, Alessandro Dal Canto, Domenico Di Carlo, Fabio Viviani e Roberto Murgita – este, autor de 19 gols.
A permanência na Serie A, naturalmente, passou a ser o primeiro objetivo do time, que perdeu Sterchele e Dal Canto, mas ganhou os reforços dos italianos Luca Mondini e Giampiero Maini, do sueco Joachim Björklund e dos uruguaios Gustavo Méndez e Marcelo Otero. O Vicenza não tinha estrutura para disputar as posições mais altas da tabela, mas fez uma campanha segura e terminou o campeonato de 1995-96 na nona colocação, bem no meio da tabela e longe da luta contra o descenso. Mais uma vez, Guidolin entregava exatamente aquilo que se esperava – ou até um pouco mais.
O verdadeiro auge daquela passagem, entretanto, ainda estava por vir. Na temporada seguinte, o treinador conduziu o Vicenza – que viu seu elenco mudar muito pouco – à maior conquista de sua história ao levantar a Coppa Italia de 1996-97. O caminho até o título esteve longe de ser simples. O time eliminou Lucchese, Genoa, Milan e Bologna antes de enfrentar o Napoli na decisão. Derrotado por 1 a 0 na primeira partida da final, os biancorossi responderam de maneira contundente diante de sua torcida ao vencerem por 3 a 0.
Usando agasalho esportivo, algo que viraria sua marca registrada como técnico, Guidolin levou o Vicenza ao título da Coppa Italia em 1997 (imago/Baering)
Era um troféu de peso, sem precedentes para uma instituição de muita tradição, mas que jamais figurou entre as principais forças do futebol italiano. Durante aquela mesma temporada, a “nobre provinciana” chegou inclusive a liderar a Serie A na 10ª rodada, um feito improvável para um plantel de recursos tão modestos – principalmente em comparação aos gigantes do país. Evidentemente, o Vicenza não conseguiu sustentar o ritmo até o fim do campeonato, mas o concluiu num mais do que digno oitavo lugar.
A conquista garantiu ao clube uma vaga na Recopa Uefa de 1997-98 – e não demorou para que o Vicenza mostrasse que o título nacional não havia sido mero acaso. Antes disso, Guidolin teve que lidar, pela primeira vez desde sua chegada ao clube biancorosso, com uma pequena revolução, já que Lopez, Sartor, Mondini, Maini e Murgita estiveram entre as muitas vendas feitas pela diretoria. Em contrapartida, chegaram Francesco Coco e Massimo Ambrosini, emprestados pelo Milan, Lorenzo Stovini, Roberto Baronio, Arturo Di Napoli, Pasquale Luiso e a cereja do bolo: Zauli, o bruxinho do treinador, comprado junto ao Ravenna. O técnico também precisou administrar o ambiente depois que a agremiação foi adquirida pela companhia britânica ENIC, tornando-se a primeira de propriedade estrangeira no futebol italiano.
A verdade é que as profundas mudanças afetaram o Vicenza nos pontos corridos e o time ficou na modesta 14ª posição, uma acima da zona de rebaixamento, salvando-se na penúltima rodada da Serie A. Os berici também decepcionaram na Supercopa Italiana (levaram 3 a 0 da Juventus) e na defesa de seu título da Coppa Italia, visto que caíram na segunda fase, justamente aquela em que entraram, com derrota para o Pescara, da segundona. A campanha continental, na qual emergiu a possibilidade de um título europeu, surgiu como um oásis que aplacou o desgosto em 1997-98.
Guidolin levou os italianos até as semifinais da Recopa Uefa, eliminando Legia Varsóvia, Shakhtar Donetsk e Roda antes de encontrar o Chelsea dos italianos Roberto Di Matteo, Gianfranco Zola e Gianluca Vialli. O sonho da decisão terminou frente aos Blues, mas apenas depois de uma disputa bastante equilibrada contra a equipe inglesa: após vitória por 1 a 0 em casa, o Vicenza levou 3 a 1 em Stamford Bridge. Para o técnico, aquele desempenho consolidava definitivamente sua reputação. Já não era apenas um treinador promissor vindo das divisões inferiores, mas um profissional capaz de conduzir um clube médio e de elenco modesto a feitos históricos.
Ao final de quatro temporadas, o ciclo chegava ao fim de forma natural. Guidolin deixava Vicenza tendo conquistado um acesso, um título da Coppa Italia, uma semifinal europeia e, acima de tudo, o reconhecimento nacional como um dos treinadores mais preparados da nova geração italiana que emergia na segunda metade da década de 1990. A próxima oportunidade, ainda na região histórica do Trivêneto, refletia exatamente esse novo status: a Udinese, terceira colocada da Serie A e classificada para a Copa Uefa, buscava alguém capaz de manter o excelente nível alcançado sob o comando de Alberto Zaccheroni. A expectativa pela união entre as partes, portanto, era compreensível.
Com Zaccheroni, a Udinese praticou um futebol ofensivo que potencializava a dupla devastadora formada por Oliver Bierhoff e Márcio Amoroso – após o desfecho positivo na temporada, o treinador deixaria o Friuli rumo ao Milan, levando consigo o alemão; eles seriam campeões italianos pelos rossoneri. Guidolin pôde seguir utilizando o brasileiro, que permaneceu como principal referência técnica da equipe, dessa vez ao lado do argentino Roberto Sosa, escolhido como substituto do germânico. Eles eram auxiliados por Paolo Poggi e Martin Jørgensen, que já estavam no elenco. Mas, evidentemente, a missão de manter o nível de desempenho do antecessor era uma tarefa muito difícil.
A temporada dos friulanos terminaria com um sexto lugar numa equilibrada Serie A – para se ter noção, a equipe ficou a apenas dois pontinhos da Fiorentina, terceira e classificada à Liga dos Campeões. Além disso, a Udinese teve os mesmos 54 pontos da Juventus, sétima, e teve de disputar o chamado spareggio para assegurar uma vaga continental, na Copa Uefa, obtida graças ao gol qualificado. Naquela campanha, Amoroso foi artilheiro do certame, com 22 gols. Nos torneios de mata-mata, o desempenho dos bianconeri não foi tão bom. Ainda assim, Guidolin seguiria no comando… não fossem divergências com o presidente Giampaolo Pozzo, que em julho de 1999 encerraram precocemente a primeira passagem do técnico pelo clube.
Depois do sucesso no Vicenza e de curta passagem pela Udinese, Guidolin teve experiência longa no Bologna (Allsport)
Poucos meses depois, uma nova oportunidade apareceu. No fim de outubro de 1999, Guidolin assumiu o Bologna, substituindo Sergio Buso durante a temporada. Também ali encontraria um cenário semelhante ao vivido na Udinese: herdava um trabalho que vinha de campanhas bastante expressivas. Na temporada anterior, sob as ordens de Carlo Mazzone, o time emiliano alcançara as semifinais tanto da Coppa Italia quanto da Copa Uefa, impulsionado principalmente pelo talento de Giuseppe Signori, um dos grandes atacantes italianos da década de 1990. Manter aquele patamar seria novamente um enorme desafio.
O impacto inicial foi discreto. Embalado ainda pelo artilheiro Signori, e também pela experiência de Gianluca Pagliuca – que substituiu Francesco Antonioli no gol –, o Bologna terminou a Serie A apenas na 12ª colocação e caiu cedo nas competições eliminatórias. Ainda assim, Guidolin recebeu respaldo da gestão de Giuseppe Gazzoni Frascara para iniciar um trabalho com sua marca, já que pegara o bonde andando em 1999-2000. Essa confiança permitiu que sua passagem se transformasse em uma das mais longas de sua carreira.
Na temporada seguinte, 2000-01, o Bologna continuou a contar com o aporte de seus principais nomes, apresentou uma evolução moderada e terminou novamente distante das primeiras posições, desta vez em décimo lugar – a campanha na Coppa Italia também não produziu grandes destaques. O contexto, contudo, precisava ser considerado. Aquele time já atravessava um processo natural de renovação do elenco e possuía limitações financeiras que dificultavam competir em igualdade com as principais forças da Serie A. Guidolin trabalhava, portanto, com uma constante em sua trajetória: a necessidade de adaptar objetivos à realidade do clube, buscando estabilidade antes de voos mais ambiciosos.
Essa consistência apareceu de forma mais clara em 2001-02. Liderado por Signori e já contando também com o argentino Julio Cruz no setor ofensivo, além de Zauli, solicitado pelo treinador, o Bologna alcançou a sétima colocação na Serie A, seu melhor desempenho sob o comando de Guidolin. A campanha garantiu vaga na Copa Intertoto, torneio que oferecia aos vencedores um lugar na Copa Uefa e representava uma oportunidade importante para equipes de menor orçamento, que dificilmente alcançariam classificação direta pelo campeonato nacional. Voltar a disputar uma competição continental já podia ser considerado um resultado bastante satisfatório – e o treinador conseguia levar o terceiro time diferente para um torneio europeu em sua trajetória.
Na temporada seguinte, a classificação para a Copa Uefa escapou por pouco: o Bologna alcançou a final de uma das chaves da Copa Intertoto, mas acabou derrotado pelo Fulham. Na Coppa Italia, a caminhada terminou nas oitavas de final. Já na Serie A, os felsinei voltaram a ficar apenas no meio da tabela, com a 11ª posição. O trabalho permanecia competitivo, mas parecia ter atingido seu teto por questões tão naturais quanto a luz do dia: o investimento não permitia ir muito além. Guidolin extraía praticamente tudo o que aquele elenco podia oferecer, sem conseguir romper a barreira que separava os times médios das equipes que disputavam regularmente vagas nas principais competições europeias.
O encerramento da passagem acabou sendo tão inesperado quanto controverso. Às vésperas do início da temporada 2003-04, faltando apenas quatro dias para o campeonato começar, Guidolin pediu demissão do cargo. A decisão surpreendeu o ambiente do Bologna e colocou fim a um ciclo de quase quatro anos que, embora não tenha produzido títulos, ratificou sua imagem como um treinador confiável, capaz de manter equipes competitivas por longos períodos e de trabalhar com estabilidade mesmo sem dispor dos recursos das grandes potências.
Após alguns meses longe dos gramados, aceitou um desafio que muitos treinadores de seu currículo talvez recusassem. Em janeiro de 2004, topou voltar para a Serie B e assumiu o Palermo, substituindo Silvio Baldini durante a competição. Não houve qualquer sinal de vaidade em sua escolha. Mesmo depois de anos consecutivos treinando na elite italiana, Guidolin preferiu apostar em um projeto esportivo consistente a esperar indefinidamente por uma proposta de um grande clube. Não era a primeira vez. Também não seria a última.
Em suas idas e vindas no Palermo, o treinador desenvolveu atletas, foi campeão da Serie B e conquistou vagas em torneios europeus (AFP/Getty)
A decisão rapidamente mostrou-se acertada. O Palermo cresceu de rendimento na reta final da temporada e conquistou o acesso à Serie A, encerrando uma ausência de mais de três décadas na competição. Começando com a promoção, o trabalho do treinador vêneto marcaria o início de uma das fases mais importantes da história do clube siciliano. Guidolin montou uma equipe intensa, organizada e capaz de acelerar o desenvolvimento de diversos jogadores que, pouco tempo depois, alcançariam enorme projeção internacional. Entre os destaques daquele time, tínhamos o seu bruxinho Zauli, que vestia a 10, os irmãos gêmeos Antonio e Emanuele Filippini, o brasileiro Jeda, os meio-campistas Massimo Mutarelli e Eugenio Corini, o jovem ponta Simone Pepe, o lateral Fabio Grosso e o artilheiro Luca Toni, que fez 30 gols na segundona.
Na temporada de retorno à Serie A, o Palermo confirmou que o acesso não havia sido episódico. A equipe terminou o campeonato na sexta colocação, classificando-se para a Copa Uefa de forma inédita e consolidando-se entre as grandes surpresas do futebol italiano – foi o quarto time diferente que o técnico levou a uma competição continental, feito raríssimo, que ele obteve sem passar por qualquer gigante nacional. Mais importante do que a posição final foi a maneira como Guidolin conseguiu potencializar um elenco que reunia atletas ainda em fase de afirmação. Sob seu comando, jogadores como Toni e Grosso, além dos reforços Andrea Barzagli, Cristian Zaccardo e Simone Barone, deram passos decisivos na evolução de suas carreiras. Pouco mais de um ano depois, todos eles integrariam o grupo campeão da Copa do Mundo de 2006 pela seleção italiana.
Mais uma vez, o técnico mostrava sua enorme capacidade de desenvolver atletas e fazê-los render acima do patamar que haviam demonstrado anteriormente. Ele era um potencializador poucas vezes visto na Bota e essa valorização de jogadores pode ser reconhecida como uma marca registrada de seus trabalhos. Muito antes de ser lembrado por questões táticas, Guidolin se destacou como um profissional de olhar particularmente apurado para identificar talento e transformar azarões em competidores relevantes por conta da evolução individual das peças à disposição – que, naturalmente, serviam a um forte coletivo. Tal característica explicaria o prestígio conquistado pelo vêneto.
Esse reconhecimento, porém, jamais rendeu o salto para um clube grande da Itália. Guidolin chegou a ser sondado pela Inter e até a negociar com a Lazio nos tempos do presidente Sergio Cragnotti, mas não tinha empresário – e perdia espaço para os concorrentes representados por procuradores influentes. Isso ficou evidente quando, após decidir deixar o cargo no Palermo com a missão cumprida, em 2005, acabou trocando um chefe explosivo por outro, encarando outro desafio. Ele se livrou do presidente Maurizio Zamparini e assinou contrato com Enrico Preziosi, do Genoa.
O time da Ligúria tinha status de recém-promovido à Serie A. No papel, tratava-se de um projeto extremamente interessante. O clube mais antigo do futebol italiano retornava à primeira divisão após uma década na segundona e buscava um treinador capaz de consolidar sua permanência entre os grandes. Guidolin chegou a ser anunciado oficialmente em junho, mas sequer teve tempo de tocar o trabalho. Pouco depois, veio à tona o escândalo envolvendo a partida decisiva do acesso contra o Venezia. As investigações comprovaram um esquema de manipulação de resultados, culminando no rebaixamento administrativo do Genoa para a Serie C1 e na rescisão do contrato do treinador, em agosto. Era uma situação completamente alheia ao seu trabalho, mas que interrompia um projeto antes mesmo de seu primeiro treinamento.
Sem espaço para permanecer, Guidolin aceitou, poucas semanas depois, aquele que seria seu primeiro desafio fora da Itália: o Monaco. Seria, aliás, o maior clube que treinaria na carreira – o único no qual realmente tinha como objetivo buscar títulos de primeiro escalão. O vêneto tomava o lugar de Didier Deschamps, que se demitiu após um péssimo início de temporada. A experiência no Principado representava uma oportunidade rara para um treinador cuja trajetória sempre estivera ligada a realidades muito menos luxuosas e, sem dúvidas, extremamente mais modestas. O contexto, entretanto, estava longe de ser simples. O time monegasco carregava o prestígio de ter sido vice-campeão da Champions League apenas duas temporadas antes, em 2004, e vinha de campanhas consecutivas entre os primeiros colocados da Ligue 1. As expectativas, portanto, eram naturalmente elevadas.
Na prática, porém, a equipe já não possuía a mesma força daquele ciclo. Guidolin encontrou um elenco em transformação e não conseguiu repetir o bom desempenho anterior do time monegasco, também já comprometido após o complicado início de 2005-06. Mesmo com nomes como Maicon, Diego Pérez e Javier Chevantón, além dos italianos Marco Di Vaio e Christian Vieri, adquiridos no inverno europeu, o Monaco sentiu as saídas de Patrice Evra e Emmanuel Adebayor: terminou apenas na décima colocação do campeonato nacional, caiu cedo na Copa da França e também não foi além das oitavas de final da Copa Uefa. A última esperança era a Copa da Liga Francesa, mas ela se esvaiu nas semifinais, com a queda para o rival nice no dérbi da Côte d’Azur.
Hábito curioso: Guidolin costumava se ajoelhar para ver trechos de partidas dos times que comandava (Getty)
A sequência de insucessos levou ao fim do trabalho de Guidolin e o levou de volta à Sicília. O retorno ao Palermo, em maio de 2006, recolocou o técnico em um cenário que conhecia profundamente. Mas o elenco já era diferente daquele que deixara um ano antes e não contava com Toni, Grosso e Barone, por exemplo, já negociados. Mas, em contrapartida, o time havia crescido, disputava competições europeias e tinha um plantel mais qualificado – reforçado por Amauri e Fábio Simplício, entre outros nomes. Ao mesmo tempo, o vêneto passou a lidar mais intensamente com um fator que marcaria boa parte de sua história naquele período: a imprevisibilidade do presidente Zamparini, conhecido em toda a Itália pela facilidade com que demitia treinadores.
Apesar desse ambiente instável, o início da temporada foi bastante positivo. O Palermo se afirmou entre os primeiros colocados da Serie A durante boa parte do primeiro turno, chegando a dividir a liderança com a Inter. Dava sinais de que poderia repetir, ou até superar, a campanha dos anos anteriores. Um dos fatores decisivos para essa boa fase era o excelente momento vivido por Amauri, principal referência ofensiva da equipe.
A história começou a mudar quando o atacante brasileiro sofreu uma grave lesão. Sem sua principal peça ofensiva, o Palermo perdeu força rapidamente. O rendimento caiu de maneira acentuada tanto no campeonato quanto na Copa Uefa, na qual a equipe foi eliminada ainda na fase de grupos, e na Coppa Italia, com desqualificação nas oitavas. Uma amostra da queda livre pode ser aferida se compararmos a pontuação dos sicilianos com a da Inter: na 11ª rodada, ambos tinham 27 pontos; na 31ª, os nerazzurri alcançavam 80 e os rosanero, 48. Foi naquela jornada que o time de Guidolin deixou a zona de classificação à Champions League.
Em abril de 2007, diante da sequência negativa de resultados, culminada com uma derrota por 4 a 3 para o Parma em casa, pela 33ª rodada, Zamparini decidiu demitir Guidolin. Como aconteceria diversas vezes ao longo de sua gestão, porém, a decisão não seria definitiva. Renzo Gobbo e Rosario Pergolizzi, que dividiram a interinidade, não conseguiram reorganizar a equipe e, apenas três semanas depois, o treinador vêneto foi chamado para reassumir o comando. De volta ao banco de reservas, venceu os dois últimos compromissos da Serie A e conduziu o Palermo ao quinto lugar, assegurando outra classificação à Copa Uefa. Após cumprir a missão, voltou a deixar o clube depois do encerramento da temporada, sendo substituído por Stefano Colantuono.
A relação entre Guidolin e Zamparini nunca encontrou um ponto de equilíbrio. Bastaram poucos meses para que, na temporada seguinte, Colantuono perdesse o cargo e, pela quarta vez, o presidente recorresse ao treinador vêneto para tentar reorganizar a equipe. O próprio Guidolin encarou a situação com o bom humor característico de quem já conhecia perfeitamente o dirigente. Em sua apresentação, no fim de novembro de 2007, ironizou a fama do mandatário ao afirmar que Zamparini era “o melhor presidente do mundo… de terça até domingo”, numa referência às costumeiras declarações explosivas e atitudes intempestivas do dirigente nas segundas, logo após os jogos.
A nova passagem do técnico repetiu o padrão de instabilidade que já cercava o Palermo. O time jamais conseguiu entrar de forma consistente na disputa por vagas europeias, alternou boas atuações com resultados decepcionantes e, em março de 2008, Guidolin acabou novamente demitido – abrindo espaço para o retorno de Colantuono, que levou os rosanero a um modesto 11º lugar na Serie A. Dessa vez, a separação foi definitiva.
Em setembro de 2008, Guidolin mostrou mais uma vez que tinha pouca preocupação com o prestígio pessoal ao aceitar outro desafio que muitos técnicos com currículo similar talvez evitassem: encarou um trabalho no Parma, que atravessava um dos momentos mais delicados de sua história. Depois de mais de uma década figurando entre os protagonistas do futebol italiano e conquistando títulos nacionais e europeus, o clube havia flertado com a falência e sido rebaixado à Serie B pela primeira vez desde o início dos anos 1990. Pior do que isso, a temporada já estava em andamento quando ele assumiu o comando, substituindo Luigi Cagni. Não encontrava, portanto, um projeto que podia construir desde o início, mas uma equipe pressionada pela obrigação imediata de retornar à elite. E, pela terceira vez que topou voltar uma casa e treinar na segundona, o vêneto alcançou o objetivo de imediato.
Já consolidado como técnico, o vêneto topou tirar o Parma da Serie B e ainda o conduziu em campanha brilhante na primeira divisão (Getty)
Guidolin assumiu o Parma na sétima rodada e o time reagiu rapidamente sob seu comando. Liderados pelos irmãos Cristiano e Alessandro Lucarelli, os crociati recuperaram consistência ao longo do campeonato e terminaram a Serie B na segunda posição, garantindo o retorno à primeira divisão. Se a promoção já representava um excelente resultado, a temporada seguinte elevaria ainda mais o valor daquele trabalho.
Diferentemente de muitas equipes recém-promovidas, que entram na Serie A apenas para lutar contra o descenso, o Parma rapidamente mostrou um rendimento muito superior ao esperado. Reforçada com alguns bons nomes, entre os quais Christian Panucci, Zaccardo – que voltava a trabalhar com o treinador após fazê-lo no Bologna e no Palermo –, Valeri Bojinov e Jonathan Biabiany, a equipe de Guidolin era organizada taticamente, sólida sem a bola e extremamente eficiente em suas transições. A formação emiliana chegou a ocupar temporariamente posições que lhe dariam vaga em competições europeias e encerrou o campeonato na oitava colocação, obtendo sua maior pontuação em um certame disputado por vinte times. Outra vez, o técnico era capaz de fazer seus atletas renderem mais do que o esperado.
Naquele período, um dos traços mais característicos de seu trabalho começava a ficar ainda mais evidente. O treinador passou a utilizar com enorme frequência um 3-5-2 extremamente flexível, sistema que lhe permitia proteger melhor a defesa sem abrir mão da participação ofensiva dos alas e dos meio-campistas. Mais importante do que a formação em si era a maneira como Guidolin sempre adaptava o desenho tático às características dos jogadores disponíveis – no Parma, por exemplo, a base era um 5-3-2. Ao longo da carreira, ele jamais se mostrou preso a um único modelo de jogo. Pelo contrário, sua reputação foi construída justamente pela capacidade de moldar o coletivo às virtudes individuais de cada elenco, e não o contrário.
Ao final da temporada 2009-10, o vêneto decidiu encerrar o ciclo na Emília-Romanha porque tinha um convite para retornar à Udinese, substituindo Pasquale Marino – um chamado que representava uma oportunidade especial. Mais de uma década depois de sua primeira passagem pelo Friuli, Guidolin encontrava uma agremiação completamente diferente daquela que deixara em 1999. Sob a gestão da família Pozzo, o clube consolidara um modelo de administração reconhecido por investir em prospecção de talentos, sobretudo em mercados menos badalados, e desenvolvimento de jogadores, mas atravessava um momento delicado dentro de campo. Depois do 15º lugar, a equipe precisava recuperar competitividade e voltar a frequentar a parte de cima da tabela da Serie A.
Seria naquela passagem que Guidolin realizaria o maior trabalho de toda a sua carreira. O início, curiosamente, esteve longe de indicar o que viria pela frente. Nas primeiras rodadas da Serie A de 2010-11, a Udinese acumulou maus resultados e chegou a ocupar a última colocação da tabela. Em vez de insistir em uma única ideia de jogo, o técnico voltou a demonstrar a flexibilidade que sempre caracterizou seu trabalho, alternando sistemas e encontrando gradualmente o equilíbrio da equipe. A recuperação foi impressionante. Jornada após jornada, os friulanos deixaram a parte inferior da classificação e passaram a disputar posições cada vez mais altas, entrando inclusive na briga pelas primeiras colocações nas semanas finais do campeonato.
A arrancada culminou em uma campanha histórica. A Udinese terminou a Serie A na quarta colocação, estabelecendo um novo recorde de pontos do clube na competição e garantindo vaga nos playoffs da Liga dos Campeões. Era um resultado extraordinário para uma equipe que havia iniciado o campeonato na lanterna e possuía recursos financeiros muito inferiores aos de Milan, Inter, Juventus ou Roma. O desempenho rendeu a Guidolin o prêmio Panchina d’Oro, concedido ao melhor treinador do Campeonato Italiano – reconhecimento que sintetizava o impacto de seu trabalho naquele ano.
A campanha impressionava também pelos números. Com 65 gols marcados, a Udinese teve um dos ataques mais produtivos da Serie A, ficando atrás apenas da Inter e igualando a marca do Milan. O grande protagonista era Antonio Di Natale, que viveu mais uma temporada extraordinária como goleador e, com 28 tentos, foi o artilheiro do certame pelo segundo ano consecutivo. Mas o sucesso ofensivo estava longe de depender exclusivamente dele. O funcionamento coletivo permitia que diferentes jogadores aparecessem em boas condições para decidir partidas, reflexo de um sistema ofensivo dinâmico e extremamente bem organizado.
Na Udinese, o técnico atingiu seu auge graças a duas classificações seguidas aos playoffs da Champions League (Getty)
Ao mesmo tempo, Guidolin começava a potencializar uma geração de atletas que se tornaria uma das mais valiosas da história da Udinese. Samir Handanovic consolidou-se como um dos principais goleiros do futebol italiano. Cristián Zapata manteve seu crescimento na defesa e Medhi Benatia floresceu, enquanto Mauricio Isla e Pablo Armero eram devastadores nas alas. Kwadwo Asamoah e Gökhan Inler formavam um setor de meio-campo intenso e versátil, sendo que o suíço era referência na construção das jogadas. Na frente, Alexis Sánchez explodia como um dos jogadores mais desequilibrantes do futebol europeu. Todos eles cresceram em um ambiente que combinava organização e liberdade para explorar suas virtudes individuais, com uma ideia de jogo suficientemente flexível para sustentar diferentes características.
O premiado trabalho do treinador, entretanto, ainda iria atingir seu ponto mais alto – contraintuitivamente. Como frequentemente acontecia com a equipe friulana, contudo, a janela de transferências significou perdas importantes para uma equipe cujos atletas despertaram interesse em toda a Europa. Sánchez foi negociado com o Barcelona, Inler seguiu para o Napoli e Zapata passou ao Villarreal, por exemplo. Com a exceção de Danilo, nenhum dos reforços adquiridos para o lugar dos jogadores cedidos encontraram espaço no onze inicial. Em muitos clubes, uma reformulação desse tamanho significaria um inevitável baque. Guidolin mostrou justamente o contrário.
Mesmo enfraquecida no papel, a Udinese voltou a disputar as primeiras posições da Serie A durante praticamente toda a temporada. A equipe encontrou novas soluções, reorganizou seu meio-campo e compensou a perda de poder ofensivo com um sistema defensivo ainda mais sólido. Se no campeonato anterior o destaque havia sido a capacidade de marcar gols, em 2011-12 apesar da fase brilhante de Di Natale, que colocou 23 bolas nas redes, o equilíbrio apareceu principalmente sem a posse da pelota. Os friulanos encerraram a competição com apenas 35 gols sofridos e a terceira melhor defesa da Serie A, demonstrando que ali havia o dedo do treinador. O prêmio foi uma campanha superior à da temporada anterior: o terceiro lugar, melhor colocação da história dos bianconeri na era dos pontos corridos e nova classificação para os playoffs da Liga dos Campeões.
A propósito, o sonho de jogar a fase de grupos da Champions League esbarrou em um adversário de enorme peso em 2011-12. Sorteada contra o Arsenal nos playoffs, a Udinese fez dois confrontos equilibrados, mas acabou eliminada pelos ingleses. Transferida para a Liga Europa, conseguiu avançar à fase de mata-mata, onde caiu diante do AZ Alkmaar nas oitavas. Em 2012-13, os friulanos veriam a história se repetir: caíram contra o Braga em uma disputa por pênaltis que ficou marcada pela cobrança desperdiçada por Maicosuel, que jogou no lixo uma classificação que parecia perfeitamente ao alcance dos italianos. Na segunda principal competição de clubes do continente, os bianconeri conseguiram um resultado que entrou para sua galeria de grandes noites internacionais ao vencerem o Liverpool em pleno Anfield, mas não avançaram ao mata-mata. Essas frustrações talvez sejam as maiores lacunas na carreira de Guidolin.
Ao longo de 2012-13, o treinador teve que conviver com a dificuldade de repetir os grandes resultados na Serie A, que levaram a Udinese aos playoffs da Champions League duas vezes seguidas. Era uma novidade que se juntava às perdas naturais do elenco (dessa vez, Handanovic para a Inter; Asamoah e Isla para a Juventus) e ao desgaste por lidar com três frentes diferentes. Ainda assim, Guidolin voltou a entregar um desempenho acima das expectativas. Potencializou Roberto Pereyra, adquirido em 2011-12 e o brasileiro Allan, contratado no verão italiano, além de entrosar Luis Muriel com Di Natale. Assim, fez a equipe terminar a Serie A na quinta colocação, com vaga na Liga Europa – e presença em torneios continentais pelo terceiro ano seguido, algo raríssimo para uma agremiação de seu porte. Poucos treinadores conseguiam manter tamanho nível de regularidade em um contexto no qual praticamente toda janela de transferências chegava junto com a saída de alguns dos principais jogadores do plantel.
A temporada 2013-14 representou o início de uma mudança nesse cenário. Depois de três campeonatos consecutivos terminando entre os cinco primeiros colocados da Serie A, a Udinese passou a sentir com maior intensidade o desgaste provocado pelas constantes reformulações do elenco. A inesperada eliminação ainda nos playoffs da Liga Europa, para o checo Slovan Liberec, reduziu o calendário internacional, mas o foco completo no cenário nacional não surtiu efeito positivo para os bianconeri.
Apesar de ter alcançado as semifinais da Coppa Italia, perdendo para a Fiorentina por um placar agregado de 3 a 2, o time encerrou o campeonato apenas na 13ª colocação. Foi seu pior desempenho sob as ordens de Guidolin, considerando as duas passagens do treinador pelo Friuli. Nem por isso, porém, o trabalho deixou de produzir aspectos positivos no que tange à valorização de jogadores. Nesta temporada, despontaram Bruno Fernandes e Piotr Zielinski, enquanto Allan, Danilo e Pereyra seguiam evoluindo – todos sairiam valorizados, atendendo ao modelo de negócio do clube.
Ao final daquela temporada, o treinador entendeu que seu ciclo havia chegado ao fim. Depois de quatro anos como figura central dos bianconeri, deixava uma Udinese completamente diferente daquela que encontrara. Seja pelos grandes resultados na Serie A e pelas classificações a torneios continentais, seja pela valorização de atletas. E aqui recordamos os que mais cresceram sob seu comando: Handanovic, Benatia, Isla, Asamoah, Sánchez, Armero, Inler, Allan, Pereyra, Muriel, Bruno Fernandes e Zielinski são apenas alguns dos nomes que evoluíram ou consolidaram sua reputação durante esse período. Não por acaso, Guidolin se tornou um dos maiores treinadores da história da equipe friulana.
A capacidade de Guidolin de valorizar jogadores rendeu milhões de euros para os cofres da Udinese (Imago)
Sua identificação com a família Pozzo tornou-se tão forte que, ao deixar o banco de reservas em 2014, não rompeu imediatamente os vínculos com a instituição. Em vez disso, assumiu uma função de supervisão técnica dos clubes pertencentes ao grupo – Udinese, Granada e Watford. Era uma espécie de reconhecimento pela competência demonstrada ao longo daqueles anos. Ainda assim, a distância do campo duraria pouco. Depois de uma temporada longe da rotina dos treinamentos, optou por deixar o cargo para voltar à beira do campo. Em janeiro de 2016, surgiu um convite. E, mais uma vez, seria para assumir uma equipe em dificuldades. Um cenário que tantas vezes servira de ponto de partida para alguns dos melhores trabalhos de sua carreira.
O Swansea City procurava um treinador capaz de evitar o rebaixamento na Premier League e, para a missão, foi buscar um técnico que estava parado e que só uma vez treinara fora da Itália – e nunca na Inglaterra. Mas a missão se encaixava perfeitamente no perfil que Guidolin construíra ao longo da carreira. Ele havia se especializado em reorganizar equipes, estabilizar ambientes conturbados (inclusive com o bonde andando) e extrair desempenho acima do esperado de elencos que, em teoria, brigariam apenas pela permanência. Aos 60 anos, aceitou o desafio de trabalhar novamente fora da Bota e se mudou para o País de Gales.
O time galês ocupava a 17ª colocação da Premier League, apenas uma posição acima da zona de rebaixamento. A situação exigia resultados imediatos e o seu impacto foi praticamente instantâneo, com vitórias sobre Watford e Everton. Houve momentos de instabilidade durante a campanha, mas o treinador conseguiu reorganizar a equipe e construir uma reta final segura. Entre os resultados mais expressivos estiveram as vitórias sobre Arsenal, Chelsea e Liverpool, além dos triunfos diante de Aston Villa e Norwich, fundamentais na luta contra o descenso. A permanência matemática foi confirmada antes mesmo da última rodada, e o Swansea terminou o campeonato na 12ª colocação, somando 47 pontos, dos quais 27 foram conquistados nas 16 partidas sob as ordens de Guidolin. A reação convenceu a diretoria de que havia ali um projeto capaz de ir além da simples luta contra o rebaixamento, rendendo ao italiano a renovação de seu contrato por mais duas temporadas.
O futebol, porém, nem sempre respeita a lógica construída nos meses anteriores. A temporada seguinte começou de maneira muito diferente. O Swansea venceu apenas uma das sete primeiras rodadas da Premier League e acumulou somente quatro pontos. Apesar do bom trabalho realizado poucos meses antes, a diretoria decidiu interromper o projeto logo no início do campeonato. Coincidentemente, a demissão foi anunciada em 3 de outubro de 2016, exatamente no dia em que Guidolin completava 61 anos. Assim terminava sua última experiência como treinador profissional.
O encerramento da carreira à beira do gramado não significou um afastamento definitivo do futebol, pois atuou como comentarista e se aproximou de um projeto de escolinha tocado por um dos filhos, em colaboração com o Giorgione. Mas, aposentado, pôde dar vazão a outra paixão que tinha desde jovem: o ciclismo, outro esporte de grande relevância para os italianos. Ao longo dos anos, participou de transmissões do Giro d’Italia na Rai e também foi presidente honorário da Italia (bandiera) Zalf Euromobil Fior, equipe de estrada baseada em sua cidade natal.
Embora jamais tenha dirigido um dos gigantes do futebol italiano, Guidolin construiu uma das carreiras mais respeitadas de sua geração. Os títulos foram poucos, mas pelo menos um deles foi muito expressivo – a histórica Coppa Italia conquistada pelo Vicenza, um clube que não tinha troféus de primeiro escalão em sua galeria. Sua trajetória foi marcada principalmente pela consistência dos resultados: classificou quatro equipes diferentes para competições europeias e, nas três vezes em que trocou a elite pela Serie B, recolocou os clubes que dirigiu na máxima categoria já na temporada seguinte.
Discreto e avesso aos holofotes, sempre vestido com seu agasalho esportivo no lugar dos ternos de grife, construiu sua reputação muito mais pelo trabalho do que pelo discurso. Se ajoelhando à beira do gramado, como era de seu feitio, e buscando liderar pelo exemplo e não pela imposição. A preparação minuciosa das partidas, a flexibilidade para adaptar seus sistemas às características dos elencos e a capacidade de potencializar jogadores permitiram que clubes de recursos limitados competissem acima de suas possibilidades. Por esses fatores, virou ídolo sobretudo em Údine, palco de algumas de suas maiores façanhas. Para equipes acostumadas a lutar apenas pela permanência ou por campanhas modestas, poucos treinadores transformaram expectativas modestas em temporadas memoráveis com tanta frequência quanto Guidolin.
Francesco Guidolin Nascimento: 3 de outubro de 1955, em Castelfranco Veneto, Itália Posição: meio-campista Clubes como jogador: Verona (1975-77, 1978-79, 1980-82 e 1983-84), Sambenedettese (1977-78), Pistoiese (1979-80), Bologna (1982-83) e Venezia (1984-86) Clubes como treinador: Giorgione (1988-89), Treviso (1989-90), Fano (1990-91), Empoli (1991-92), Ravenna (1992-93), Atalanta (1993), Vicenza (1994-98), Udinese (1998-99 e 2010-14), Bologna (1999-2003), Palermo (2004-05, 2006-07, 2007 e 2008), Genoa (2005), Monaco (2005-06), Parma (2008-10) e Swansea City (2016) Títulos como treinador: Serie C2 (1993), Coppa Italia (1997) e Serie B (2004)







































