Território MLS
·02 de fevereiro de 2026
Garrinsha, do Haiti ao Bangu: entrevista exclusiva com o destaque haitiano do Carioca

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Garrinsha brilha neste início de temporada com a camisa do Bangu no Campeonato Carioca
O Território MLS apresenta uma entrevista especial fora do tradicional eixo Estados Unidos–México, direto da Zona Norte do Rio de Janeiro. O convidado é Garrinsha, jogador haitiano de 24 anos, atualmente no Bangu, e um dos destaques do Campeonato Carioca. Em meio a uma trajetória marcada por superação, adaptação cultural e ambição esportiva, ele fala sobre sua carreira, o Haiti, a Copa e seus próximos passos no futebol.
Garrinsha conta que seu nome é uma homenagem direta ao lendário Mané Garrincha. Seu pai, ex-jogador de futebol e admirador da Seleção Brasileira, escolheu o nome inspirado no craque histórico, refletindo desde cedo a conexão da família com o futebol brasileiro.
A entrada de Garrinsha no Brasil aconteceu por meio do Pérolas Negras, projeto ligado ao Haiti e estruturado após o terremoto de 2010, com apoio da ONG Viva Rio. Inicialmente voltado às categorias de base, o clube evoluiu para o futebol profissional.
Ele participou de uma peneira em 2015 e foi aprovado, mas só se mudou definitivamente em 2019, após concluir o ensino médio — uma exigência da família antes de autorizar a viagem.
A adaptação não foi fácil. Garrinsha admite que o idioma foi o principal obstáculo no início, já que não falava português. Nos primeiros meses, dependia de outros haitianos para traduzir as instruções dentro do clube. Com o tempo, fez amizades, buscou apoio de tradutores e, gradualmente, aprendeu a se comunicar com autonomia.
Segundo ele, o futebol brasileiro se destaca pela combinação de técnica, força e velocidade, enquanto no Haiti a exigência física e a intensidade atlética pesam mais.
Apesar de ter chegado ao Brasil em outubro de 2019, a pandemia e entraves burocráticos impediram sua estreia oficial em 2020, fazendo com que passasse o ano treinando. Somente em 2021 conseguiu se regularizar e entrar em campo.
Em 2021, o Pérolas Negras conquistou a Copa Rio (terceira divisão estadual), garantindo vaga na Série D do Brasileirão em 2022. Após esse período, Garrinsha seguiu para empréstimos, aproveitando seu contrato de longo prazo para ganhar mais rodagem e visibilidade.
Fluente em francês e crioulo haitiano, com noções de inglês, Garrinsha afirma que o português foi o idioma mais difícil de aprender. Hoje, considera-se fluente, ainda que reconheça pequenos erros quando fala rapidamente.
Sobre morar no Brasil, elogia Resende, onde viveu inicialmente, e descreve o Rio de Janeiro como “maravilhoso, apesar dos perigos”. Ele também destaca a semelhança cultural entre Brasil e Haiti, apontando que ambos têm um povo alegre, caloroso e acolhedor.
Um dos momentos mais simbólicos de sua carreira foi a estreia pelo Bangu, quando marcou gol contra o Flamengo na vitória do clube. Ele define o momento como gratificante, especialmente pelo peso do adversário e da camisa rubro-negra.
Antes da partida, conversou com os pais, que pediram que jogasse com leveza, foco e seriedade. Apesar do barulho nas redes sociais após o gol, Garrinsha reforça que o objetivo principal é classificar o Bangu e levar o clube, no mínimo, até a semifinal, recolocando-o no cenário nacional.
A classificação do Haiti para a Copa é, segundo Garrinsha, um dos maiores acontecimentos recentes do país. Mesmo em meio a conflitos internos e instabilidade política, a população saiu às ruas para comemorar.
Sobre um possível confronto contra o Brasil, ele ressalta a idolatria haitiana pela Seleção Brasileira — ao lado da Argentina, uma das mais acompanhadas no país. Garrinsha acredita que o Haiti literalmente vai parar para assistir a esse jogo.
Ele assistiu ao jogo decisivo contra a Nicarágua, disputado em Curaçao, ao lado da esposa. Sua família, no entanto, está distante: ele não vê parentes há seis anos, e muitos deixaram o Haiti por causa da guerra, migrando para os Estados Unidos.
Para Garrinsha, a classificação muda a percepção internacional sobre o futebol haitiano, evidenciando sua evolução e qualidade. Embora a liga local esteja prejudicada pela guerra, há cada vez mais haitianos atuando em campeonatos maiores. Sobre a Copa nos EUA, ele aposta em uma forte torcida haitiana, impulsionada pela diáspora.
Garrinsha afirma que o sonho de defender a seleção principal do Haiti é real e que trabalha diariamente para isso. Ele acredita que boas atuações no Bangu podem abrir portas para clubes da Série B ou Série A, além de aumentar sua visibilidade internacional. Segundo ele, a federação haitiana acompanha de perto jogadores que atuam na América do Sul.
O jogador considera provável que mais haitianos cheguem ao futebol brasileiro. No entanto, destaca que a academia do Pérolas Negras no Haiti teria sido fechada devido à guerra, dificultando novos intercâmbios.
Ele também menciona que clubes brasileiros como Grêmio e Palmeiras já realizaram peneiras no Haiti. Para Garrinsha, o perfil do jogador haitiano — velocidade, intensidade e agressividade no um contra um — pode encaixar bem no futebol brasileiro, desde que acompanhado de maturidade mental para enfrentar os desafios da adaptação.
Encerrando a entrevista, Garrinsha reforça seus objetivos de carreira: fazer um grande campeonato, ajudar o Bangu a voltar ao cenário nacional, evoluir individualmente até a Série A, e, no futuro, buscar uma oportunidade na Europa.
“Preciso continuar performando, porque sei que estou sendo observado”, resume o haitiano — símbolo de talento, resiliência e da crescente conexão entre o futebol da CONCACAF e a América do Sul.








































