O Enigma do Superávit: Por que o São Paulo busca empréstimos mesmo com as contas de 2025 no azul? | OneFootball

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·22 de março de 2026

O Enigma do Superávit: Por que o São Paulo busca empréstimos mesmo com as contas de 2025 no azul?

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O Enigma do Superávit: Por que o São Paulo busca empréstimos mesmo com as contas de 2025 no azul?

Na última semana, o São Paulo Futebol Clube encaminhou ao seu Conselho Deliberativo propostas para novos empréstimos que somam R$ 74 milhões (R$ 34 milhões com o banco Daycoval e R$ 40 milhões com o Tricury). Para o torcedor que acompanhou a notícia de que o clube fechou o último exercício com um superávit de R$ 40 milhões, a pergunta é inevitável: se sobrou dinheiro, por que pedir emprestado?


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A resposta não reside em uma “mentira” contábil, mas sim na diferença fundamental entre o lucro no papel e o dinheiro disponível em caixa. Entender essa dinâmica exige mergulhar em dois conceitos do mundo contábil: o Regime de Competência e o fluxo de Caixa.

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Lucro não é Dinheiro no Caixa: O Regime de Competência

A demonstração de resultados de um clube de futebol utiliza o chamado Regime de Competência. Nele, as receitas e despesas são registradas no momento em que o negócio é fechado, independentemente de quando o dinheiro entra ou sai.

O exemplo da venda de atletas: Imagine que o São Paulo tenha vendido um jogador por R$ 100 milhões em dezembro. No balanço daquele ano, aparecerá uma receita de R$ 100 milhões, o que ajuda a gerar o superávit de R$ 40 milhões citado, por exemplo.

  1. Contabilmente: O clube está no lucro.
  2. Financeiramente: O comprador geralmente parcela esse valor em 3 ou 4 anos. Ou seja, o clube “ganhou” o direito aos R$ 100 milhões, mas só recebeu, talvez, R$ 20 milhões à vista.

O Descasamento entre Receitas e Despesas

Outro desafio crítico na gestão do São Paulo — e da maioria dos clubes brasileiros — é a sazonalidade. O fluxo de saída de dinheiro é constante, enquanto a entrada é “soluçada”.

  1. Despesas Recorrentes (O “Grosso” do Gasto): salários, encargos sociais e direitos de imagem dos jogadores não esperam. Eles precisam ser pagos rigorosamente todos os meses, de janeiro a dezembro.
  2. Receitas Concentradas: as maiores fatias do bolo financeiro costumam chegar apenas no segundo semestre. É nessa época que se definem as premiações por desempenho em campeonatos (Copa do Brasil, Libertadores, Brasileirão) e que as emissoras de TV costumam quitar os maiores montantes das cotas de transmissão.

Esse cenário cria um “buraco” de caixa nos primeiros meses do ano: o clube tem despesas altíssimas nos primeiros trimestres, mas o grande volume de dinheiro só entrará no último trimestre.


Por que buscar R$ 74 milhões agora?

O aumento do teto de crédito para R$ 270 milhões em 2026 reflete a necessidade do clube de ter fôlego para honrar seus compromissos imediatos. Os empréstimos com o Daycoval e Tricury servem como uma “ponte”:

  • Capital de Giro: O clube pega o dinheiro agora para pagar os salários e fornecedores do dia a dia.
  • Antecipação: Ele usa esses créditos sabendo que, no futuro (quando as parcelas das vendas de atletas e as premiações entrarem), terá recursos para quitar a dívida.

Ponto de Atenção: Embora o superávit de R$ 40 milhões seja um sinal de saúde contábil (indicando que as receitas totais superaram as despesas totais no ano), ele não anula a necessidade de empréstimos se o dinheiro dessas receitas ainda estiver “a caminho”.


Conclusão

O São Paulo vive hoje um paradoxo comum em grandes empresas: é contabilmente rentável, mas financeiramente dependente de crédito para gerir o tempo entre o gasto e o ganho. O desafio da diretoria é garantir que o custo desses empréstimos (juros) não consuma o superávit conquistado, transformando o alívio imediato em um peso insustentável a longo prazo.

Por: Filipe Cunha – Finanças Tricolor

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