Deus me Dibre
·26 de agosto de 2026
Quando a bola pede talento e o clássico cobra coragem

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·26 de agosto de 2026

Há empates que deixam a sensação de derrota. O 1 a 1 entre Cruzeiro e Atlético, pelas quartas de final da Copa do Brasil, tem esse gosto. Não pelo placar, que mantém a disputa completamente aberta, mas pela oportunidade que o Cruzeiro deixou escapar dentro de casa. Depois da virada sobre o Flamengo, que deveria ter servido para recuperar confiança e autoestima, a equipe voltou a apresentar o mesmo problema: um primeiro tempo sem criatividade, pouca movimentação e dependência excessiva da inspiração individual. Dessa vez, ela não apareceu.
Matheus Pereira e Gerson, novamente abaixo do que podem produzir, não conseguiram dar velocidade ao meio-campo. Sem a participação dos dois, a construção ficou previsível e o Atlético encontrou facilidade para controlar a partida. A defesa também voltou a expor uma deficiência que já não pode ser tratada como novidade: a bola aérea. O Atlético ganhou praticamente todas as disputas pelo alto e encontrou espaço demais em uma área que deveria estar protegida. Depois do que havia apresentado diante do Flamengo, era natural esperar uma postura mais intensa diante de quase 60 mil pessoas no Mineirão.
O segundo tempo começou diferente. Aos 14 minutos, Arroyo recebeu fora da área e acertou mais um daqueles chutes que justificam a entrada do torcedor no estádio. A bola saiu com a parte externa do pé, fez uma curva espetacular e foi morrer praticamente no ângulo, fora do alcance de Éverson, que ainda se esticou, mas não conseguiu evitar o golaço. Mais uma pintura do equatoriano no Mineirão, a terceira seguida, justamente quando o Cruzeiro precisava de alguém capaz de tirar o clássico do lugar-comum.
A vantagem, porém, durou apenas dez minutos. E o empate nasceu de uma jogada que o Cruzeiro poderia ter evitado. Wesley tentou sair jogando pela intermediária defensiva, perdeu a bola, recuperou e insistiu na mesma tentativa. Perdeu novamente. O Atlético aproveitou. Fagner, Fabrício Bruno e Otávio não conseguiram interromper a sequência, Renan Lodi apareceu e bateu no espaço entre o goleiro e a trave. Uma falha coletiva colocou novamente a classificação em igualdade.
O Cruzeiro já era melhor quando sofreu o empate. Tinha encontrado mais espaço, ocupava o campo ofensivo e dava sinais de que poderia ampliar a vantagem. O problema foi sentir o golpe provocado por uma falha que nasceu dentro da própria equipe. Depois disso, tentou reagir, voltou a buscar a vitória e criou algumas oportunidades, mas sem obrigar Éverson a trabalhar de maneira decisiva. O domínio que vinha construindo antes do empate perdeu força justamente quando mais precisava de personalidade para ser retomado.
Foi nesse contexto que veio a declaração de Renan Lodi. O jogador reconheceu a qualidade técnica do Cruzeiro, mas afirmou que ao time faltava garra e espírito. Uma provocação perfeita para quem terá de reencontrar o Atlético na próxima terça-feira. Que o Cruzeiro guarde a frase, transforme o incômodo em combustível e responda onde realmente interessa: dentro de campo. Porque, na Arena MRV, haverá 90 minutos para mostrar que aquela leitura não define o scratch celeste.
A partida também terminou marcada por duas cenas que ultrapassaram a rivalidade. Ruan Tressoldi precisou deixar o estádio de ambulância depois de uma disputa com Kaio Jorge e foi encaminhado para atendimento médico. No fim, Bruno Rodrigues também saiu de ambulância após um choque com Éverson.
Depois vieram as manifestações dos dirigentes. Paulo Bracks, do Atlético, classificou Kaio Jorge como maldoso pelo lance com Ruan. O Cruzeiro reagiu por meio de Bruno Spindel, que acusou o rival de tentar criar um ambiente para influenciar a CBF antes do segundo confronto. Mais um capítulo de um clássico que, depois do apito final, ganhou desdobramentos fora das quatro linhas.
Mas tudo isso precisa ficar para trás. Na Arena MRV, não haverá espaço para justificativas, declarações ou lembranças do que poderia ter sido feito no Mineirão. O Cruzeiro terá de jogar. Terá de competir. Terá de mostrar a intensidade que sua torcida esperava ver desde o primeiro minuto do clássico.
Porque a caminhada pelo hepta não será feita apenas de golaços, talento e jogadores capazes de decidir uma partida. Será construída na disposição para disputar cada bola, na concentração, na coragem e na capacidade de suportar a pressão de um mata-mata. O Cruzeiro ainda está vivo na Copa do Brasil. E agora precisa provar à própria torcida, dentro de campo, do que realmente é capaz quando a camisa pesa, o adversário aperta e a classificação está em jogo.
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