Ricaço de outrora, o Anzhi encerra as atividades profissionais ao não conseguir se licenciar para a terceirona russa | OneFootball

Ricaço de outrora, o Anzhi encerra as atividades profissionais ao não conseguir se licenciar para a terceirona russa

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O Anzhi Makhachkala despontou no futebol europeu sob a promessa de se tornar um representante de peso da Rússia nas competições internacionais. Os auriverdes fizeram barulho com Samuel Eto’o e Roberto Carlos, enquanto ainda investiam pesado em jovens como William. A equipe nunca disputou a Champions League, mas alcançou os mata-matas da Liga Europa duas vezes e fez bons papéis no Campeonato Russo. Porém, o que era um projeto político do Daguestão, patrocinado pelo bilionário Suleyman Kerimov, logo foi abandonado e a ruína não demorou a acontecer. Nas últimas temporadas, o Anzhi era apenas um figurante na terceirona local. E a desgraça se tornou maior nesta sexta, quando os atuais proprietários confirmaram que a agremiação não cumpriu os requisitos para validar sua licença na liga. Com isso, cessará suas atividades profissionais e deve fechar as portas por tempo indeterminado.

O Anzhi surgiu em 1991, no contexto de dissolução da União Soviética. Era uma equipe que iniciava sua trajetória na terceira divisão do Campeonato Russo e permaneceu por lá até 1996, quando alcançou a segundona. O fato de despontar como o principal representante da República do Daguestão, região multiétnica dentro da Rússia e com violentos movimentos separatistas ligados a fundamentalistas islâmicos, deixava os auriverdes ainda mais em evidência. O acesso inédito para a primeira divisão ocorreu em 1999 e o Anzhi permaneceu por lá durante três temporadas. Chegou a alcançar a quarta colocação, o que rendeu a estreia na Copa da Uefa, e também o vice-campeonato na Copa da Rússia. Todavia, o rebaixamento em 2002 iniciou um longo período na segundona.

Em 2009, o Anzhi reconquistou o acesso para a primeira divisão. Fez uma campanha suficiente pela manutenção em 2010, até que a história do clube mudasse em janeiro de 2011. Presidente do Daguestão, Magomedsalam Magomedov cedeu o controle da agremiação a Suleyman Kerimov. Acionista de grandes bancos nacionais e com forte trânsito na política local (inclusive com o presidente Vladimir Putin), o bilionário teria o seu brinquedinho e poderia transformar o time em uma bandeira internacional de sua região. Até por isso os investimentos foram massivos e não demoraram a acontecer.

Roberto Carlos chegou do Corinthians em fevereiro de 2011 e era o reforço mais renomado desse início de revolução no Anzhi. Os brasileiros, aliás, eram bastante requisitados. Diego Tardelli, Jucilei e João Carlos foram outros reforços dessa primeira janela, além do marroquino Moubarak Boussoufa. Já no meio da temporada, Samuel Eto’o desembarcou da Internazionale por €27 milhões, com um salário estimado na casa dos €20 milhões – o maior do mundo naquele momento. Yuri Zhirkov seria uma estrela local, enquanto Balász Dzsudzsák e Chris Samba eram outros novatos respeitados. Em cerca de um ano, os gastos com reforços chegaram a €120 milhões. Os rumores ainda apontavam para nomes como Cristiano Ronaldo e Robin van Persie.

Por conta da transição no calendário do Campeonato Russo em 2011/12, aquela edição da liga se desenrolaria de março de 2011 a maio de 2012. O Anzhi ainda ganhou o comando de Guus Hiddink, herói na Rússia após a Euro 2008, na metade final da campanha. A equipe cresceria neste momento decisivo, a ponto de terminar na quinta colocação. Não era o resultado esperado para o nível de investimento, mas já valeu uma vaga na Liga Europa. Assim, em 2012/13, os auriverdes buscaram mais reforços, com as compras de Willian, Lassana Diarra e Lacina Traoré – enquanto Roberto Carlos se aposentava para virar dirigente. A equipe terminou o Campeonato Russo em terceiro, chegando a liderar na virada dos turnos, e perdeu a final da Copa da Rússia para o CSKA Moscou. Já na Liga Europa, depois de superar Vitesse e AZ nas preliminares, o Anzhi venceu o Liverpool na fase de grupos e só parou diante do Newcastle nas oitavas de final, após deixar o Hannover 96 pelo caminho nos 16-avos.

O impacto esportivo, contudo, não gerava uma situação cômoda para o Anzhi. O clube vivia seu dia a dia em Moscou, onde os jogadores moravam e treinavam – usando o CT do falido Saturn. Por lá, a equipe era alvo de xenofobia por ser “caucasiana, e não russa”. As viagens para Makhachkala só aconteciam nos jogos pelos torneios domésticos. Nem na Liga Europa o time atuava no Daguestão, por preocupações com a violência dos separatistas e de insurgentes islâmicos. Por mais que existisse a promessa de investir em estrutura, a realidade era outra. E não demorou para que Kerimov pulasse do barco. Em agosto de 2013, o oligarca anunciou um corte de gastos na casa de dois terços do orçamento e faria uma rapa no elenco. A justificativa era de que “estava adoecendo por conta da falta de resultados”, ao passar mal depois de uma derrota para o Rostov.

Aquela seria uma janela de transferências marcada pela debandada. Aleksandr Kokorin e Igor Denisov, que tinham acabado de chegar, saíram para o Dínamo Moscou com parcas aparições, ao lado de Samba e Zhirkov. Lassana Diarra e Boussoufa seguiram rumo ao Lokomotiv Moscou. Willian foi quem rendeu mais dinheiro, vendido ao Chelsea, enquanto Eto’o seguiu de graça para Stamford Bridge. O próprio Guus Hiddink não ficaria para o Campeonato Russo de 2013/14. O cenário era de terra arrasada, assumido por Gadzhi Gadzhiyev, treinador que tinha como grande feito dirigir o Anzhi na primeira passagem pela elite.

Como era de se esperar, o resultado do desmanche foi catastrófico para o Anzhi. Os auriverdes venceram apenas três partidas em 30 rodadas do Campeonato Russo 2013/14, assumindo a lanterna no primeiro turno e naturalmente terminando rebaixados. O time também caiu na primeira fase da Copa da Rússia. O grupo acessível na Liga Europa, ao menos, garantiu a classificação com a segunda colocação – graças a duas vitórias sobre o Tromso e dois empates com o Sheriff Tiraspol. Os russos ainda eliminaram o Genk, até a queda diante do AZ nas oitavas. Nomes como Jucilei e Lacina Traoré, vendidos na janela de inverno, sequer ficaram para os mata-matas continentais.

Samuel Eto’o, nos tempos de Anzhi (Mike Kireev/Epsilon/Getty Images/One Football)

O Anzhi conseguiu o acesso imediato em 2014/15, mas virou um time da metade inferior da tabela na volta à primeira divisão. Os reforços sequer atingiam a cifra do milhão. Em dezembro de 2016, enfim, Suleyman Kerimov saiu de cena e vendeu o clube despedaçado para Osman Kadiyev. Seriam cinco temporadas consecutivas na elite neste retorno, até o novo rebaixamento se consumar em 2018/19. Por conta dos problemas financeiros, o time não conseguiu a licença para a segundona e caiu direto para a terceira divisão. Então, a mediocridade tomou conta de vez.

O Anzhi ocupava o 15° lugar em 2019/20, mas se safou da queda com o fim antecipado da temporada por causa da pandemia. Depois, seria o sexto em 2020/21, passando longe do acesso. E terminou em nono em 2021/22, com direito a punição de seis pontos pelas dívidas acumuladas. O problema então seria garantir os requisitos mínimos para manter sua licença na terceira divisão de 2022/23, ainda mais num contexto de crise e guerra na Rússia. Sem apoio financeiro, o Anzhi teve sua presença na próxima terceirona recusada pela organização da liga e, assim, perdeu o status profissional. Poderia continuar suas atividades nos níveis amadores do país, mas o comunicado oficial indica o fim das atividades.

“O Anzhi fez todos os esforços possíveis para garantir o licenciamento e esperava um resultado positivo. A administração entende a recusa e avalia as condições financeiras do clube. Todos os esforços foram feitos para pagar as dívidas. Infelizmente, sem o apoio de patrocinadores e parceiros, isso não foi suficiente. O Anzhi agradece a todos que contribuíram para a história do clube. Obrigado a todos que acompanharam seu amado time ao longo dos anos e acreditaram fielmente no melhor. Gostaríamos de agradecer a todos os jogadores, treinadores e funcionários que representaram as cores do Anzhi com honra e dignidade, nos campos da Rússia e da Europa. Lembrem-se: enquanto o nome do Anzhi permanecer no coração dos torcedores, o clube viverá. Acreditamos que esse não é o fim e, um dia, o Anzhi retornará. Um dia essa estrela acenderá novamente e brilhará ainda mais”, diz o melancólico comunicado divulgado nesta sexta.

Emblematicamente, a terceira divisão russa de 2021/22 teve o acesso do Dynamo Makhachkala. Fundado em 1926, o clube chegou a disputar a segundona do Campeonato Soviético, mas teve problemas para se restabelecer nas últimas décadas e se manteve apenas em níveis amadores. A ascensão recente, a partir de 2021, contou com o apoio de Sergey Melikov – atual chefe de estado do Daguestão. Mais uma vez a política entrou em cena, e o ostracismo do Anzhi parece óbvio enquanto as atenções da região se voltam a outro time.

Diante de toda a artificialidade do Anzhi, o renascimento se torna mais difícil – a não ser que as forças políticas mudem de novo e alguém deseje recuperar os auriverdes. Aquele passado endinheirado, hoje em dia, mais soa como um devaneio. Ver craques do nível de Eto’o e Roberto Carlos no Daguestão só foi possível com um projeto sem qualquer base esportiva – que, logicamente, naufragou em pouquíssimo tempo, quando o dono ricaço desistiu da brincadeira.

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