Tragédia de 1979, injustiça de 2005 e Mundial 2026: o «processo interligado» do Uzbequistão | OneFootball

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·23 de junho de 2026

Tragédia de 1979, injustiça de 2005 e Mundial 2026: o «processo interligado» do Uzbequistão

Imagem do artigo:Tragédia de 1979, injustiça de 2005 e Mundial 2026: o «processo interligado» do Uzbequistão

Uzbequistão é o próximo adversário de Portugal no Campeonato do Mundo. Uma nação de grande dimensão regional, onde mais de 37 milhões de habitantes estão a torcer pelo seu país num Mundial pela primeira vez.

A estreia não foi a mais feliz, uma vez que a equipa asiática não foi além de uma derrota diante da Colômbia por 1-3. Ainda assim, e apesar do expectável desaire, a formação de Fabio Cannavaro fez pela vida e chegou a discutir o resultado - aos 65', o marcador anotava uma igualdade a um.


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O caminho trilhado até este momento não foi nada fácil - bem pelo contrário. Afinal de contas, é impossível esquecer o acidente que dizimou a principal equipa do país em 1979 e as duas tentativas de qualificação que 'bateram na trave' e que deixaram um amargo na boca.

A poucas horas do embate com a seleção nacional portuguesa, o zerozero mergulhou nos arquivos históricos do futebol internacional com o intuito de lhe contar os pontos chave desta história de superação.

«Senti orgulho dos jogadores, da comissão técnica e de todo o país»

O arranque desta corrida rumo a algo inédito aconteceu no dia 16 de novembro de 2023. Nessa altura, o Uzbequistão abriu a qualificação para o Mundial com um triunfo por 1-3 no Turquemenistão.

Essa vitória deu o mote para um excelente apuramento na AFC. No final, a equipa uzbeque garantiu o segundo lugar do grupo A com 21 pontos em dez jornadas - menos dois que o líder Irão.

O processo até foi iniciado com Srecko Katanec ao comando técnico. No entanto, em janeiro de 2025, o selecionador esloveno deixou o cargo por razões médicas. Daí em diante, Timur Kapadze assumiu as rédeas e continuou o trabalho do antigo treinador.

Acabou por ser uma aposta certeira da Federação de Futebol do Uzbequistão, que confiou na continuidade do projeto. Kapadze, que estava ao serviço dos escalões mais jovens dos uzbeques, manteve a confiança na formação - um especialista nesse capítulo, tendo no currículo uma qualificação para os Jogos Olímpicos 2024.

Em entrevista ao portal El.kz, o timoneiro de 44 anos, conhecido por ser um crítico aberto do conservadorismo no futebol e por rejeitar a ideia de que os jovens têm de esperar muitos anos para ter uma oportunidade na equipa principal, abordou esta simbiose e o momento de grande celebração.

«Eu não separaria essas coisas. É um processo interligado. O desenvolvimento do futebol no país cria as condições e o desenvolvimento dos treinadores permite-nos aproveitar essas condições. Se eu tivesse de destacar um fator-chave, diria que é a confiança no desempenho a longo prazo e a consistência na tomada de decisões», afirmou, indo mais longe:

«Este é o resultado de vários processos. O trabalho com os jogadores jovens melhorou e a atitude dos jogadores em relação ao profissionalismo e às exigências do futebol moderno mudou.»

Isto tudo permitiu que alguns desses jogadores já começassem a aparecer no futebol europeu e em emblemas de grande pedigree. O maior caso é mesmo o de Abdukodir Khusanov, que se tornou no rosto desta nova geração e que chegou ao Manchester City.

No final de tudo, o técnico acabou por dar o lugar a Fabio Cannavaro, que sabe o que é vencer um Campeonato do Mundo, mas apenas enquanto jogador. Apesar disso, o nome de Timur Kapadze já está imortalizado.

«Foi um momento muito emocionante, mas as emoções eram calmas e ponderadas, não turbulentas. Senti orgulho dos jogadores, da comissão técnica, de todo o país. Em momentos como este, tu percebes que todo o trabalho que fizemos - as noites em branco, a pressão, a responsabilidade - não foi em vão», recordou.

2006 e 2014 de má memória...

Como diz o tradicional ditado popular: à terceira é de vez! Contudo, antes disso, foi preciso sofrer e passar por um par de casos algo surreais.

Em 2005, no apuramento para o Campeonato do Mundo 2006 disputado na Alemanha - o tal conquistado por Cannavaro com a Itália -, o Uzbequistão mediu forças com o Barém, num jogo a contar para o playoff. Na partida da primeira mão, a seleção uzbeque tinha vencido por 1-0.

O médio Server Djeparov ainda ampliou a vantagem através da marca de grande penalidade, mas um colega invadiu a área antes da hora do remate. O árbitro japonês Toshimitsu Yoshida optou por reverter a decisão, anulando o tento e assinalando um livre para os visitantes - algo contrário ao regulamento, que apontava para a repetição do penálti.

Os jogadores uzbeques protestaram; porém, sem quaisquer efeitos práticos. Mais tarde, a FIFA concluiu que o juiz errou e que isso alterou o rumo do encontro por completo. Por isso mesmo, o organismo entendeu que esse erro afetou o resultado final e decidiu anulá-lo na totalidade, o que obrigou à repetição do jogo.

Mais tarde, as duas formações empataram por duas vezes (1-1 e 0-0). O Barém acabou beneficiado pela regra dos golos fora e avançou para o playoff intercontinental, onde perdeu frente a Trindade e Tobago. No final, o sentimento vivido foi o de um possível 2-0 na primeira mão para uma eliminação com sabor a injustiça.

Já em 2013, a história não é assim tão dramática. O Uzbequistão esteve muito perto de conseguir a presença no Mundial 2014, realizado no Brasil, mas terminou empatado em pontos com a seleção da República da Coreia na última fase asiática, tendo perdido a vaga direta por diferença de golos.

Voltou a disputar o playoff, desta vez diante da Jordânia. A emoção ficou guardada para as grandes penalidades após duas igualdades a uma bola. Aí, e após uma série de dez remates para cada lado, os uzbeques voltaram a cair (8-9 g.p.) - é seguro afirmar que a relação com a marca dos 11 metros não é a melhor...

A dura tragédia de 1979

O Uzbequistão era uma das 15 repúblicas que compunham a antiga União Soviética. De 1924 a 1991, o país existiu oficialmente como a República Socialista Soviética do Uzbequistão, com a capital localizada em Tashkent.

Em 1979, o Pakhtakor era o principal representante do país na Primeira Divisão Soviética, que era dominada por clubes de Moscovo, Kiev, Minsk e Tbilisi. No fatídico dia 11 de agosto desse ano, enquanto viajavam para o embate frente ao Dinamo Minsk, da República Soviética da Bielorrússia, 17 membros da equipa faleceram num trágico acidente aéreo.

O facto de dois aviões do mesmo modelo terem feito a mesma rota ao mesmo tempo levou a este desastre. Ao todo, 178 passageiros faleceram após a colisão no ar das duas avionetas. Após uma investigação, chegou-se à conclusão que houve uma sequência de falhas de comunicação e de controlo de tráfego.

Desta forma, o emblema perdeu a sua espinha dorsal - entre os falecidos estava Mikhail An, um médio apontado pelos especialistas da altura como um dos jogadores mais talentosos já produzidos na Ásia Central.

Em resposta, a Federação Soviética propôs-se a ajudar e todos os outros emblemas cederam alguns jogadores à equipa uzbeque. Para além disso, e durante um período de tempo, o Pakhtakor não pode ser despromovido.

Posteriormente, em 1991, o Uzbequistão tornou-se independente, mas este incidente nunca foi esquecido. Foram várias as homenagens ao longo dos anos, que se viveram com muita emoção. O próprio clube também se reergueu, sendo atualmente a principal potência da nação e uma das bases da seleção uzbeque.

Esta tragédia, que culminou na perda de uma das gerações mais talentosas da nação, é citada como um dos motivos para que o Uzbequistão demorasse tanto tempo a disputar um Mundial. Contudo, a espera terminou e, nesta terça-feira, às 18h, há duelo frente a Portugal!

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