Zerozero
·15 de janeiro de 2026
Tudo mudou num restaurante: antes de ser herói no Fafe, Mário Ferreira viveu história curiosa no Salgueiros

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·15 de janeiro de 2026

Mário Ferreira está a viver o momento mais alto da sua ainda curta carreira. Ao serviço do Fafe, acaba de eliminar o SC Braga (2-1), depois de já ter eliminado outras duas equipas de Primeira Liga, e assim levou o emblema do terceiro escalão até às meias-finais da Taça de Portugal de forma épica.
São altitudes impressionantes para um treinador de apenas 31 anos. Um treinador que está apenas na sua primeira experiência no contexto profissional e que há três anos estava na equipa B do Salgueiros, no futebol distrital, onde fez parte de uma curiosa e improvável história que, agora, recordamos.
Artigo publicado originalmente no dia 22/11/2022
Há histórias que provam que devemos sempre lutar pelos nossos sonhos. Esta é mais uma e muito bonita.
Carlinhos é um jovem moçambicano de 21 anos. Com o sonho de jogar futebol a falar bem alto na sua vida, tentou encontrar o seu lugar.
Esteve duas semanas a treinar com a equipa B do Salgueiros, ainda que à experiência. Contra todos os seus planos, não passou nos testes e o treinador Mário Ferreira dispensou-o. «Foi em agosto. No início da pré-época, nós recebemos sempre jogadores à experiência e o Carlinhos, num jogo-treino que fez, não demonstrou grandes capacidades técnicas e táticas e nós decidimos não ficar com ele», explicou o técnico ao zerozero.
A desilusão inerente de perder uma oportunidade tomou conta de Carlinhos. Está em Portugal há três anos e completamente sozinho. Quer jogar futebol e, nessa altura, sentiu-se privado desse sonho. Trabalhava (e trabalha) num restaurante na Foz, na cidade do Porto, para conseguir viver - ou sobreviver. O futebol é, para ele, o sítio onde pode ser mais próximo de si mesmo e da sua felicidade.
«Essas duas semanas foram minimamente boas. Estava a treinar bem, mas o mister não tinha planos para mim. Não queria contar comigo porque já tinha ideias para o plantel - quem usar e quem não usar - e, no fim dessas duas semanas, dispensou-me porque eu não iria ter muitos minutos na equipa. Quando isso aconteceu, eu pedi mais uma oportunidade, mas ele disse-me que não dava e saí de cabeça baixa», contou Carlinhos ao zerozero.
No entanto, podemos dizer que trabalhar nesse mesmo restaurante o aproximou de (voltar a) fazer o que mais gosta. Poucos dias depois de ser dispensado por Mário Ferreira, Carlinhos nem sonhava quem iria atender no local de trabalho..., ou não fosse mesmo Mário a entrar pela porta adentro. «Na mesma semana em que eu disse que não contava com ele, fui, com a minha família a um restaurante na Foz, e, por coincidência, ele estava lá a trabalhar», relembrou o treinador.
Carlinhos não viu Mário entrar. «Fui trabalhar e, por sorte, ele foi jantar no mesmo restaurante em que eu trabalhava. Eu atendi-o sem saber que era ele que estava ali. Não o vi quando entrou e eu só fui à mesa cumprimentar, como normal, e entregar as ementas. E, quando eu vejo,... era o mister. Cumprimentei-o, atendi-o, e, depois de jantar, tentei falar com ele para pedir mais uma oportunidade. Ele disse-me: ‘Pronto, vamos lá ver. Terça-feira volta a treinar’.» E Carlinhos lá apareceu no Complexo Desportivo de Campanhã.
Na pré-temporada, dizia Mário Ferreira, Carlinhos não demonstrou aptidões técnicas e táticas necessárias, mas, quando pediu uma nova oportunidade, o treinador não pensou duas vezes em concedê-la. Porquê? «O coração.» Mais alto do que a razão, o coração foi o motivo que levou ao regresso do jovem ao Salgueiros. Porém, Mário Ferreira encontrou justificação para além dessa.
«Nós não somos uma equipa profissional, somos uma equipa amadora. Nenhum jogador da nossa equipa é federado e, quando surgem este tipo de situações, não devemos fechar a porta. Nunca sabemos o dia de amanhã e, se ele teve a capacidade, a coragem e a humildade de pedir uma segunda vez, eu acho que não podia ser vedado a isso. Não podia. Há dias maus, todos temos. Foi isso que eu pensei quando lhe dei outra oportunidade.»
Carlinhos apareceu, nessa terça-feira, e nunca mais deixou de lá voltar. A treinar, jogar e trabalhar no tal restaurante na Foz simultaneamente, o jovem moçambicano ocupa os seus dias a fazer aquilo que mais gosta sem se sentir tão sozinho. Ao zerozero, fala em «retribuição».
Depois de jogar na AE Africanos de Bragança durante duas temporadas (foi lá onde tirou a licenciatura em Desporto), Carlinhos conta com seis jogos na equipa B do Salgueiros, na segunda divisão distrital da Associação de Futebol do Porto. Vão em primeiro lugar do campeonato, em igualdade de pontos com a equipa B do Oliveira do Douro.
Seis jogos depois, na oitava jornada, a felicidade de Carlinhos foi uma das coisas mais importantes no Complexo Desportivo de Campanhã. O Salgueiros B recebeu a homóloga do Maia Lidador e venceu por 4-1. Carlinhos marcou um hat-trick.
«Foi emocionante. Só quem passa por isto é que pode sentir. No banco, não conseguimos expressar as emoções que sentimos lá dentro. Mas foi um sentimento gratificante porque é o esforço e a humildade a prevalecer no jogo. Foi gratificante vê-lo brilhar - um rapaz que vem do continente africano, que trabalha em horários difíceis, que está sem família cá - é bom vê-lo feliz, a jogar futebol e marcar. É um sentimento que toda a gente deveria sentir. Aquela vitória valeu por muitas», contou, emocionado, Mário Ferreira, a quem Carlinhos abraçou quando marcou o primeiro golo desses três.
«Senti uma retribuição para com o mister e para com a equipa. Quando marquei, fui-lhe agradecer diretamente porque foi ele que tornou tudo possível. E vieram mais golos, graças a Deus. Comemorei com o plantel, com todos e foi muito espetacular. Agora tenho de continuar a trabalhar e ser produtivo na equipa. Quero tentar subir ao mais alto nível.»
A entrega, a paixão e a humildade - este é o início da história de Carlinhos. Uma história que, certamente, ainda terá muita tinta para correr.









































