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·20 April 2026
Do futebol para a guerra: «A minha família não sabia se eu estava vivo ou morto»

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·20 April 2026

Até aos 17 anos, o futebol era o centro da vida para Samuel. Não apenas pelos jogos ou pelos treinos, mas por tudo o que existia à volta: o balneário, as conversas, as amizades que se criavam quase sem esforço. «As amizades, as companhias… isso é o melhor do futebol», recorda. «Cria-se família ali dentro.» Era um mundo simples, mas completo.
Perosinho e Oliveira do Douro, históricos da cidade de Vila Nova de Gaia, foram a casa emprestada do antigo médio ao longo de sete anos. Tudo mudou em 2022.
A saída, porém, não foi uma escolha. Foi uma imposição. Após contrair uma lesão no joelho, não houve despedida, nem tempo para assimilar. De um momento para o outro, aquilo que era rotina desapareceu, obrigando-o a procurar um novo caminho. «Uma pessoa tenta endireitar-se, arranja outros rumos.»
Seguiu por vias mais convencionais. Passou pelo turismo, saiu da escola e entrou cedo no mundo do trabalho. «Comecei logo a trabalhar. Fiz um curso de soldador… até gosto, por acaso.»
Houve tentativa de estabilidade, de normalidade. Mas algo não encaixava. «Aos 19 já estava farto. Aquilo não era para mim.» A inquietação foi crescendo até se transformar numa decisão. Simples na forma, mas pesada nas consequências: «Pensei: por que não?»
Foi assim que saiu de Portugal rumo a França, com o objetivo de entrar na Legião Estrangeira. Sem preparação, sem garantias, sem saber exatamente ao que ia. «Fui sem preparação física nenhuma, nem sabia bem ao que ia.» O choque foi imediato. «Olhei à volta e vi lá o pessoal todo musculado… pensei: o que é que eu estou aqui a fazer?»
Ainda assim, ficou.
* por Bruno Teixeira
Vieram os testes exigentes, físicos e psicológicos, momentos em que a dúvida era constante. «Havia alturas em que duvidava de mim próprio. Mas no fim deu certo, o meu maior desafio nem sempre foi o esforço físico, foi sim o silêncio. Estive três meses sem telemóvel. A minha família não sabia se eu estava vivo ou morto.»
É uma frase dita sem dramatização, mas que carrega um peso evidente.
Depois da Legião, o passo seguinte levou-o para um cenário ainda mais extremo: a guerra na Ucrânia. A decisão surgiu pela procura de algo mais intenso. «Quis viver missões reais, mais adrenalina, mais ação.»
Rapidamente percebeu que a realidade ultrapassa qualquer ideia prévia. «Aqui é guerra. Não há outra forma de dizer, Vês a destruição e o sofrimento das pessoas, é uma realidade muito pesada.»
No terreno, tudo se reduz ao essencial. «Aqui ou matas ou morres. É 50-50». Não há espaço para reflexão prolongada. «A adrenalina é tanta que tu não pensas em nada. Só pensas: tenho de sobreviver.» É um estado constante de alerta, onde o instinto se sobrepõe ao pensamento.
Quando fala das situações mais extremas, não evita o tema, mas também não o explora. «Sim, já estive em combate…e o pior já aconteceu.» A forma como o diz é contida, quase seca. Mas há uma consequência inevitável. «Depois ficas a pensar nisso. A pessoa podia ter família… mas tu também tens.» Não há heroísmo nas palavras, apenas a aceitação de uma realidade difícil. «É uma coisa que fica contigo.»
Curiosamente, o futebol, apesar de distante, continua presente. Não como prática, mas como base. «O futebol ajudou-me muito. Ensina-te a comunicar, a confiar nos teus parceiros.» No fundo, os princípios mantêm-se. «Como no futebol, aqui também crias irmãos. Tens de confiar no homem que está ao teu lado.» A diferença está apenas no contexto.
E depois há as saudades mais simples, quase banais, mas que ganham outra dimensão à distância. «Marcar uns golos… isso faz falta.» E logo a seguir, com um tom mais leve: «E a bifana depois do jogo. Isso então… esquece.» Pequenos rituais que, fora daquele mundo, parecem insignificantes, mas que ali representam tudo.
A família nunca ficou fora da equação. Pelo contrário. Foi quem mais sentiu as decisões. «Quando fui para a Legião, disseram logo que eu era maluco, que não ia conseguir.» Era medo, incompreensão, preocupação. Com o tempo, veio alguma aceitação. «Agora já estão mais habituados. Mas sei que custa sempre.»
Ainda assim, o contacto mantém-se firme. «Falo com eles todos os dias. Pergunto se está tudo bem… eles também perguntam.» Uma rotina simples que mantém a ligação viva.
O quotidiano, longe de qualquer romantização, resume-se ao essencial. «Quando não estou em missões ou treinos… durmo.» Não há espaço para grandes distrações. «Tens de recuperar. De outra forma, não aguentas.»
Quando questionado sobre o futuro, não há grandes projeções. Nem planos detalhados. A resposta surge direta, sem rodeios: «O objetivo é sobreviver… para depois contar a história, tenho esperança que a guerra acabe.» É uma visão prática, moldada pelo contexto em que vive.
E para quem vê este caminho com curiosidade ou até admiração, deixa um aviso claro: «Eu não aconselho. Isto é muito duro e traumático.» Ainda assim, não perde a honestidade que marcou toda a conversa. «Mas pronto… há sempre malucos para tudo, como eu.»
No fim, entre o relvado que ficou para trás e a realidade que enfrenta hoje, permanece uma identidade construída em dois mundos completamente diferentes. Um feito de jogos, golos e companheirismo. Outro de sobrevivência, silêncio e resistência.
Samuel Pinho continua em território ucraniano. Por questões de segurança, não nos pode relevar a localização atual. A guerra, esse estupor, é um parceiro implacável. Resta a esperança de um dia poder voltar a casa.
De pazes feitas com a vida e a pensar no seu futebol.









































