São Paulo
·27 de junio de 2026
O Combinado não sai caro

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·27 de junio de 2026

Neste dia 27 de junho, o Arquivo Histórico do São Paulo aproveita o último jogo de Portugal na primeira fase da Copa do Mundo de 2026, contra a Colômbia, para relembrar a primeira vez que o Tricolor exibiu seu manto e escudo no país da península ibérica – e essa passagem envolve uma combinação bem rara na história são-paulina.
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Preâmbulo
Após a derrota para o Brasil para o Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, no evento que ficaria conhecido na história como “El Maracanazo”, o futebol brasileiro entrou em depressão e a sociedade como um todo amargurou-se com o esporte – tanto que a seleção somente voltaria a jogar novamente em abril de 1952!
Como forma de reavivar a paixão do torcedor e limpar a honra dos esportistas nacionais, o São Paulo organizou, ainda ao final de 1950, uma excursão à Europa a ser realizada entre os meses de março e maio de 1951. Seria a primeira viagem do clube a outro continente.
O estilo de jogo brasileiro ainda tinha peso e prestígio no cenário internacional, e mais de uma dezena de partidas foram contratadas por equipes de vários países. Então “era preciso, portanto, apresentar-se o São Paulo com uma equipe numerosa e forte, para não desmerecer o futebol brasileiro aos olhos curiosos do mundo, máxime após o Campeonato Mundial perdido em nossa própria casa, em luta memorável que o Destino nos traçou adversa”.
Contudo, o São Paulo vinha de uma temporada desgastante, e se encontrava ainda baqueado, pois também sofrera uma derrota inesperada – e muito nebulosa, em termos de lisura por parte de arbitragem e adversário, que foram flagrados comemorando juntos o título rival em uma festa de carnaval –, em que perdera a chance de obter o tricampeonato paulista em 1950.
Para não correr risco de manchar a fama brasileira e ferir ainda mais a alma dos conterrâneos, a diretoria propôs ao então forte time do Bangu, do Rio de Janeiro, o empréstimo de alguns reforços, primeiramente, e, posteriormente, que a própria equipe carioca se alinhasse em campo junto ao Tricolor em gramados europeus.
Surgiu assim, então, o Combinado São Paulo-Bangu. Esse preâmbulo foi aqui necessário para dar melhor contexto aos jogos que o Tricolor fez em Portugal, nesta excursão, mas maior profundidade sobre esse tema será dada em oportunidade futura, com artigo exclusivo sobre. De toda maneira, foram essas as partidas do conjunto no Velho Mundo:

Por motivos variados, especialmente a ausência do craque carioca Zizinho em escalações do técnico são-paulino Leônidas da Silva – que debutava nessa função, mas que também chegara a entrar em campo em Bruxelas –, ou a disputa de com camisa de qual time jogariam cada jogo ou etapa da partida, a delegação do Bangu desistiu da parceria depois do embate contra o Sporting, em Lisboa, quando ainda restavam muitos confrontos a serem realizados na Espanha e Suécia.
Em voo solo, o Tricolor ainda permaneceu mais um tempo em solo europeu. Venceu bem o último duelo, e por fim decidiu também regressar ao Brasil. Neste ponto da história, vale resgatar como se deram as pelejas contra o Sporting de Lisboa, no dia 29 de abril, ainda como Combinado, e contra Os Belenenses, jogo oficial do Tricolor.
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Sporting de Lisboa
São Paulo e Bangu chegaram em Lisboa em voos diferentes, mais por questões logísticas do que por atritos e desavenças que ali já eram notórias a qualquer um de fora. O primeiro grupo, com mais representantes tricolores, veio de Copenhague, depois de escala em Roma, em avião da Alitalia, e desembarcou com nove jogadores (Mário, Rafanelli, Noronha, Alfredo Ramos, Mirim, Alcino, Durval, Bibe e Dido); o técnico Leônidas; os radialistas Fausto de Almeida, da Globo, e Pedro Luís, da Pan-Americana; e os dirigentes Geraldo de Oliveira e Joaquim de Almeida (empresário que arranjou todas as partidas da excursão).
O segundo grupo, por sua vez predominado de cariocas, chegou depois, em voo da KLM proveniente da Suécia, contando com o tesoureiro são-paulino Celso de Azevedo Marques e os atletas Poy, Ruy, Mauro e Bauer. Todos também foram recepcionados por dirigentes do Sporting, que ofereceu aos membros das duas delegações um jantar especial na sede da Cruz Vermelha local. Aliás, a renda proporcionada pela bilheteria do amistoso seria toda revertida a este órgão de assistência hospitalar.

Houve quem acreditasse que o aposentado Leônidas voltaria a campo novamente, pois assim jornais portugueses noticiaram previamente, mas como o Bangu cumpriu o combinado e não faltou jogadores para completar o XI inicial, o craque pôde poupar o fôlego e se concentrar na nova função de comandar à equipe de fora das quatro linhas.
Antes do prélio principal, no dia 29 de abril, seria disputada a decisão do Campeonato Português de Juniores, entre as outras duas grandes equipes do país, Benfica (que se sagraria campeã) e Porto. Assim, havia expectativa de grande público. O Sporting, inclusive, era o campeão português em vigor, naquele momento.
Mesmo com tal status, e com três quartos das arquibancadas ocupadas, os momentos iniciais da partida já demonstravam que a equipe portuguesa não seria párea para os brasileiros. Logo aos seis minutos, o meia-esquerda Teixeirinha, banguense, abriu o placar. Pouco depois, o extrema-esquerda Nívio, também carioca, ampliou. Antes do fim da primeira etapa, o são-paulino Durval também deixou o dele e salvou a honra da linha ofensiva paulista com um verdadeiro golaço, digno de entrar para a história:
“Aos 39 minutos, o avançado-centro brasileiro Durval passou o resultado para 3 a 0 com um golo de espetáculo, dominando a bola no ar, para a passar de um lado para o outro, sobre a cabeça dos adversários e fazer o tento”, afirmou o Mundo Desportivo de Lisboa, de 30 de abril.
No segundo tempo, já com as camisas do grêmio carioca, os portugueses descontaram o placar com Jesus Correia, aos 12, mas Teixeirinha marcou novamente, aos 28, definindo a goleada brasileira sobre os donos da casa.
“O São Paulo F.C., vice-campeão paulista, realizou excelente demonstração do virtuosismo dos jogadores brasileiros derrotando o Sporting C.P. por 4-1”, “Uma excelente lição do futebol brasileiro perante um mal-estar do futebol português que não pode manter-se – o Sporting tem de empertigar!”, e “O misto São Paulo-Bangu mostrou a grande categoria a que chegou o futebol brasileiro” foram as manchetes do A Bola, do Diário Popular de Lisboa, e do Diário de Notícias de Lisboa. Este último, foi além:
“A partida de ontem… forneceu aos milhares de espectadores um contraste flagrante entre a qualidade superior do futebol brasileiro e a mediocridade atual de jogodos portugueses, num desafio desnivelado demais”. E os próprios atletas brasileiros tiveram essa visão do encontro: “Esperávamos encontrar mais firme oposição da equipe do Sporting”, comentou Nívio ao Record, de Lisboa.
Após este amistoso beneficente, o combinado se desfez. Os integrantes do Bangu tomaram voos para o Rio de Janeiro, enquanto os são-paulinos permaneceram na capital portuguesa para mais uma partida…



SPORTING LISBOA 1 x 4 COMBINADO SÃO PAULO-BANGU29/04/1951. Amistoso Internacional: Jogo Único.Lisboa (Portugal), Estádio Nacional de Lisboa – Jamor.
SPFC/BAC: Mário (José Poy); Ruy e Mauro; Bauer, Alfredo Ramos (Pinguela/Bangu) e Mirim/Bangu; Alcino, Bibe, Durval (Dido), Teixeirinha/Bangu e Nívio/Bangu. TÉCNICO: Leônidas da Silva. GOLS: Teixeirinha, 6/1; Nívio, 14/1; Durval, 39/1 e Teixeirinha, 28/1.
RIVAL: Azevedo (Gomes); Caldeira e Juvenal; Canário (Barros), Passos (Wilson) e Juca; Pacheco Nobre, Vasques, Jesus Correia, Travassos e Albano. TÉCNICO: Desconhecido. GOLS: Jesus Correia, 12/2
ÁRBITRO: Vieira da Costa (do Porto, Portugal).RENDA: 685.000,00 (convertida para Cr$).PÚBLICO: ~30.000 pagantes.

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Com a vergonha passada pelo campeão português, caberia ao mais modesto Os Belenenses a revanche pelo orgulho nacional no dia 6 de maio. Ou ao menos, caberia a tentativa. O time do bairro de Santa Maria de Belém, em Lisboa, não tinha o mesmo calibre que o adversário anterior, mas possuía quatro elementos que faziam parte, costumeiramente, da seleção de Portugal, e havia despachado recentemente os rivais na Taça local.
Já o Tricolor, como esperado, contaria apenas com os próprios atletas. Na verdade, pouco mudava, apenas três jogadores voltariam à titularidade: Ponce de León, Dido e Savério. No banco, a situação apertava um pouco: somente o goleiro Mário, o atacante Lauro e o lateral Noronha. Com o elenco apertado, mais uma vez os portugueses esperavam que Leônidas desse o prazer de se exibir em campo, mas isto não ocorreu.
A forma que o Diamante Negro agradecer ao carinho dos aficionados e retribuir o bom acolhimento dos portugueses foi abrir um treinamento no Estádio Alvalade – onde aí sim, até bateu uma bolinha – e fazer os brasileiros atuarem na atividade com o uniforme do Sporting Lisboa – ocasionando uma rara fotografia em que um time do São Paulo utiliza um uniforme predominantemente verde…

O clima festivo, porém, deu lugar a um extremo pesar no fim da tarde do dia 4 de maio ao chegarem as notícias de um acidente fatal da aeronave que conduzia a equipe do Torino, a mesma que ali em Lisboa enfrentara o Benfica na véspera e que ao regressar para a Itália caíra contra um muro da basílica de Superga, em Turim.

Ingresso de Marcelo Fernandez
Depois de executado o triste minuto de silêncio, o amistoso teve início com os portugueses tentando marcar presença, afinal, tinham o brio atingido. Até ofereceram maior resistência aos tricolores, principalmente na primeira meia hora do encontro, já que, aos 26 minutos, Durval rompeu a defesa, invadiu a área, driblou Serafim e chutou sem defesa para o goleiro, abrindo o placar.
Dez minutos depois, Dido tentou primeiro de cabeça, mas não deu. Ele aproveitou, então, o rebote e ampliou. O jogo caminhava-se para o mesmo cenário do duelo anterior, quando, ainda no primeiro tempo, Narciso Pereira descontou para os locais em lance de bola cruzada na área, deixando-os vivos na partida.
E, mais do que vivos, os belenenses conseguiram empatar o jogo no segundo tempo, aos 25 minutos, em lance que Pinto de Almeida saíra cara-a-cara com Poy. Foi o sinal de alerta que fez os tricolores voltarem à carga total. Nem três minutos se passaram e Dido, em linda jogada individual, adentrou na grande área adversária, driblou dois marcadores em sequência (Pedroto e Figueiredo) e bateu no ângulo, longe das mãos do arqueiro Sério. Um verdadeiro golaço.
Desmoralizados, e já perto do fim do encontro, o time de azul pouca ameaça representou ao Tricolor, que, ao longo da peleja, além dos gols, acumulou quatro bolas na trave e um tento anulado. Até que, aos 39 minutos, Alcino ia marcando mais um para os brasileiros quando fora derrubado por dois defensores. Pênalti marcado e convertido por Bibe. Placar final: 4 a 2 para o São Paulo.
Fim de turnê internacional para o Tricolor.



OS BELENENSES 2 x 4 SÃO PAULO06/05/1951. Amistoso Internacional: Jogo Único.Lisboa (Portugal), Estádio Nacional de Lisboa – Jamor.
SPFC: Jose Poy; Savério e Mauro; Bauer, Ruy e Alfredo Ramos; Alcino, Ponce de León, Durval (Lauro), Bibe e Dido. TÉCNICO: Leônidas da Silva. GOLS: Durval, 26/1; Dido, 36/1; Dido, 27/2; Bibe (pênalti), 39/2.
RIVAL: José Sério; António Figueiredo e Serafim das Neves; José Maria Pedroto, António Feliciano e António Castela; Mário Rui, Renato Marchiaro, Narciso Pereira, Humberto Buchelli e António Castanheira (Pinto de Almeida). TÉCNICO: Oscar Tellechea. GOLS: Narciso Pereira, 40/1; Pinto de Almeida, 25/2.
ÁRBITRO: Mario Ribeiro Sanches (Portugal).PÚBLICO: ~20.000 pagantes.

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Retorno digno de campeões
A primeira excursão do Tricolor à Europa, apesar dos entreveros com o parceiro Bangu, foi um sucesso. Para o bom nome do futebol brasileiro e para a revitalização da paixão dos torcedores, foi ainda mais. O total de dez vitórias obtidas pelo conjunto nos gramados do Velho Mundo representava um novo recorde nacional – o feito superou as marcas celebradas pelo Paulistano – os reis do futebol – em 1925, e pelo Vasco da Gama, em 1949, de nove sucessos.
E, ainda que a viagem de volta tenha sido aflitiva – com o desastre de Superga sempre à mente durante as longas horas daquele traslado –, toda a tensão se dissipou rapidamente e deu lugar a grande alegria quando a delegação são-paulina vislumbrou a imensa aglomeração de torcedores – não somente tricolores – que estavam à espera do grupo no Aeroporto de Congonhas para lhe prestar as devidas honras.

Os festejos pelo feito se estenderam ao longo dos dias, com cerimônias e condecorações oficiais. E até mesmo o Palmeiras prestou homenagem ao São Paulo, em especial momentos antes do Choque-Rei válido pela Taça Cidade de São Paulo de 1951.
Por Michael Serra / Arquivo Histórico João Farah
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