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·24 de setembro de 2026
O impacto financeiro da proibição das BETS nos cofres do São Paulo

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O governo pode assinar essa semana a Medida Provisória que endurece as regras das casas de apostas, e o texto ainda não é público. Por isso, este artigo trabalha com cenários. Não se sabe qual versão sairá do Planalto. O que dá para medir é quanto o São Paulo tem hoje amarrado ao dinheiro das bets, direta e indiretamente, e o que acontece com o endividamento se esse dinheiro sumir.
A MP foi anunciada, mas o conteúdo mudou de versão para versão. Em 16 de setembro, o UOL informou que o governo discutia uma medida ampla, com proibição de jogos online e fortes restrições às apostas esportivas. No dia seguinte, a Reuters informou que uma das versões proibiria cassinos online, mas manteria as apostas esportivas e os patrocínios. A versão “branda” também tem efeito relevante: grande parte das empresas atua ao mesmo tempo em apostas esportivas e em cassinos online, e o cassino online é a atividade que representa a maior parte do lucro dessas empresas.
O tom político não sugere recuo. Na abertura da Assembleia Geral da ONU, Lula disse que o Brasil não vai tolerar esse modelo de negócio, e o tema seria discutido em reunião do governo nesta quarta-feira (23). Do outro lado, clubes e federações articulam uma audiência com o presidente para tentar barrar a MP. O São Paulo assinou o manifesto.
Antes de falar da Superbet, é preciso olhar a composição da receita. Em 2025, o São Paulo faturou mais de R$ 1 bilhão e as receitas do negócio FUTEBOL foi de R$ 836 milhões.
A venda de jogadores é a maior linha, e é justamente a que não se repete com previsibilidade. Tirando a negociação de atletas, a receita recorrente foi de R$ 552 milhões. É sobre essa base que o risco das bets precisa ser medido, porque é ela que paga a folha mês a mês. Portanto, publicidade e patrocínios representaram mais de 21% da receita recorrente do futebol do clube em 2025.
Isso sem falar no impacto que a saída das Bets irá causar de forma indireta em outras linhas da receita do clube como Direitos de TV e Premiações, tendo em vista que elas patrocinam todo o ecossistema do futebol atualmente.
O contrato máster é a maior receita comercial isolada do clube. Na renovação de 2025, o valor anual inicial ficaria em R$ 78 milhões no primeiro ano, com reajustes progressivos até 2030, conforme divulgado na mídia. Pelo detalhamento do Sport Insider, o fixo total é de R$ 680 milhões, outros R$ 388 milhões dependem de desempenho, e o valor fixo projetado para 2027 é de R$ 105 milhões.
Esses valores poderiam ser maiores, tendo em vista o possível gatilho de valorização com aumentos nos patrocínios master de Flamengo, Palmeiras e Corinthians.
Quanto isso representa no faturamento. Com os números de 2025, os R$ 78 milhões da Superbet equivalem a:
Com o fixo de 2027 (R$ 105 mi) sobre a mesma base recorrente, a Superbet passaria a responder por 19% de tudo que o São Paulo arrecada de forma previsível no FUTEBOL. Quase um em cada cinco reais.
A linha de publicidade e patrocínios conta a história melhor que qualquer discurso.
De 2020 para 2025, a linha cresceu quase seis vezes. Só entre 2024 e 2025, o salto foi de R$ 46 milhões (+61%), e a maior parte disso veio da renovação com a Superbet, que subiu o fixo de R$ 52 milhões para R$ 78 milhões.
O exercício que eu faço é simples: tire a Superbet de 2025. Sobram cerca de R$ 43 milhões em patrocínios, o mesmo patamar de 2021 e abaixo do que o clube faturava em 2016. Em outras palavras, todo o crescimento comercial dos últimos anos está pendurado em um único contrato, de um único setor, que hoje é alvo direto do governo.
Um detalhe do contrato piora o cenário. O São Paulo comemorou a cláusula “radar”, que atrela o valor ao que recebem Flamengo, Palmeiras e Corinthians, conforme citamos acima. Só que, segundo o próprio diretor de marketing, se houver variação no mercado, para cima ou para baixo, o contrato se ajusta automaticamente. Se a MP derrubar o valor dos patrocínios dos rivais, o do São Paulo pode ser puxado para baixo junto, mesmo sem rescisão.
A dependência não termina na camisa. A Superbet dá nome à Supercopa, e a Betano ao Brasileirão e à Copa do Brasil, mas a CBF não divulga quanto arrecada com essas operações. O que se sabe é que parte desse dinheiro volta aos clubes em premiação.
Na televisão, o efeito é mais lento, mas potencialmente maior. O setor de apostas teria investido mais de R$ 1,44 bilhão em TV aberta, TV paga e rádio em 2025. Quem paga pelos direitos de transmissão faz a conta com base na publicidade que consegue vender. Se o maior anunciante do futebol sai, as cotas perdem valor, e isso aparece na próxima rodada de negociação dos direitos.
Para o São Paulo, essa é a linha mais exposta de todas: R$ 245 milhões em direitos de TV em 2025, 44% da receita recorrente do futebol. Os contratos de transmissão vigentes são de longo prazo, então o impacto não chega no dia seguinte à MP. Ele chega na renegociação, e chega sobre a maior fonte de receita previsível do clube.
O clube fechou 2025 com dívida de R$ 858 milhões, contra R$ 968 milhões em 2024. A melhora durou pouco. No primeiro trimestre de 2026, o endividamento chegou a R$ 936,2 milhões, alta de cerca de R$ 78 milhões no período.
Vale notar o contexto: a redução de 2025 aconteceu num ano com R$ 284 milhões em venda de atletas, 34% de toda a receita. Sem esse volume extraordinário, não haveria superávit. A dívida líquida caiu porque o clube vendeu jogadores, não porque a operação recorrente passou a se pagar.
A estrutura da dívida torna o golpe mais perigoso. Os empréstimos bancários somavam cerca de R$ 277,6 milhões, com 70% da dívida bancária concentrada no curto prazo. Além disso, o FIDC lançado em 2024 exigia superávit. Uma receita recorrente que desaparece no meio da temporada não só aumenta a necessidade de crédito, como pode pressionar os covenants das operações que já existem.
A conta é direta: com a mesma estrutura de custos, cada real que a Superbet deixa de pagar vira um real a mais de dívida, e esse real passa a pagar juros. Em quatro anos, sem corte de despesas e sem vendas extraordinárias para tapar o buraco, a dívida que hoje está em torno de R$ 1 bilhão poderia caminhar para algo entre R$ 1,5 bilhão e R$ 1,6 bilhão até 2030.
O indicador que eu mais olharia é a relação entre folha e receita recorrente. Folha mais direitos de imagem somaram R$ 405 milhões em 2025. Sobre a receita recorrente de R$ 552 milhões, isso já dá 73%. Tirando só a Superbet no valor de 2027, a relação sobe para 91%. No cenário B completo, a folha passa a ser maior do que toda a receita recorrente. Nesse ponto, o São Paulo precisaria vender jogador todo ano apenas para pagar salário, que é exatamente o modelo que empurrou a dívida para cima na última década.
No cenário mais provável, que é a proibição do cassino online com manutenção das apostas esportivas, o São Paulo não perde a Superbet de imediato, mas perde poder de negociação: a patrocinadora terá menos lucro, e a cláusula radar trabalha nos dois sentidos.
Sem a Superbet, a linha de patrocínios do São Paulo volta ao tamanho de 2021. Em qualquer dos cenários, a conclusão é a mesma: o clube não tem margem para absorver choque de receita. E isso diz mais sobre a gestão dos últimos anos do que sobre a MP.








































