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·02 de outubro de 2026
Portugal em greve, mas o problema nacional era um cartaz

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·02 de outubro de 2026

Este país virou um Canal História. E, se não compreende o que vou escrever a seguir, não precisa de ficar, porque esta opinião não é para si.
Já o disse mais do que uma vez: enquanto apaixonado por futebol, tive o privilégio de assistir a duas lendas quebrarem praticamente todos os recordes, Cristiano Ronaldo e Lionel Messi. Vi outros extraordinários, embora gostasse de ter visto Eusébio da Silva Ferreira, Pelé ou Maradona. Mas ainda vi Ronaldinho, Ronaldo, Zidane, Roberto Carlos, Rui Costa, Seedorf, Ribéry, Totti, Del Piero, Nedvěd, Figo, Eto’o, Drogba, Aimar, Saviola, Kaká e tantos, tantos outros. Todos tiveram o seu tempo e todos deixaram alguma coisa ao futebol.
Mas estamos em 2026. O futebol continua. O presente procura novas estrelas para ocupar o espaço deixado pelas antigas e Portugal tem uma geração no topo do futebol mundial que aparenta ter condições para lá continuar durante vários anos. Só que, olhando para aquilo que se passa há vários dias, parece que deixámos de falar de futebol. Isto transformou-se numa novela, cheia de realizadores à procura daquele ouro chamado audiências. Os canais de informação transformaram o caso Ronaldo-Jorge Jesus num reality show, com o bom, o mau, o vilão e um novo episódio a cada hora.
Há ainda uma particularidade impossível de ignorar: Cristiano Ronaldo detém, através da CR7, S.A., 30% da estrutura proprietária da Medialivre. Portanto, daqui para a frente, sempre que falar da CMTV neste assunto, farei questão de recordar: CMTV, canal da Medialivre, grupo em que Cristiano Ronaldo tem uma participação de 30%. Não significa que Ronaldo escolha notícias, jornalistas ou alinhamentos. Significa apenas que é uma informação relevante para quem está a assistir à cobertura de um assunto em que um dos protagonistas é também acionista do grupo que o está a noticiar.
O episódio de hoje foram os cartazes espalhados por Lisboa e Oeiras. Imagens feitas com Inteligência Artificial, mensagens de apoio a Ronaldo e críticas a Jorge Jesus. Em Oeiras, junto à Cidade do Futebol, apareceu a CMTV antes da colocação do cartaz e por lá continuou até a Câmara Municipal mandar retirar a estrutura. A autarquia explicou depois a razão: estava instalada ilegalmente e não cumpria as regras e autorizações aplicáveis.
E ainda assistimos em estúdio à indignação pela rapidez com que a Câmara de Oeiras atuou. Imagine-se o escândalo: uma autarquia deteta uma estrutura ilegal e manda retirá-la rapidamente. Neste país, até o cumprimento célere da lei consegue transformar-se num episódio televisivo.
Quanto mais tempo o cartaz estivesse ali, mais horas de televisão havia para preencher. Mais diretos, mais comentários, mais indignação, mais debate e mais um capítulo da novela Ronaldo-Jorge Jesus. Não estou sequer a discutir se alguém gosta ou não do cartaz. O responsável pela iniciativa já apareceu publicamente, assumiu que gastou 1.900 euros nos cartazes e garantiu que não teve qualquer contacto com Ronaldo ou com pessoas ligadas ao jogador. O assunto é outro: a dimensão mediática que se decidiu dar a isto.
No mesmo dia em que Portugal teve trabalhadores da Administração Pública em greve, com perturbações em escolas, saúde, autarquias e outros serviços, tivemos horas de televisão dedicadas a cartazes feitos com Inteligência Artificial sobre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus. Num país onde o custo de vida continua a pesar nas famílias, onde a habitação é um problema e onde o acesso atempado à saúde continua a preocupar milhares de portugueses, conseguimos transformar um outdoor numa espécie de emergência nacional.
É este o ponto.
Podemos admirar Cristiano Ronaldo. Eu admiro aquilo que fez dentro de campo. Podemos discutir Jorge Jesus, a decisão de não colocar Ronaldo, a saída do estágio e até quem teve razão nesta história.
Mas isto já deixou de ser futebol.
É televisão.
E só mesmo em Portugal um cartaz ilegal, feito com Inteligência Artificial, consegue ter mais realizadores, comentadores e episódios do que muitas séries da Netflix.







































