oGol.com.br
·25 de setembro de 2026
Totti 'sonâmbulo' na Roma e impacto de Telê: Antônio Carlos Zago repassa a carreira

In partnership with
Yahoo sportsoGol.com.br
·25 de setembro de 2026

Criado em família pobre, fã de futebol desde cedo e sempre sonhador, Antônio Carlos Zago deu seus primeiros passos na carreira futebolística no Mato Grosso do Sul. Teve, em primeiro momento, de conciliar três vidas diferentes: a de atleta, a de estudante e a de trabalhador.
"Eu comecei a jogar no Ubiratan de Dourados e evoluí rápido. Comecei no juvenil, três meses depois fui para os juniores e, passados mais três meses, estava no profissional. Eu trabalhava em um depósito de verduras e estudava ao mesmo tempo. Terça, quinta e sábado acordava 3 horas da manhã para descarregar os caminhões. Quando eu cheguei ao meu pai e falei que ia tentar ser jogador, ele me apoiou. Disse que 'um prato de comida nunca ia faltar em casa'. Isso só me deu mais forças", disse o hoje treinador, em entrevista exclusiva a oGol (você pode assistir clicando aqui).
Apesar de ter se apresentado ao mundo como zagueiro, Zago relembra que nem sempre foi assim. No começo de sua carreira, o paulista jogava como meia e se destacava tanto pelos gols marcados como pelas assistências. Foi no São Paulo que, gradativamente, recuou até se tornar zagueiro de ofício.
"Eu era meia, comecei a fazer gols e chamei a atenção. Fui fazer um período de testes no São Paulo. Lembro que saímos de Dourados num domingo à tarde e chegamos em São Paulo na manhã da segunda. Foram 15 horas de trajeto e já me chamaram para participar num coletivo, onde fiz dois gols. Passei a fazer parte do 'Expressinho São Paulo', que rodava pelo estado fazendo amistosos. Depois fiquei dois anos emprestado até voltar ao São Paulo para ter oportunidades. Foram dois anos difíceis, mas eu não podia desanimar", lembrou.
A mudança para a função defensiva tem o dedo especial de dois dos amigos que Zago fez em sua carreira futebolística: Cilinho e Telê. O primeiro o colocou como volante e abriu seus horizontes, enquanto o segundo o firmou como zagueiro, posição que atuaria pelo resto da carreira.
"O Cilinho tinha umas visões meio malucas. Acabou me recuando, primeiro como volante. Depois, como ele gostava de jogar com três zagueiros, ele me colocou de líbero. Eu joguei alguns jogos com ele e me firmei mesmo com o Telê Santana. Eu tinha liberdade para sair jogando de trás. A adaptação foi fácil. Fomos campeões brasileiros em 91 e ganhamos a Libertadores no ano seguinte", disse.
Já adaptado à nova posição, Antônio Carlos, ainda longe de ser conhecido como Zago, marcou época no Morumbi. Foram 144 jogos de 1989 até 1992 e quatro títulos conquistados: uma Libertadores (1992), um Brasileirão (1991) e dois Campeonatos Paulistas (19991 e 1992). Tudo isso sob o comando do melhor treinador que já teve, Telê Santana.
"O Telê foi o melhor que tive na carreira. Ele tinha paciência com os jovens e isso foi um diferencial. Ele marcou época no São Paulo. Todos que passaram com ele só aprenderam. Ele era chato, chato demais, mas a paciência que ele tinha, eu não vi nenhum outro treinador ter. A importância dele ia além das quatro linhas", pontuou.
O ex-defensor viveu o ano de 1990 no São Paulo, aquele em que o clube paulistano foi mal no Campeonato Paulista e disputou o chamado "Módulo B". O Tricolor ficou na oitava colocação do Grupo A, na primeira fase, e não avançou na repescagem. Porém, no ano seguinte, se sagrou campeão estadual.
"Eu sei que o torcedor do São Paulo não gosta quando falam que a equipe disputou a segunda divisão, mas o sentimento foi esse. Mas foi ali que nos deram a oportunidade de nos recuperar no Campeonato Paulista. Acredito que foi ali, também, que o São Paulo voltou a crescer", respondeu.
Em 1992, Antônio Carlos foi tentar a sorte no Albacete, onde jogou 14 jogos e não se adaptou. Voltou, menos de um ano depois, para a capital paulista, dessa vez para defender o outro lado da Barra Funda, o alviverde. Passou três temporadas gloriosas no Palmeiras, de 1993 até 1995.
Desbravou o futebol japonês na sequência, seguindo a experiência de Zico. Acertou com o Kashiwa Reysol e entrou em campo 35 vezes, entre 1996 e 1997, antes de passar pela terceira vez por São Paulo, para vestir a camisa do Corinthians. Jogou 30 partidas pela equipe do Parque São Jorge.
"O período mais curto foi no Corinthians. Mesmo sendo apenas oito ou nove meses, conquistamos o Campeonato Paulista. Passamos um pouco de aperto no Brasileirão daquele ano. O time não se encontrou. Passaram três treinadores por lá e a equipe não se achava dentro de campo. Foi um período vitorioso, mas, ao mesmo tempo, um em que sofremos um pouco", relembrou.
No fim da Carreira, Zago realizou um dos seus sonhos e de sua família ao atuar pelo Santos, entrando em um seleto grupo de atletas que jogou pelos quatro grandes do estado. Já mais experiente e perto de pendurar as chuteiras, também castigado por lesões, o paulista jogou pelo Peixe, mas não teve a sequência que gostaria.
"Eu tinha um sonho em jogar pelo Santos, em ser campeão pelo Santos. O Santos foi a equipe em que as lesões mais me atrapalharam. Eu não consegui ter uma sequência. Em 2004 eu praticamente não joguei, aí eu fui emprestado ao Juventude, em 2005 e 2006, e retornei em 2007, a pedido do Vanderlei Luxemburgo. Eu acho que, se eu não me machuco, a gente seria campeão da Libertadores. Eu sofri um pouco lá, e logo lá", falou.
Mais do que atuar pelos quatro grandes do estado, o ex-defensor se tornou o primeiro, e até então único, a ser campeão pelo quarteto. Em sua visão, o hoje treinador entende que isso provavelmente não ocorrerá mais nos dias atuais, por diversos fatores, incluindo a pressão externa.
"Acho que, hoje em dia, vai ser muito difícil disso acontecer de novo. Na época já não era fácil, pela cobrança da torcida. Passar já não é fácil, ganhar títulos pelos quatro é muito difícil. Eu me sinto muito lisonjeado por esse feito. Vai ficar para sempre na minha história. Eu sou o único que conquistou isso", disse.
Outro fator que Zago entende como um dificultador para que algum atleta jogue pelos quatro grandes do estado é o fato de que, nos tempos atuais, o mercado externo é mais visado pelos jogadores. Enquanto há algumas décadas fazer a carreira no futebol brasileiro era um almejo, hoje em dia o futebol europeu é o destino.
"A maioria dos jogadores que têm a oportunidade vão para fora e querem criar uma carreira fora do futebol brasileiro. Os jogadores estão indo muito jovens, sem criar identidade com algum clube do Brasil. Eu acho que o jogador, indo para fora muito rápido, perde a oportunidade de crescer no Brasil, de ser melhor trabalhado. No final, quem acaba perdendo um pouco é o torcedor brasileiro e a seleção", afirma.
Aos 27 anos de idade, com uma carreira sólida no futebol brasileiro e com certa experiência após uma aventura no Japão, Antônio Carlos foi em busca de realizar um de seus desejos mais antigos enquanto aspirante a atleta profissional: jogar futebol na Itália. E seguindo as dicas de alguns amigos, como fez em toda a carreira.
"A minha família é de italianos e eu nunca tinha ido para lá. Sempre foi uma vontade minha. Conversando com os brasileiros que lá estavam, Cafu, Paulo Sérgio e Aldair, fiquei ainda mais com vontade. Eu criei uma história muito bonita na Roma. Foram praticamente cinco anos. E vitoriosos, mas podiam ser até mais", pontuou.
"Eu sou muito reconhecido em Roma por tudo o que eu fiz, pela entrega dentro de campo. O romano é um torcedor muito caloroso. A gente classifica para a Copa Uefa logo no primeiro ano, joga a Champions duas vezes e conquista o Scudetto depois de 20 anos. Eles não ganhavam desde a época do Falcão, e agora isso perdura até hoje. Foi um período marcante demais para mim", acrescentou.
Antônio Carlos, inclusive, relembra que foi na Itália que ele se tornou Zago. Por conta de suas origens e, principalmente, pelo passaporte italiano, o zagueiro chegou ao País da Bota e viu algo incomum, até aquele momento, em sua apresentação.
"Quando eu cheguei lá, o presidente me falou: 'esquece o Antônio Carlos, aqui você é Zago'. Lá eles usam o sobrenome né, não o nome. No primeiro ano foi 'AC Zago', e logo virou só Zago. Foi um pedido, quase que uma ordem do presidente, e eu tive que acatar", relembrou em meio aos risos.
A adaptação ao país europeu foi muito rápida, o que fez da Roma um dos melhores clubes de sua carreira. Foram 137 jogos disputados e um de seus mais marcantes troféus, o Campeonato Italiano da temporada 00/01, além da Supercoppa da temporada seguinte.
"Como eu fui com a família, e tinha muita vontade de estar lá, eu não tive dificuldade nenhuma para me adaptar. Os brasileiros também me ajudavam. A Roma sempre teve essa tradição de atletas brasileiros. Lembro que, no primeiro ano, eu mais passeava que treinava. Fui conhecer vários lugares. Foi um tempo muito feliz", recorda.
Zago não demorou a cair nas graças da torcida, tanto que recebeu um apelido. Por conta de seu estilo mais duro dentro das quatro linhas, e do alto número de faltas que cometia nas partidas, o defensor era chamado de Exterminador. "Eu cometi alguns erros em minha carreira que não devia ter cometido. Fora que eu sou uma pessoa super tranquila, e isso remete à minha atuação dentro de campo", disse bem humorado.
Na Itália, o brasileiro fez algumas parcerias de muito sucesso, como foram os casos de Cafu, Aldair e Paulo Sérgio, incentivadores de sua ida. E, no clube da capital, o zagueiro participou da maturação de Francesco Totti, tendo até de segurar uma 'bucha' do ídolo romano...
"Quando eu cheguei lá me colocaram no quarto com o Totti. Ele estava começando e já se falava que viria a ser o grande nome da Roma. Mas ele é sonâmbulo. Ele acordava de noite e falava de futebol. Aí eu entendi porque ninguém ficava com ele no quarto. Eu não aguentei nem um mês. Depois fui concentrar com o Cafu, e ele praticamente sempre ficou sozinho", contou.
Apesar de anos gloriosos e de muitas realizações pessoais, Zago recorda que o período na Itália, infelizmente, não foi só de alegrias. Seu grande primeiro baque pessoal veio enquanto jogava na Roma: o falecimento de seu pai.
"A ajuda da família contribuiu muito para eu me reerguer. Meu pai era tudo para mim. Tínhamos mais que uma relação de pai e filho. Ele era meu melhor amigo. Foi um período muito difícil. No meu primeiro ano na Itália, eu fiz tudo com ele. Levei ele para ver onde o pai dele nasceu, para conhecer os familiares dele. Era tudo por ele e pela minha mãe. Eu sou filho único. Sempre que podíamos, nós estávamos juntos. Depois que você tem filhos, você entende que tem que seguir a vida", respondeu.
Durante os 28 anos profissionais de sua carreira, Zago sempre manteve o objetivo de defender a seleção brasileira. E ele conseguiu: foram 37 jogos, três gols e uma assistência pela Canarinho, com um título conquistado, a Copa América de 1999.
Porém, apesar de ter defendido o amarelo mais cobiçado do planeta, o ex-defensor entende que podia ter jogado mais pela seleção, pelo desempenho consistente que teve pelos clubes. Zago poderia ter disputado três Copas, mas perdeu a de 1994 por lesão e a de 1998 e 2002 por opção dos treinadores.
"O Zagallo não ia muito com a minha cara. De 1994 a 1998, eu não fui chamado praticamente nenhuma vez. E aquele foi um dos melhores períodos da minha carreira. Tanto que, quando o André Cruz se machuca em 98, Aldair, César Sampaio e Cafu pediram a minha convocação. Eu estava voando, não tinha jeito. Alguns jogadores que não estavam bem como eu foram chamados", disse.
"Na próxima Copa, eu fui convocado até a metade de 2001, praticamente. Mas com o Felipão, eu fiz só dois jogos. Foi o Vanderlei que montou aquela equipe. Lembro que ia ter uma Copa América na Colômbia e o Felipão reuniu os oito jogadores que tinham sido mais convocados. Tinha Romário, César Sampaio, Rivaldo, Cafu. Ele perguntou quem queria ir para a Copa América, pensando já em descansar alguns para o Mundial. Eu falei que preferia ficar de fora, até para cuidar do meu pai, que estava de cama com câncer. Depois eu nunca mais fui convocado", acrescentou.
Caso tivesse sido chamado para ambas as disputas, Zago acredita que seria titular. E, inclusive, relembra que seus aspectos positivos como zagueiro poderiam ter evitado a catástrofe que foi a final do Mundial de 1998, quando o Brasil perdeu por 3 a 0 para a França, com gol de cabeça de Zidane.
"Eu seria titular tranquilo. Em 2002 não tinha alguém em condições melhores que as que eu me encontrava na seleção. A França mereceu o título em 98, mas eu acho que eu tinha espaço. O Zidane fez uma ótima Copa e uma ótima final, eu só não sei como ele fez aquele gol de cabeça. Isso não entra muito na minha cabeça até hoje", disse.
Apesar de lamentar as ausências nos dois Mundiais, e no de 94 também, só que por lesão, Zago diz não ter ressentimentos na seleção brasileira. Sendo honesto, o hoje treinador alega não ter qualquer mágoa em sua carreira toda.
"Eu não tenho mágoas, não tenho nada. Mas acho que não foram comportamentos como tinham de ser de pessoas dignas (na seleção). Foi muito bom conquistar a Copa América em 1999. Tudo foi muito bom, na verdade", finalizou.







































